sex 10 31 2014

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Azeite falsificado rende como cocaína

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De uma marca para outra e de um tipo para outro, a diferença pode ser muito grande –conforme o preço e a origem, talvez você esteja levando para casa um dos melhores azeites que se pode comprar, extraído sem calor nem alta pressão (extraído a frio mesmo, por um processo de esmagamento em moinhos de pedra, tal como se fazia cinco mil anos atrás). Mas é bom saber que também pode estar comprando autêntico gato por lebre, levando para casa óleo de soja ou de canola tingido com clorofila industrial e aromatizado com beta caroteno.
 
Esse é o alerta do jornalista Tom Mueller em Extra Virginity: The Sublime and Scandalous World of Olive Oil (em português, "Extra Virgem: o sublime e escandaloso mundo do óleo de oliva", editora W. W. Norton & Company, 256 páginas). A obra tem como ponto de partida uma longa reportagem que Mueller publicou na edição de 13 de agosto de 2007 da revista New Yorker. Com o título de Slippery business ("Negócio Escorregadio"), a reportagem mostra em detalhes como industriais italianos utilizaram certas matérias primas para fabricar um óleo que não continha sequer uma gota de óleo de oliva. 
 
Esse tipo de fraude não é novo e é caso de polícia na comunidade europeia - afinal de contas, o azeite falsificado pode circular sem barreiras de um país para outro ou ser exportado para qualquer das nossas redes de supermercados. Além disso, uma simples suspeita lançada sobre a qualidade de um fabricante pode comprometer milhões de dólares em exportações. 
 
A falsificação é um grande negócio, conta Mueller. Quase tão bom quanto a venda de drogas. Entre 1997 e 1998, revela,o azeite era o produto agrícola mais falsificado em toda a União Europeia, não só pela facilidade com que isso pode ser feito, como também pela lucratividade. Segundo um policial que investiga o assunto, os lucros são comparáveis apenas aos da venda de cocaína – e com muito menos riscos.
 
As histórias que o jornalista levantou concentram-se na Itália e começam mostrando as dimensões do problema: no dia 10 de agosto de 1991, nada menos do que 2.200 toneladas de óleo produzidos na Turquia chegaram ao porto italiano de Barletta, na região de Puglia, a maior produtora de azeite da Itália. A documentação da carga, embarcada no porto de Ordu, dizia que se tratava de um carregamento óleo de avelã. No desembarque, mais de 20 dias depois, contudo, os documentos informavam que eram 22 toneladas de óleo de oliva grego, importado pelo fabricante Riolio. 
 
A importação de tamanha quantidade de matéria prima serviu para a produção de "azeite virgem", simplesmente pela mistura dele com azeite de má qualidade e outros ingredientes. A mistura era vendida como azeite de primeira aos clientes da Riolio, entre eles empresas como Bertolli (o maior fabricante italiano de azeite), Unilever e Nestlé.
 
O imbroglio da fabricação e adulteração do azeite é um escândalo antigo e de difícil solução. Falsificações grosseiras podem ser descobertas com testes mais ou menos simples, mas as mais sofisticadas, como a da Riolio, são bem mais difíceis de descobrir; como a produção do azeite falsificado dessa maneira precisa acontecer em instalações complexas, a análise é igualmente complexa. Ao mesmo tempo, os técnicos que fazem as análises muitas vezes ficam com dúvidas sobre as provas conseguidas e por isso não se arriscam a fazer acusações. 
 
Um dos produtores entrevistados por Mueller, no entanto, admitiu que misturar óleo de canola ao de oliva é quase uma praxe entre eles. Os fabricantes vão protestar contra o que Mueller vem alardeando há quatro anos, mas sempre foi assim: a ganância sempre fez com que certos produtores prejudicassem a qualidade de seu produto para fazê-lo render mais e assim ganhar mais dinheiro.
 
Aqui no Brasil já foram feitas acusações desse tipo aos produtores de leite (por acrescentarem água ao produto), às padarias (por acrescentarem bromato para fazer o pão crescer mais), aos produtores de cereais (por embalarem quantidades menores do que as declaradas) e até aos traficantes de cocaína (por acrescentarem pós brancos das mais diversas origens à droga). 
 
Provavelmente não há solução fácil nem de curto prazo para fraudes no comércio, como não haverá para a denunciada por Mueller. No caso do azeite de oliva, é uma lástima. 
 
Paulo Brito é jornalista, graduado em Economia e mestre em Comunicação e Semiótica




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