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Nos últimos
anos chegaram ao meu conhecimento várias dúzias de
projetos de Estado democrático liberal, de Constituição
federalista, de reforma fiscal e judiciária, etc. etc. Por
um vício herdado da tradição bacharelesca, os
brasileiros adoram as definições doutrinais, sobretudo
de coisas que não existem. Liberais e conservadores não
escapam à regra. Quando sonham com um futuro melhor, buscam
logo transmutá-lo num código e recheá-lo de
comentários eruditos, esmiuçando-lhe as mais delicadas
nuances conceptuais e fundamentando sua construção
ideal em citações de John Locke, Friedrich Hayek, Hannah
Arendt e não sei mais quantos luminares do pensamento democrático.
Tão intensamente se entregam a esses respeitáveis afazeres,
que se esquecem de pensar em três detalhes. Primeiro: Como vamos
tirar do caminho os malditos comunistas que ocuparam o espaço
inteiro e nos separam do belo ideal a que aspiramos? Segundo: Supondo-se
que esse obstáculo já tivesse sido removido, para que
serviria ter uma concepção prontinha do Estado democrático,
se o próprio exercício da liberdade haveria de produzir,
na prática diária, soluções novas e mais
apropriadas à situação? Terceiro: Os homens podem
matar e morrer por um sonho, mas não o farão por um código.
Reduzido à formulação racional de uma proposta
jurídica explícita, o ideal já não impele à ação,
mas à contradição e ao debate. Quanto mais detalhada
a proposta, mais discussão e menos ação. Enquanto
os liberais e conservadores brasileiros criam doutrinas, os comunistas
dominam o país e aumentam dia a dia o seu poder. E fazem isso
sem nenhuma unidade doutrinal, antes curtindo gostosamente a nebulosidade
e a indefinição cuja fecundidade estratégica e
tática aprenderam com Antonio Gramsci.
Por isso é que, se me pedem uma definição de democracia
liberal, saco do meu revólver.
Enquanto
os liberais e conservadores brasileiros criam doutrinas, os
comunistas dominam o país e aumentam dia a dia o seu
poder.
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Não digo isso por ser um praticista avesso a teorias. Adoro
teorias, mas não quando se transformam em fetiches. Teorias
só são boas quando se contentam em ser expressões
provisórias da realidade apreendida na experiência. E,
como estudei um pouquinho de Hegel, sei que, no domínio das
coisas humanas, o sentido real de um conceito não está no
significado nominal da sua expressão verbal: está naquilo
que se opõe a ele, não enquanto idéia, mas enquanto
realidade. Para sabermos o que pode e deve ser a democracia liberal
no Brasil, não temos de formulá-la doutrinalmente, mas
de olhar em torno e entender as causas que levaram ao triunfo do seu
oposto. Da própria dialética histórica que produziu
a hegemonia esquerdista é que temos de obter o sentido e a direção
dos nossos esforços.
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Essa dialética mostra, desde logo, que a mixórdia doutrinal
da esquerda foi, de maneira aparentemente paradoxal, um dos segredos
da sua vitória. Diluindo numa pasta confusa a antiga ideologia
monolítica dos partidos comunistas, a esquerda continental ampliou
formidavelmente sua base de apoio e obteve os meios de sugar o prestígio
dos ideais democráticos, dos valores morais e até do
cristianismo. Esse inimigo informe e onipresente é o avesso
daquilo que queremos. Invertê-lo não é fácil,
mas é o único meio de vislumbrar um futuro democrático
para o Brasil. E isso é uma questão de estratégia
e tática, não de doutrina.
Não podemos esquecer, desde logo, que a base da hegemonia comunista
neste país foi construída sobre o prestígio mágico
de umas quantas dezenas de intelectuais de esquerda. Digo "mágico" porque
há algo de feitiçaria no modo como tantos charlatões
semicultos puderam adquirir a autoridade quase sacerdotal que os transformou
em juízes supremos da moralidade pública. Sem destruir
primeiro o encanto desses ídolos de papier mâché,
nenhum futuro terá a democracia liberal no Brasil. Ele foi o
cimento psicológico que deu solidez ao edifício do poder
petista e tornou possível que um bando de delinqüentes
dominasse o país em nome da moral. Mais urgente do que definir
a democracia liberal é destruir um a um os falsos prestígios
que bloqueiam o acesso da juventude universitária ao conhecimento
dela. Não falo propriamente de "guerra cultural".
Guerra cultural é luta de idéias. Desmascarar vigaristas é algo
ao mesmo tempo mais simples e mais dificultoso que uma luta de idéias.
Trata-se de contestar, na base, qualquer pretensão de autoridade
intelectual dos usurpadores e charlatões que dominaram o universo
cultural brasileiro. Para isso não é preciso expor as
nossas idéias nem discutir as deles. É preciso apenas
demonstrar que não têm idéia nenhuma, apenas "ideologia" no
sentido antigo e pejorativo do termo, isto é, um "vestido
de idéias" (Ideenkleid) encobrindo o desejo de poder e
os mais sórdidos interesses grupais. Desprovida de seus ídolos
acadêmicos, a juventude sairá em busca de novos pólos
de orientação. Esse sim será o momento de
expor e discutir doutrinas.
