A maioria
dos cientistas sociais não se dedica a outra coisa senão
a explicar os acontecimentos como efeitos de "causas" impessoais
e anônimas, como por exemplo a "luta de classes" (com
todas as variações aí introduzidas pela moda
e pelas conveniências táticas), escamoteando a ação
concreta dos indivíduos e grupos que dirigem o processo. Tudo
aí parece derivar de estruturas, de leis, de estatísticas,
reduzindo-se os agentes reais a meros instrumentos, quase sempre
inconscientes, de forças coletivas que os transcendem imensuravelmente.
A principal utilidade dessa construção fantasiosa é encobrir
sob um manto de invisibilidade a força dos próprios
cientistas sociais enquanto "agentes de transformação",
bem como a dos grupos e entidades que lhes dão sustentação
editorial e financeira.
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Os exemplos sucedem-se a cada semana,
mas tornam-se mais enfáticos
nos momentos de confusão e pânico, quando essas criaturas
das trevas emergem de seus sepulcros acadêmicos para vir explicar
ao mundo que não há nada de novo sob o Sol, que está tudo
sob o controle infalível da ciência que professam. Assim,
diante do estado insurrecional triunfante produzido em São
Paulo por uma iniciativa estratégica bem articulada entre
o governo brasileiro e três organizações milionárias,
PCC, MST e FARC, o sociólogo francês Loïc Wacquant,
professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, foi convocado às
pressas pela Folha de S. Paulo do dia 15 para acusar os culpados
de sempre e ajudar as vítimas a não enxergar os agentes
efetivos por trás do processo.
A principal glória curricular do prof. Wacquant é ser
autor de dois livros que explicam a criminalidade como efeito da
guerra dos ricos contra os pobrezinhos e ter recebido, em função
de suas obras, um prêmio da paupérrima John D. & Catherine
T. MacArthur Foundation, badalado como "o prêmio dos gênios".
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Na
escala individual, a pobreza só pode ser justificação
direta e determinante do crime em exemplos excepcionais e raros.
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Felizmente, a ciência social às vezes nos fornece o
antídoto à sua própria vigarice. No caso, o
antídoto é o "experimento imaginário" sugerido
por Max Weber para comparar a importância relativa de vários
fatores causais numa dada situação. Trata-se de fazer
abstração mental de determinado fator e averiguar se,
sem ele, os acontecimentos teriam sido possíveis. Suponhamos
a miséria e a desigualdade. Elas estão presentes por
igual em sociedades assoladas pela violência criminosa e entre
povos mais pacíficos como os indianos e os romenos. Mutatis
mutandis, a criminalidade no Brasil não se expandiu nas áreas
mais pobres, mas justamente naquelas que, ao longo das últimas
décadas, passaram da miséria absoluta a um padrão
de vida que, na Índia, seria considerado de classe média,
como por exemplo as favelas cariocas. Omitida a comparação,
porém, restam dentro de cada área isolada sinais aparentes
em quantidade bastante para manter viva a impressão de que
o crime é efeito da miséria. Acoplada a outro topos
da retórica esquerdista, o de que a miséria é causada
pelo imperialismo americano, essa crença tem por efeito despertar
o ódio aos EUA e fomentar esperanças messiânicas
numa nova ordem internacional paradisíaca, a ser instaurada
sob os auspícios da ONU, da China e da Rússia. Para
a realização desse objetivo trabalham incansavelmente
várias fundações bilionárias, entre as
quais Rockefeller, Carnegie, Soros e, é claro, MacArthur.
Seus esforços nesse sentido já foram bem documentados
meio século atrás por uma comissão do Congresso
americano (v. René A. Wormser, Foundations: Their Power and
Influence, New York, Devin-Adair, 1958) e desde então não
fizeram senão multiplicar-se em abrangência e quantidade
de recursos, incluindo dotações de dinheiro do próprio
governo de Washington, que essas entidades sugam e utilizam para
seus próprios fins (de modo que esse governo acaba aparecendo
como o culpado do que fazem contra ele). Premiar uns quantos "gênios" que
ajudem a revestir de honorabilidade científica a trapaça
essencial em que se assenta a operação é a parte
menos dispendiosa do orçamento. O grosso do dinheiro vai para
fomentar diretamente movimentos subversivos e organizações
pró-terroristas (v. a estrutura da rede em www.discoverthenetwork.com).
Se, de acordo com o experimento weberiano, abstrairmos do quadro
presente a atuação dessas fundações,
o resultado será simplesmente que a esquerda revolucionária
do Terceiro Mundo não teria podido continuar a existir e prosperar
depois da queda da URSS e, portanto, a utilização do
crime como instrumento da subversão organizada, que é o
seu principal modus operandi na última década, se tornaria
inviável.
