Chefes muito especiais
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- Publicado em Terça, 15 Maio 2012 19:56
- Escrito por Marisa Folgato
Mestre da panificação, sócio do estrelado Alex Atala na padaria Em Nome do Pão, professor universitário de gastronomia e figurinha carimbada nos programas de TV. Mesmo com tanta experiência não é que o chefe Rogério Shimura ficou balançado, sem palavras mesmo, na frente de um punhado de jovens mestres-cucas?

Não era para menos. Foi o professor convidado para ensinar a 18 alunos do Chefs Especiais, projeto gastronômico gratuito voltado para portadores de Síndrome de Down, os segredos de uma boa esfirra e deliciosos cookies de chocolate. "Foi uma oportunidade única. Não posso falar muito, tenho coração de manteiga", disse um emocionado Shimura.
Claro, não faltaram (da plateia de parentes aos organizadores, voluntários e visitantes) lágrimas furtivas ao ver tanta alegria e empenho dos aplicados pupilos cheios de vontade de meter a mão na massa, literalmente. "Aliás, quem estiver com a mão limpa não come", foi logo dizendo o empresário Márcio Berti, fundador do projeto com sua mulher, Simone.
Aventais e bandanas na cabeça, eles se entregaram a misturar farinha e outros ingredientes para produzir quitutes de dar água na boca. Tudo bem que mãos ficaram melecadas, rostinhos também. Algumas mães de alunos novatos receberam lá sua dose de farinha, voluntários também. Mas e o resultado? Mais que cheirosas esfirras e cookies (um montão deles), a lição maior foi: como fazer um dia ser um dos mais felizes de sua vida!
Festa – Aquele sábado, no início do mês, foi especial: uma festa para comemorar seis anos do lançamento do projeto, com direito a quatro bolos, confeitados em equipe pelos portadores de Down. "Já temos quase 200 cadastrados e fazemos, em média, um curso por mês, para cerca de 15 alunos a cada edição", conta Simone, advogada e jornalista, que trabalhou sempre com administração de empresas.

"Não temos nenhum caso na família, mas eu e meu marido queríamos fazer algum trabalho social, que envolvesse gastronomia. No primeiro curso, nos apresentaram um grupo com Down e não conseguimos mais nos separar deles", conta ela.
O projeto agora quer alçar voos maiores com a criação do Instituto Chefs Especiais, que pretende oferecer cursos profissionalizantes e iniciativas de inserção no mercado de trabalho. "Um Down pode, por exemplo, precisar de uma orientação diferenciada para exercer uma atividade, e a empresa não ter como treiná-lo. Mas o instituto pode deixá-lo pronto", explica Simone.
Para realizar os cursos, hoje, o Chefs Especiais conta apenas com contribuições de ingredientes e uniformes, além da cessão dos espaços. Precisa de patrocinadores para crescer. O instituto vai necessitar, por exemplo, de uma sede fixa. Hoje cada aula é dada num lugar diferente.
A aula de Shimura foi ministrada no Saber com Sabor, um espaço elegante no alto de Pinheiros, na zona oeste. Essa qualidade dos espaços (alguns restaurantes e doceiras renomados) e dos mestres é marca registrada do projeto, por sinal. Já dividiram suas receitas chefs como Olivier Anquier, Alessandro Segato, Marcos Bassi e muitos outros consagrados.
"É uma amostra de que um projeto para Down pode ser uma coisa bonita, bem feita, de qualidade, porque eles merecem isso", diz a estatística Susana Simões, mãe da aluna Sofia, de 15 anos, e voluntária. A menina adora os eventos. "É legal. Já fiz pizza, pão de queijo." Levou as receitas para casa. E não foi pouca coisa: na última "pizzada" tinha umas 16 pessoas da família para provar as redondas produzidas por Sofia.

Doracy Lourenço da Silva ganhou até bolo de aniversário feito pelo filho Edmilson Luiz, de 19 anos. "É muito bom, a gente mora em Santo Amaro, mas não mede distância para estar aqui", diz Doracy, já se oferecendo para lavar a louça da empreitada.
Faculdade – O Chefs Especiais tocou fundo em Fabrício Ernani da Silva, de 24 anos, um dos primeiros a participar do projeto. Tanto que ele quer até fazer faculdade de gastronomia. E tem se saído tão bem nas aulas que foi convidado para ser o primeiro host do projeto, com direito a remuneração para receber alunos e convidados, mostrar onde estão crachás, uniformes, indicar onde será o evento. "Quero ser chefe."
"Ele gosta de cozinhar e o pai também. Sempre nos ajuda. Se sente útil, não excluído", afirma a mãe de Fabrício, Rosana. E haja fôlego para acompanhar o filho: que anda sozinho de ônibus e faz vários cursos, como violão e teatro.
Piercing no narizinho arrebitado, olhos maquiados pela irmã mais nova, Maria Carolina Soares Fraga, de 18 anos, era uma das mais aplicadas na aula de Shimura. Já fez muitas outras. "Gosto de cozinhar e ajudo minha mãe, que vende bolos, salgadinhos e docinhos. Adoro essas aulas do Chefs Especiais."
Carolina está no último ano do ensino médio em escola regular. "Quero fazer um curso de massagem depois", explica. A mãe, Maria Aparecida, incentiva. Só tem um problema: a despesa extra. "Desde pequena ela quer fazer esse curso e quer ir para a faculdade. Eles se divertem e conhecem outras pessoas com o mesmo problema". afirma Cida. "Você sai de um encontro como esse com o coração massageado", garantiu Shimura. Não foi o único.
Serviço
Agenda, chefes convidados e as receitas da esfirra e do cookie estão no site http://chefsespeciais.blogspot.com.br. O próximo curso, dia 26, no Mercado da Cantareira (Mercadão), já está lotado. Mas as inscrições estão abertas para o dia 23 de junho na Casa Cor. Para saber mais:
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ou
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