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O segundo pilar de sustentação da hegemonia esquerdista é o
controle da informação. O povo brasileiro pouco ou nada
sabe do Foro de São Paulo, da estratégia criminosa continental,
dos nexos secretos entre narcotráfico, seqüestros, assassinatos,
revolução e petróleo, sem cujo conhecimento é impossível
entender o que se passa hoje. Por exemplo, a recente denúncia
dos crimes petistas pôde ser facilmente reaproveitada em prol
do mito da superioridade moral esquerdista mediante o artifício
de imputar as culpas a "um grupo", encobrindo a articulação
maior que o colocou no poder e que, expurgada de dois ou três
ladrões de galinha mais notórios, continuará a
operar com redobrado prestígio moral. Estudar, conhecer e divulgar
o alcance e o funcionamento do esquema inteiro é muito mais
urgente para os liberais e conservadores do que definir e expor suas
doutrinas. A difusão de idéias pressupõe um ambiente
de clareza e sinceridade, que não existe nas presentes condições
de ocultação eral e mentiras cruzadas. É preciso
antes limpar a atmosfera, diluir a névoa infernal que cega e
estupidifica a audiência.
Para
sabermos o que deve ser a democracia liberal no Brasil, não
temos de formulá-la, mas de olhar em torno e entender
as causas que levaram ao triunfo do seu oposto.
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O terceiro sustentáculo do império do crime é a
rede de apoios que a ignomínia esquerdista conseguiu tecer entre
banqueiros, empresários, investidores da bolsa e potentados
da mídia, na base de interesses imediatistas em nome dos quais
essa gente vende a honra que nunca teve e a pátria que ainda
tem. A extensão dessa rede é quase impossível
de calcular. Um indício eloqüente obtém-se pelas
reações de algumas dessas criaturas ao ato de guerra
empreendido pelo sr. Evo "Imorales" contra o patrimônio
nacional. Desculpam-no e celebram-no sob os pretextos mais fúteis,
postiços e absurdos. Querem até que tenhamos peninha
de um "povo sofrido", como se a massa de cocaleros não
vivesse, há décadas, de espalhar o vício e a morte
entre os jovens do continente. Um pai que, na miséria, prostitui
suas filhas, merece mais respeito do que aquele que sobrevive de desgraçar
os filhos dos outros. Cocaína é isso, não é outra
coisa. Evo "Imorales" é isso, não é outra
coisa. A economia boliviana é isso, não é outra
coisa. E se precisam tanto de petróleo, não é para
encher o tanque dos carros que não têm: é porque
daí sai o único solvente apropriado para o proessamento
da cocaína. Os poços brasileiros vão servir é para
fazer um upgrade na indústria boliviana da morte. Muita gente
sabe disso. Mas, se pedimos o apoio de certos donos do capital financeiro à nossa
luta contra o maior crime de que o Brasil foi vítima nas últimas
décadas, eles nos respondem que estão contentinhos, que
nunca ganharam tanto dinheiro, que o governo Lula tem um sex appeal
irresistível. Isso é um bando de criminosos tão
abominável quanto a turma do Mensalão. Identificá-los
e desmascará-los é uma providência sem a qual nenhuma
esperança sensata se pode depositar na futura democracia liberal
brasileira. É, ademais, tarefa pedagógica, que nos esclarecerá,
no curso da sua execução, sobre as estruturas de poder
em que se assenta a pax luliana, o sorridente império do mal
neste país. É derrubando os obstáculos que a democracia
liberal irá tomando forma ante os nossos olhos.
A
mixórdia doutrinal da esquerda foi, de maneira aparentemente
paradoxal, um dos segredos da sua vitória.
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Essas são as três primeiras etapas de uma autodefinição
da democracia liberal no Brasil. Definição que não
deve surgir de especulações teóricas prévias,
mas da própria prática das virtudes essenciais do debate
democrático: transparência, sinceridade e idoneidade. É preciso
por em ação estas armas temíveis. Elas nos ensinarão
- a nós e a nossos ouvintes - o que é a democracia
liberal.
Sustentáculos
do império do crime são os apoios que a ignomínia
esquerdista conseguiu tecer entre banqueiros, empresários,
investidores da bolsa e potentados da mídia (...)
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Cortar as línguas dos falsos profetas, dissipar a treva que
espalharam com suas bocas mentirosas, destruir as muralhas da antidemocracia
que nos oprime - estas são as tarefas primordiais da intelectualidade
conservadora e liberal no Brasil. Para exercê-las, não é preciso
ter nenhuma definição clara e final da fórmula
democrática com que sonhamos. É preciso apenas ter vivo
nos nossos corações o ideal da liberdade e do império
das leis. Esse ideal pode continuar vago e impreciso durante todo o
período inicial da luta, que equivale àquilo que os antigos
retóricos denominavam a pars destruens, a parte destrutiva do
serviço, o longo e dificultoso "trabalho do negativo",
como o chamava Hegel: os ideais se esclarecerão e se transformarão
em fórmulas práticas no próprio curso do combate.
Raciocinar na pura atmosfera abstrata e rarefeita das formulações
doutrinais é para acadêmicos e beletristas. Tanto o filósofo
genuíno quanto o líder político sério raciocinam,
isto sim, desde dentro do próprio fluxo da realidade, agindo
e experimentando, aprendendo com a experiência e fazendo a cada
momento os ajustes necessários a manter a intuição
clara do rumo das coisas. |