De mão quebrada, Diogo Silva quebra jejum do taekwondo

RIO - Com garra suficiente para vencer a dor de uma mão quebrada, um golpe duro na costela e dificuldades impostas pela falta de patrocinadores, Diogo Silva conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil destes Jogos Pan-Americanos, quebrando um jejum de 16 anos do país na competição.

De origem humilde, como muitos atletas, Diogo venceu o peruano Peter Lopez neste domingo depois de investir em competições na Europa os cinco mil reais que vinha economizando há dois anos para comprar um carro para a mãe, Tel, manicure de Campinas.

"Esse carro era muito importante para ela porque às vezes ela precisa pegar duas a três conduções por dia para ir na casa dos clientes", disse Diogo a jornalistas após a vitória.

"No momento de pegar os 5 mil reais para me patrocinar eu pensei muito comigo. O investimento que eu estaria fazendo em mim seria muito importante e hoje essa medalha de ouro é o fruto desse investimento", afirmou o atleta, que usa dreads no cabelo. Ele ainda pensa em dar o presente para a mãe, que antes do Pan-Americano não via fazia seis meses.

O lutador paulista de 25 anos é um dos poucos atletas brasileiros com um posicionamento político forte. Nas Olimpíadas de Atenas (2004), quando foi quarto lugar na competição, fez ao público o cumprimento do movimento negro norte-americano Black Panthers, em protesto para chamar a atenção para o esporte no Brasil.

Mas na vitória deste domingo, ele usava uma faixa branca, não para protestar, mas para conter danos à sua mão direita quebrada desde abril e em processo de recuperação. Diogo está sem receber os 2.500 reais mensais de auxílio de um programa do governo federal porque não pôde cuidar da burocracia para renová-lo enquanto estava em treinamento na Europa, e atualmente vive dos 600 reais mensais que recebe da Confederação Brasileira de Taekwondo, "que costuma atrasar o pagamento de três em três meses".

"No bairro onde eu morei durante muitos anos (em Campinas) nosso maior exemplo era quem segurava uma arma, porque era quem tinha poder e dinheiro. Muitos dos meus amigos acabaram indo para esse caminho. Mas no meu bairro (Jardim Roseira e Padre Manoel da Nóbrega) eu sou um ponto de referência e hoje o Brasil precisa de pontos de referência, principalmente para as pessoas que estão saindo do lugar mais baixo e estão buscando um lugar mais alto", disse o lutador.

Diogo citou o trabalho social realizado pela Central Única de Favelas (Cufa) como alternativa dos jovens ao crime. "O que falta muito para a gente é oportunidade. A gente vê essa guerra no Complexo do Alemão (região de favelas do Rio de Janeiro que foi ocupada pela Força Nacional de Segurança) e vê que existe trabalhos como o da Cufa, do rapper MV Bill, que conseguem resgatar muitas pessoas que estão no meio dessa guerra", disse o medalhista de ouro.

A vitória no Pan não garante vaga do brasileiro na Olimpíada de Pequim. Diogo terá que obter a vaga em seletivas que acontecem na Europa em setembro.


Fonte: Reuters/AE