sex 04 18 2014

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Regressão cubana

Crocodilo do zoológico de Havana convive em seu lago com latas amassadas e arremessadas pelos visitantes. Foto: Josá Goitia/The New York Times / -

Os problemas não param por aí. Os cubanos também gritam nas ruas, falam palavrões indiscriminadamente, perturbam o sono dos vizinhos com música alta, bebem álcool em público, vandalizam telefones, andam de ônibus sem pagar e jogam pedras em   trens. "Eles ignoram os padrões mais básicos de civilidade e respeito", continuou Castro. "Tudo isso acontece bem embaixo de nosso nariz e sem provocar qualquer objeção ou contestação por parte dos demais cidadãos."

"Tenho a amarga sensação de que somos uma sociedade com uma formação melhor do que nunca, mas não necessariamente esclarecida", afirmou o presidente.

Sua avaliação severa ecoou os pensamentos de muitos cubanos, que lamentam a escalada da corrupção de pequeno porte, do comportamento abrutalhado e sentem saudades dos dias em que o salário do Estado bastava para viver, sem necessidade de surrupiar, e em que o sistema de educação  merecia elogios internacionais.

Entretanto, muitos cubanos também acusam o governo de se apegar a um sistema econômico inviável. O senso de dever comum das pessoas se desintegrou, juntamente com a infraestrutura e os serviços.

O senso moral dos cubanos foi abalado, disse Alexi, pelo "período especial" de severas dificuldades econômicas que se seguiu ao colapso da União Soviética,  quando muitas pessoas recorreram a roubos, trapaças e, em certos casos, à prostituição para sobreviver.

SOBREVIVÊNCIA

Alexi, em pé, sem camisa, do lado de fora de sua casa, apontou para seu filho, de 24 anos, que estava consertando uma calota na calçada. "Como eu poderia tê-lo criado com a mesma moral quando o simples ato de colocar arroz, feijão e porco na mesa requer todo tipo de ilegalidade?. Tive de ensinar a ele os valores da sobrevivência."

Em seu pequeno e mal ventilado apartamento no centro da cidade, Rosa Martínez,  65 anos, concordou. "O que se poderia esperar?", disse Rosa, que divide o apartamento de um quarto com dois filhos e um neto. "As pessoas têm problemas de moradia. Os preços da comida são altos. Estão desesperadas."

No edifício em ruínas de Martínez, era possível ouvir a batida do reggaeton, que substituiu a timba, uma forma de música dançante cubana, como a trilha sonora nacional, eclodindo do outro lado da rua. Moradores disseram que as crianças brincam nos corredores até tarde da noite, e que os vizinhos faziam bastante barulho o tempo todo, ignorando suas queixas. Nas ruas próximas, havia lixo empilhado na calçada ao lado de lixeiras vazias.

Ainda assim, Havana evitou a criminalidade desenfreada e a violência das drogas que assolam muitas cidades latino-americanas e estadunidenses. E, apesar das queixas sobre a deterioração dos modos, muitos cubanos mantêm um senso de comunidade, permanecendo perto da família, compartilhando alimentos e ajudando amigos e vizinhos.

Em contrapartida, pessoas como Miguel Coyula, especialista em urbanismo, estão preocupadas com a possibilidade de toda uma geração não ter conhecido nada além de uma economia degenerada e as privações do período pós-soviético.

PIRÂMIDE INVERTIDA

Além disso, segundo ele, a "pirâmide invertida social" – na qual um médico ganha menos que uma manicure – está se tornando ainda mais pronunciada, à medida que pequenos empresários, utilizando as aberturas feitas por Castro a fim de introduzir algumas iniciativas privadas, têm ganhado dinheiro vendendo pizzas ou telefones celulares. "O dinheiro não está nas mãos das pessoas mais educadas", disse Coyula.

Para Katrin Hansing, professora de antropologia da Universidade da Cidade de Nova York e estudiosa da juventude cubana, crescer em um ambiente onde a fraude e a trapaça são um modo de vida é algo que fomenta o pessimismo. "Esse pessimismo alimenta a falta de engajamento", disse ela. "Há pouca responsabilidade individual com o coletivo."

Os jovens se sentem alienados em relação aos líderes que estão envelhecendo, disse Hansing. "Há uma discrepância muito explícita entre quem está comandando o espetáculo e quem o vive", disse ela. Os jovens estão "vivendo em um universo paralelo."

Cruzando a cidade a partir do prédio onde Rosa mora, Juan, de 19 anos, estudante de veterinária, cuspia na cabeça de um crocodilo no zoológico do centro da cidade. O crocodilo não parecia feliz. Latas de refrigerante amassadas, jogadas por visitantes, flutuavam na água espumosa.

"Eu só queria ver se ele se mexia", disse Juan, que se recusou a dizer seu sobrenome ao ser perguntado sobre o seu comportamento. Ele disse ainda que muitas pessoas de sua idade não tinham interesse em se educar ou trabalhar. "Elas só querem saber de roupas, tênis legais, reggaeton."

Cuba dá grande importância ao seu prestígio cultural. Depois da revolução de 1959, o governo procurou erradicar a decadência de Havana que tanto atraiu americanos, entre outros. O Estado criou uma campanha nacional de alfabetização, ofereceu educação gratuita a todos e estabeleceu programas de esportes, balé e música.

Em uma terra onde axiomas moralizantes são expostos de maneira contundente em murais e cartazes, até mesmo em algumas televisões – como na de Martínez, cedida pelo governo – têm de transmitir o ditado, quando ligadas, de que "ser culto é o único modo de ser livre."

Por outro lado, os cubanos se queixam de que os padrões profissionais decadentes, os professores inexperientes com poucos anos a mais que seus alunos e a falta de espaços públicos adequados têm ajudado a corroer o civismo das pessoas.

Em seu discurso, Castro propôs combinar a educação, a promoção da cultura e a aplicação da lei para restaurar a civilidade do país.

O presidente  pediu aos sindicatos de trabalhadores, autoridades, professores, intelectuais e artistas, entre outros, que ajudem a motivar os  cubanos a seguirem os padrões de comportamento.

JOVENS PENALIZADOS

González, porém, acredita que penalizar as pequenas infrações só afasta ainda mais os jovens das autoridades. Há dois anos, a polícia multou o seu irmão, hoje com 14 anos, em cerca de US$ 2  por jogar futebol na rua sem camisa, disse ela. "Imagine só, multar um menino de 12 anos", desabafou ela.

Além disso, repreender os jovens cubanos apenas os aliena ainda mais, pensam alguns cubanos e especialistas no assunto.

"Seria ótimo se os poderosos transformassem esses problemas em uma discussão aberta na sociedade cubana", disse Hansing.

O resgate dos valores culturais de Cuba "não é uma causa perdida", disse ela. "Mas precisaremos de mais uma geração, pelo menos, para que as coisas mudem."

 




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