Quarta-feira, dia 15,
a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista minha, apresentando-me
como o "decano", entre merecidíssimas aspas, de
uma nova corrente política de direita que estaria surgindo
no país, e convocando, naturalmente, meia dúzia de
tagarelas de esquerda para sondar as causas de tão alarmante
fenômeno. O fato mesmo de que ele tenha de ser explicado mostra
o quanto parece anormal e surpreendente no Brasil de hoje.
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Sou testemunha direta e pessoal da
estranheza, mista de terror e pânico,
que a simples hipótese de alguma resistência, mesmo isolada,
mínima e solitária, suscitava entre os esquerdistas uns
anos atrás. Lembro-me perfeitamente bem da brutalidade mental
psicótica com que reagiram ao meu ingresso em cena, reunindo-se
instantaneamente em esquadrões de emergência para repelir
o intruso. Os métodos usados revelavam a gravidade apocalíptica
que enxergavam no episódio: xingar histericamente o recém-chegado,
fingindo ao mesmo tempo superior desprezo olímpico; criminalizá-lo,
atribuindo-lhe toda sorte de ligações sombrias com pessoas
e entidades que ele ignorava por completo; acusá-lo alternadamente
de ser um agente bem pago de potentados internacionais e um pé-rapado
a quem ninguém jamais pagaria coisa alguma; suprimir toda menção
aos seus livros e aulas de filosofia, para dar a impressão de
que era um mero polemista de mídia; espalhar toda sorte de invencionices
contra ele nas salas de aula, longe da possibilidade de resposta; por
fim, mobilizar estudantes fanatizados para que o agredissem e matassem,
e ao mesmo tempo chamá-lo de "raivoso", como se numa
competição de hidrofobia eu fosse páreo para
terroristas e assassinos.
Tais foram os procedimentos de crítica literária usados
para o meu livro O Imbecil Coletivo.
Tudo isso revela até que ponto o esquerdismo era e é ainda
o estado normal e obrigatório em toda a mídia, em todo
o movimento editorial, devendo qualquer exceção ser denunciada
como ameaça à ordem pública ou sintoma de desarranjo
mental. À imagem e semelhança do que as placas nos botequins
nos advertem quanto à condição de corintiano,
o ser humano nasce, cresce, vive e morre esquerdista. Quando ele se
recusa a fazer isso e já não se pode dar um sumiço
no desgraçado, então é preciso chamar uma junta
médica para diagnosticá-lo.
Dada a situação premente, alguns dos diagnósticos
assumem a forma de uma busca de culpados pelo advento de semelhante
descalabro.
As
denúncias de corrupção grossa no PT já datam
de1990. O único resultado que produziram foi a expulsão
do denunciante.
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Culpados não são difíceis de encontrar. O ambiente
doméstico da esquerda tem hoje uma superpopulação
de sacos de pancada. Se não fosse o "tombo ético" (sic)
da administração petista, conjetura o jornal, parece
que Olavo de Carvalho e quejandos jamais emergiriam das trevas do anonimato
onde jaziam soterrados por um decreto da justiça cósmica. Da minha parte, jamais vi "tombo ético" algum. Originado
da promiscuidade entre o movimento sindical e a pseudo-intelectualidade
uspiana, o PT é filho de um vigarista com uma prostituta. Nasceu
ladrão e só evoluiu nos métodos. Exemplo da conduta
de seu pai é a confissão da CUT, já em 1993, de
que tinha oitocentos jornalistas na sua folha de pagamentos - uma compra
de consciências por atacado que só encontra paralelo,
talvez, no orçamento da KGB. Quanto à mamãe,
tem vivido da impostura intelectual e do corporativismo mafioso
da esquerda
pelo menos desde os anos 50.
