 |
Quando me perguntam
como quebrar a hegemonia esquerdista, a primeira fórmula que
me ocorre é a do poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal: "Nada
se torna realidade na política de um país se antes
não está presente, como espírito, na sua literatura." A
palavra "literatura", aí, tem a acepção
ampla de cultura superior escrita. Criem uma cultura superior na
qual predominem os valores liberais e conservadores, e a esquerda
não terá mais chance na política. Este resultado
não se seguirá automaticamente, é claro, mas
sem essa limpeza prévia do terreno mental nenhuma iniciativa
política poderá prosperar contra o esquerdismo triunfante
e monopolístico.
Entrem numa livraria qualquer e verão nas prateleiras a demonstração
clara do que estou dizendo: a ascensão do império petista
foi precedida de meio século de ocupação do espaço
cultural. Antes de o Estado ser engolido pelo PT, impregnaram-se de
esquerdismo militante as idéias, os juízos de valor,
as palavras, os sentimentos, até as reações automáticas
de aplauso e rejeição. A esquerda dominou de tal modo
o imaginário nacional que até quem a detesta não
ousa criticá-la senão nos termos dela, como se fosse
possível derrotar politicamente o inimigo fortalecendo o controle
ideológico que ele exerce sobre a sociedade. Políticos
tarimbados como os srs. Marco Maciel, José Sarney ou Cláudio
Lembo mimetizam o discurso politicamente correto, esperando atenuar
sua imagem de "direitistas" e só conseguindo com isso
atrair, junto com o ódio usual, uma boa dose de desprezo.
Essa falsa esperteza, tão mesquinha e provinciana quanto suicida, é o
máximo de inteligência estratégica que um exame
histológico atento revelará nos cérebros dos políticos "de
direita" neste país. Com a colaboração prestimosa
e servil dessas criaturas, os critérios e juízos de valor
esquerdistas se impregnaram tão profundamente na mentalidade
das classes falantes que já não são reconhecidos
como tais: tornaram-se dogmas do senso comum. Nessa atmosfera, não é de
estranhar que os eventuais opositores do governo já nem mesmo
consigam imaginar o que é uma luta política, mas entendam
sob esse termo a mera concorrência eleitoral. Essa é a
diferença, no Brasil, entre a esquerda e a "direita":
a primeira quer o poder, a segunda quer apenas mandatos. Mandatos conquistam-se
nas eleições; a luta pelo poder abrange um território
muito mais amplo. Eleição não é política, é o
resultado de uma política preexistente que começa no
fundo anônimo e obscuro da sociedade, naquela camada quase invisível
onde a hegemonia cultural se traduz como influência sutil exercida
sobre as emoções básicas da população.
A esquerda sabe disso, a "direita" não. Os artidos
de esquerda marcam sua presença numa variedade impressionante
de campos da vida social - escolas, sindicatos, campanhas humanitárias,
clínicas de psicoterapia e aconselhamento, telas de cinema,
exposições de arte, novelas, programas culturais e educativos
da TV, o diabo. A direita só é visível nos comitês
eleitorais, às vésperas da votação. Isso é assim
já faz muitos anos. Quem quer que tivesse observado esse fenômeno,
como eu observei, teria chegado, como cheguei há mais de uma
década, à conclusão de que a total esquerdização
da vida política nacional era não só previsível
como inevitável a prazo mais ou menos curto. Os inumeráveis
idiotas - políticos, empresários, intelectuais, oficiais
militares - a quem expus essa conclusão em tempo de reverter
o processo, e que riram dela do alto de sua ignorância presunçosa,
olhavam apenas o panorama eleitoral e, vendo ali a vitória fácil
de um Collor, de um Fernando Henrique, proclamavam: a esquerda jamais
dominará este país.
Ainda às vésperas das eleições de 2002,
algumas dúzias desses sábios, selecionados entre brasileiros
e brazilianists, consultados pelo Los Angeles Times, asseguravam que
Lula não teria mais de trinta por cento dos votos. Não
entendiam que os resultados das eleições anteriores refletiam
apenas o conservadorismo residual da população brasileira,
o qual, desprovido de canais de expressão cultural e partidária,
acabaria por ceder terreno à invasão esquerdista. Tanto
mais que esta última tomava o cuidado de não se apresentar
ostensivamente como tal, camuflando-se de "populismo" ideologicamente
neutro e ludibriando até observadores estrangeiros experientes
como os dois Vargas Llosas, Mário e Álvaro, pai e filho.
