sex 10 24 2014

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Uma rua onde boliviano não é escravo

Barbeiro de 15 anos é especialista em corte de cabelos ao estilo do jogador argentino Lionel Messi, ídolo dos pequenos bolivianos Chá de coca: proibido no Brasil 'Chuño' e 'papas lisas': batatas./Paulo Pampolin-Hype / -

 
São mais de 20 estabelecimentos dos mais variados segmentos e que crescem na mesma proporção de bolivianos na Capital.
 

Segundo dados da Polícia Federal divulgados no início do ano, a maior corrente migratória na América do Sul é de bolivianos com destino ao Brasil. Além disso, de acordo com dados recentes divulgados pelo consulado da Bolívia em São Paulo, existem no Brasil quase 350 mil bolivianos. Deste total, 75% estão em São Paulo.
 
Uma parcela generosa desses bolivianos segue para os bairros do Pari e do Brás, onde fica a rua Coimbra. Por ali, centenas circulam, compram e utilizam os serviços oferecidos por bolivianos para bolivianos. Os lojistas são tímidos e têm uma postura diferente da dos brasileiros.
 
Na rua, os comerciantes não sabem dizer quem foi o primeiro a se estabelecer nesse endereço. No entanto, acreditam que as primeiras lojas surgiram há cerca de três anos. De lá para cá, o número de lojas saltou de três para mais de 20. Há um pouco de tudo: mercearia, acessórios para oficinas de costura, restaurantes,  peluquerias (cabeleireiros) e até agências de viagem para a Bolívia. Claro, também há camelôs.
 
Cidade Limpa -A estrutura de alguns comércios bolivianos é precária, seja no interior ou na fachada do estabelecimento. Há problemas com a instalação elétrica e infiltrações de água, entre outros. 
 
Do lado de fora, algumas lojas colocam grandes anúncios que evidenciam o desrespeito a Lei Cidade Limpa. No mais, esse pequeno pedaço da Bolívia no centro de São Paulo apresenta características peculiares que conferem um certo charme à região.
 
Num primeiro momento, o que chama a atenção nas lojas distribuídas por dois quarteirões da rua Coimbra é o uso corrente da língua espanhola – principalmente nos cartazes. O português é um idioma secundário, restrito a poucos seguranças e aos filhos de bolivianos nascidos no Brasil, que estudam em escolas de São Paulo.
 

Peluqueria -Um comércio que chama a atenção dos brasileiros são as peluquerias. São três ao todo na rua Coimbra, sendo que uma delas pertence a Carmen Cuellary, de 45 anos, que mora no mesmo endereço – uma realidade comum entre os comerciantes bolivianos do bairro. O interior do seu estabelecimento não é muito diferente dos salões brasileiros. Mas há algumas diferenças.
 
A música é a latina, especialmente de artistas argentinos e bolivianos. Há também um pequeno cabeleireiro de apenas 15 anos - uma prática proibida pela legislação brasileira. "Ele é filho de uma amiga. Na Bolívia, o trabalho nessa idade é comum", disse Carmen.
 
Estudos – Cada corte custa R$ 8. No fim de um mês ela fatura cerca de R$ 1.800. As crianças adoram copiar o corte de cabelo do craque argentino Lionel Messi. "Tem dias que trabalho na Feirinha (da Madrugada), para reforçar o meu orçamento. Tenho ainda alguns doces e produtos bolivianos que vendo aqui e que ajudam no orçamento. Com esse dinheiro eu formei meu filho engenheiro na Bolívia e estou pagando a faculdade de medicina de minha filha, também na Bolívia", disse Carmen.
 
Chá de coca – Ainda na peluqueria de Carmen, um produto que chama a atenção é o chá de coca. Três sachês por R$ 1. Na Bolívia, mascar as folhas ou beber o chá de coca é uma prática cultural e permitida. O mesmo não acontece no Brasil, que proíbe sua venda. Em alguns casos, a posse do produto pode resultar na prisão por tráfico de droga. Carmen sabe disso. "Mas é algo da nossa cultura", disse ela.
 
Carmen também vende outros produtos tipicamente bolivianos, estes legais. E não apenas ela. Na verdade, há mercearias especializadas nesses produtos. Entre as crianças (e os adultos também), o preferido é o biscoito de macarrão. A matéria-prima é o macarrão tipo "pene". Ele é levado a um forno e vai para uma outra máquina, onde é transformado no biscoito tão apreciado.
 
Culinária – Outros produtos bem bolivianos são os alimentos desidratados. O mais vendido nas mercearias da rua Coimbra é o chuño ou batata desidratada. Há outras variedades de batata, como é o caso da papa lisa. Nos quatro restaurantes da região, a papa lisa e o chuño servem de base para os mais famosos pratos da culinária boliviana.
Nesses estabelecimentos, todos oferecem o chicharrón. No prato, há a carne de porco (muito parecida com o torresmo feito na hora), milho desidratado, batata e llajoa (uma espécie de pimenta). Para beber há o suco de quinúa (uma semente), que dizem ser rico em cálcio, ou ainda o refresco macochinchi, feito de pêssego desidratado, canela, açúcar e cravo-da-índia.
 
Pães - Na rua, um dos ambulantes que despertam a curiosidade é o vendedor de pão de rua. Um deles é Ronald Valentim Flores, de 24 anos.
 
Na cesta feita pelo pai, Flores vende a marraqueta (uma espécie de pão francês), a sarnita (pão sovado) e o pão calca (a torrada boliviana). Por cinco pães, ele cobra R$ 1. "É feito de trigo, igual ao pão brasileiro. A diferença é o formato", compara Flores.
 
Linhas – Filho de pais bolivianos, o estudante de engenharia elétrica Jorge Mendonza, de 20 anos, é gerente da loja de linhas do pai. O segmento é um dos mais rentáveis na região, especialmente por fornecer a matéria-prima para as discutíveis oficinas de costura. Jovem, ele afirma que a rua não para de crescer e cita como exemplo o próprio comércio.
"Inauguramos a loja em setembro. Na época, não tínhamos nem a metade das mercadorias que temos hoje. Em menos de um ano, dobramos a exposição de produtos e de clientes", disse Mendonza.




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