As denúncias de corrupção grossa no PT já datam
de 1990. O único resultado que produziram foi a expulsão
do denunciante. Atribuir a roubalheira atual a um "tombo" é um
truque de linguagem usado pelos gerenciadores de danos para limpar
o passado na imagem de um presente que já não se pode
salvar. Sabem que no momento perderam toda credibilidade, mas querem
guardar para o futuro os dividendos de uma lenda de santidade laboriosamente
construída com a ajuda dos oitocentos empregadinhos da CUT.
O expediente serve também para cada um tirar o corpo fora da
responsabilidade pela criação do monstro vexaminoso que é o
PT no poder. Não havia nessa droga de partido um só militante
ou simpatizante medianamente alfabetizado que, em 2002, ignorasse as
denúncias de Paulo de Tarso Venceslau ou do irmão do
prefeito Celso Daniel, nem os esforços da cúpula partidária
para abafar ambos esses escândalos, esforços que, no segundo
desses casos, vieram a ocorrer -- por coincidência, por pura
coincidência, é claro - junto com o assassinato de seis
testemunhas do processo. Se todos se recusaram a ver aí qualquer
sinal de bandidagem no partido; se não só continuaram
a confiar nele mas redobraram a aposta na sua idoneidade, ao ponto
de fazer da eleição de Lula um acontecimento comparável
ao Segundo Advento, por que foi? Só pode ter sido por uma destas
duas razões: ou apegaram-se tão fanaticamente ao mito
da santidade petista que mesmo fatos visíveis com os olhos da
cara não podiam abalar sua fé; ou, ao contrário,
sentiam perfeitamente o mau cheiro mas preferiram tampar o nariz para
não perder a oportunidade de ter amigos e correligionários
no poder, por mais fedorentos que fossem. Na primeira hipótese,
mostraram-se obstinados na credulidade até o limite da estupidez
criminosa. Na segunda, provaram ser tão maldosos e vigaristas
quanto qualquer José Dirceu. Em ambos os casos, desqualificaram-se
completamente para qualquer ofício intelectual que se preze.
Duvido que, no fundo, muito no fundo,
cada um deles não saiba
disso perfeitamente bem e, ao contemplar-se solitário no espelho,
não se veja com orelhas de burro ou feições
de vampiro.
Como atenuar semelhante desconforto? Apelando, é claro, ao mesmo
recurso de sempre: fingimento, pose, histrionismo. O intelectual ativista
do Terceiro Mundo é, por tradição, um ator, um
palhaço, um tipo caricato que, no esforço de ocultar
seu próprio ridículo, se torna patético. É alguém
que se alimenta da mentira e do auto-engano em doses que, para o cidadão
comum, seriam letais.
Para camuflar ao mesmo tempo sua própria desmoralização
e, de modo geral, a debacle irreversível do pensamento de esquerda
no mundo, os diagnosticadores do neodireitismo empinam o narizinho,
levantam professoralmente o dedo indicador, e, ante um público
que presumem ignorar tudo, imitam seus próprios trejeitos de
superioridade acadêmica de outras épocas, tentando mostrar
que ainda são os donos do pedaço, os juízes supremos
de toda aspiração intelectual possível, imbuídos
da autoridade de barrar na porta os pretendentes novatos.
É
claro que essa superioridade, mesmo em tempos passados, já era
pura propaganda enganosa. O boicote geral a um Gustavo Corção
ou a um Gilberto Freyre, o silêncio obsceno em torno da obra
de um João Camilo de Oliveira Torres, já provavam que
não havia ninguém na esquerda com cacife para discutir
com qualquer dos três.
Mas, não podendo arrogar-se ostensivamente uma qualidade que
sabem ser duvidosa, limitam-se a dá-la como pressuposto implícito,
na esperança de que seja aceita por distração.
E, fazendo-se de juízes justos que só medem o similar
pelo similar, tratam de ostentar desprezo à "nova direita" por
meio de comparação com a "velha", proclamando
que já não há na praça nenhum Mário
Henrique Simonsen, nenhum Roberto Campos, nenhum José Guilherme
Merquior.