A
ascensão do império petista foi precedida de
meio século de ocupação do espaço
cultural.
|
Chamemos de direita, para fins de
raciocínio, o conjunto heterogêneo
e inorganizado dos que não querem viver sob o socialismo. Eles
constituem, segundo uma pesquisa da Folha de S. Paulo, 47 por cento
da população brasileira, face a 30 por cento de esquerdistas
professos. Os restantes 23 por centro definem-se como centristas, com
a ressalva de que aquilo que imaginam como centrismo inclui o apoio
ostensivo a propostas conservadoras em matéria de moral e segurança
pública. Com ou sem nome, a direita é 70 por cento dos
brasileiros. Um programa político ostensivamente conservador
teria portanto sucesso eleitoral garantido. Mas, como esse programa
não existe - e se tentasse existir teria de vencer em primeiro
lugar o desafio de criar uma linguagem própria num panorama
semântico já totalmente impregnado de esquerdismo -, o
resultado é que a população conservadora acaba
votando em candidatos de esquerda nos quais não percebe esquerdismo
nenhum mas apenas as qualidades externas mais afins à exigência
conservadora, a começar, é claro, pela honestidade e
honradez. Mas que honestidade e honradez pode haver em políticos
que passam o tempo todo tentando parecer o que não são?
E qual político brasileiro, de esquerda ou "direita",
se ocupa hoje de alguma coisa que não seja precisamente
isso?
Essa é a
diferença, no Brasil, entre a esquerda e a "direita":
a primeira quer o poder, a segunda quer apenas mandatos.
|
Assim, toda a política neste país tornou-se um sistema
de armadilhas e auto-enganos: o eleitorado vota maciçamente
em candidatos que representam o contrário simétrico das
suas aspirações, os políticos que poderiam representar
essas aspirações recusam-se obstinadamente a fazê-lo
e se apegam à busca de uma sobrevivência degradante por
meio da arasitagem servil do discurso adversário. É tudo
fingimento, hipocrisia, teatro, camuflagem, desconversa. Nenhuma discussão
objetiva do que quer que seja é possível nessas condições.
Os tais "problemas nacionais" podem esperar sentados: nenhuma
discussão política, pelos próximos anos, tocará em
nada que tenha algo a ver com a realidade. Nossa única esperança
de um despertar coletivo é o programa comunista do Foro de São
Paulo alcançar sucesso total e, tranqüilizado pela ausência
de oposições, arrancar finalmente a máscara e
dizer a que veio. Aí a platéia chocada perceberá que,
por décadas, viveu entre as névoas de uma fantasia entorpecente.
Mas essa tomada de consciência tardia já não servirá para
nada, exceto para produzir lágrimas inúteis em torno
da vida que poderia ter sido e que não foi.
O único
resultado objetivo alcançado pelas denúncias
de corrupção no governo foi a ascensão
da sra. Heloísa Helena nas pesquisas.
|
Entre os homens da "direita", muitos teimaram em recusar
os meus diagnósticos, ao longo dos anos, sob o pretexto de que
eu era demasiado pessimista. Nem percebiam o quanto sua resposta provava
o que eu dizia. Pessimismo e otimismo são atitudes da mente,
são estados subjetivos. Não têm nada a ver com
a situação externa, com a realidade das coisas. É possível
ser pessimista diante de uma situação objetivamente positiva
e otimista quando tudo está perdido. Quando uma descrição
do estado de coisas é rejeitada por ser "pessimista", é claro
que o ouvinte está respondendo na clave dos seus estados emocionais
e não no da percepção da realidade. Ele não
está impugnando um diagnóstico: está reagindo
contra os sentimentos desagradáveis que ele lhe infunde. É uma
mera reação de autodefesa psicológica, uma autovacina
contra a depressão pressentida. Só reage assim quem está fragilizado
demais para abstrair-se de estados emocionais e concentrar a atenção
na realidade. Os fortes não têm medo de encarar o pior:
os fracos fogem dele porque sua mera visão os esmaga. Aquelas
afetações de otimismo, fingindo desprezo superior ante
as minhas análises deprimentes, não eram senão
sintomas de debilidade terminal. A liderança "direitista" já não
tinha força nem para admitir sua própria fraqueza.
Um pouco mais adiante, ela agravou mais ainda a sua situação,
quando, após a revelação dos crimes do PT, perdeu
a oportunidade de denunciar toda a trama comunista do Foro de São
Paulo e, por covardia e comodismo, se limitou a críticas moralistas
genéricas e sem conteúdo ideológico. Estas podiam
facilmente ser apropriadas pela esquerda, e de fato o foram. Rapidamente
alguns ratos abandonaram o navio petista e trataram de tirar proveito
do naufrágio, sendo ajudados nisso pela recusa obstinada da "direita" de
falar de assuntos politicamente incorretos O único resultado
objetivo alcançado pelas denúncias de corrupção
no governo foi a ascensão da sra. Heloísa Helena nas
pesquisas eleitorais. Agradeçam esse resultado à autocastração
voluntária da liderança "direitista".
|