Lembro-me
perfeitamente bem da brutalidade mental psicótica com
que [os esquerdistas] reagiram ao meu ingresso em cena.
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O grotesco da performance não tem limites. Desde logo, se esses
três são até hoje os modelos de intelectuais conservadores
mais citados pela esquerda, é graças apenas à afinidade
que têm com ela, os dois primeiros por serem economistas e argumentarem
numa clave bastante acessível ao cérebro esquerdista
médio, o terceiro por ter raízes no esquerdismo acadêmico
e jamais tê-las cortado para valer, ao ponto de só ter
trocado o seu marxismo cultural de juventude por um ateísmo
burguês de molde iluminista bem típico, inteiramente compreensível à mentalidade
de seus adversários. O esquerdismo é uma cultura tribal,
um círculo etnológico fechado que, no universo em torno,
só reconhece o que lhe é semelhante. Mesmo o antagonismo
já tem de vir catalogado, senão é tido por inexistente.
Ninguém da tribo se aventurou jamais, por exemplo, a uma discussão
com Miguel Reale, espírito incalculavelmente superior aos três
citados, porque isso obrigaria a leituras que escapavam, de longe, à esfera
de percepções habituais da esquerda na época.
Muito menos havia na taba quem pudesse entender, mesmo por alto, a
obra de um Vicente Ferreira da Silva, de um Vilém Flusser, de
um João Camilo, de um Paulo Mercadante. Nem menciono Mário
Ferreira dos Santos, tão grande que escapa não apenas à visão,
mas à imaginação esquerdista. Não que o
desconhecessem. Conheciam-no perfeitamente, e passaram por tantas humilhações
na presença dele que por fim o excluíram do seu horizonte
de consciência, como se faz com um trauma que não se consegue
superar. Amputados os andares superiores, a cultura conservadora recortada à escala
do QI esquerdista compõe-se de dois economistas e um crítico
literário - muito bons os três, cada um no seu domínio,
mas nenhum necessário, em termos absolutos, à formação
de um pensamento conservador intelectualmente relevante.
O
intelectual ativista do Terceiro Mundo é um ator, um
palhaço, um tipo caricato. No esforço de ocultar
seu ridículo, se torna patético.
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Ao escolher essa régua para medir a "nova direita",
os saberetas consultados pela Folha mediram-se tão somente
a si mesmos.
No mais, o fenômeno conservador que assinalam, abstraída
a minha obra pessoal da qual não se aventuram a dizer um "a",
pois não são bobos de dar a cara a tapa, se limita até agora à crítica
jornalística, o que torna ainda mais extemporâneo o julgamento
que fazem. Esse neoconservadorismo, ainda no berço, não
tem sequer expressão política, quanto mais uma produção
bibliográfica que pudesse ser confrontada com as de Merquior,
Simonsen e Campos, acumuladas ao longo de décadas de trabalho.
As próprias condições adversas em que surgiu,
incomparáveis com o conforto e a segurança de que desfrutaram
esses três, tornam o paralelo esboçado na Folha apenas
um exercício de cinismo e impropriedade, bem ao feitio de quem,
não tendo a menor idéia de onde está, quer dar
a impressão de que está por cima.
Mas não imaginem que empreendimentos diagnósticos dessa
natureza sejam exclusividade brasileira. Nos EUA pululam hoje em dia
estudos sobre a "direita religiosa", procurando caracterizá-la
como um fenômeno inédito, estranhíssimo e necessitado
de explicação científica, como se os primeiros
Founding Fathers já não fossem conservadores religiosos,
como se a América não tivesse sido sempre o país
mais cristão e pró-capitalista do universo, como se tivesse
sido desde a origem uma nação de socialistas ateus
que, de repente, com susto enorme, vissem descer do Mayflower o
primeiro pregador protestante.
Esquerdismo é teatro, nada mais.
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