O banditismo, assim, cresceu junto com o prestígio oficial
da tese mesma que o explica pela luta de classes. Alegando razões
fundadas nessa teoria, o prof. Wacquant prevê um aumento da
violência no Brasil. Mas essas razões são desnecessárias.
A violência crescerá junto com o número de
idiotas que acreditam no prof. Wacquant. 
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A
correlação entre pobreza e crime é uma
fraude, um sofisma estatístico da espécie
mais intoleravelmente suína que se pode imaginar.
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Se os praticantes da ciência
wacquântica
fossem sérios,
estudariam um pouco de lógica da investigação
científica e saberiam que nenhuma correlação
causal (entre pobreza e crime ou entre qualquer coisa e qualquer
outra) pode ser generalizada para um grupo abrangente
de casos sem que esteja muito bem provada ao menos em alguns deles
individualmente. Ora, na escala individual a pobreza só pode
ser justificação direta e determinante do crime em exemplos
excepcionais e raros - tão excepcionais e raros, na verdade,
que em todo país civilizado a lei os isenta da qualificação
mesma de crimes. São os chamados "crimes famélicos" -
o desnutrido que rouba um frango, ou o pai sem tostão que furta
um remédio para dar ao filho doente. Em todos os demais casos,
a pobreza, se está presente, é um elemento motivacional
que, para produzir o crime, tem de se combinar com uma multidão
de outros, de ordem cultural e psicológica, entre os quais, é claro,
a persuasão pessoal de que delinqüir é a coisa mais
vantajosa a fazer nas circunstâncias dadas. Quando o hábito
da delinqüência se espalha rapidamente numa ampla faixa
populacional, é claro que, antes dele, essa persuasão
se tornou crença geral nesse meio, reforçando-se à medida
que as vantagens esperadas eram confirmadas pela experiência
e pelo falatório. Ora, é de conhecimento público
que, entre a mesma população pobre, por exemplo das favelas
cariocas ou da periferia paulistana, duas crenças opostas se
disseminaram concorrentemente nas últimas três décadas:
de um lado, o apelo do crime; de outro, a fé evangélica.
Numa população uniformemente pobre, o número de
evangélicos praticantes que delinqüem é irrisório.
Basta esse fato para provar que a correlação entre pobreza
e crime é uma fraude, um sofisma estatístico da espécie
mais intoleravelmente suína que se pode imaginar. Nenhuma ação
humana é determinada diretamente pela situação
econômica, mas pela interpretação que o agente
faz dela, interpretação que depende de crenças
e valores. Estes, por sua vez, vêm da cultura em torno, cujos
agentes criadores pertencem maciçamente à camada letrada,
como por exemplo os bispos evangélicos e os cientistas sociais.
Os bispos ensinam que, mesmo para o pobre, o crime é um pecado.
Os cientistas sociais, que os criminosos, agindo em razão da
pobreza, são sempre menos condenáveis do que os ricos
e capitalistas que (também por uma correlação
geral mágica) criaram a pobreza e são por isso os verdadeiros
culpados de todos os crimes. Essas duas crenças disputam a alma
da população pobre. Não é preciso dizer
qual delas estimula à vida honesta, qual à prática
do crime. Nos bairros mais miseráveis e desassistidos, qualquer
um pode fazer esta observação direta e simples: as pessoas
de bem repetem o discurso dos bispos, os meliantes o dos cientistas
sociais (do sr. Marcola nem preciso dizer nada, já que ele próprio é meio
cientista social). Quando, do alto das cátedras, esses senhores
pregam a doutrina de que a pobreza produz o crime, não estão
cometendo um inocente erro de diagnóstico. Estão ocultando,
com maior ou menor consciência, a colaboração ativa
que eles próprios, por meio dessa mesma doutrina, dão
ao crescimento irrefreado da criminalidade. E, quando são premiados
por uma organização ostensivamente interessada em disseminar
a subversão, como é o caso notório da Fundação
MacArthur, eu seria o último a negar que mereceram o prêmio.

Se,
deixando de lado as generalizações etéreas,
nos atemos à seqüência real dos fatos, a ordem
temporal de produção dos acontecimentos da semana
passada aparece com o seguinte desenho:
1º) Desde
a década de 30, atendendo a uma ordem de Stalin,
a intelectualidade esquerdista mundial, onde há mais cientistas
sociais per capita do que lobos numa alcatéia, se dedicou
ativamente a infundir em todas as patologias sociais, como o
crime e o racismo, a substância universalmente explicativa
da luta de classes. O esforço dos teóricos foi
aí secundado
por uma multidão inumerável de romances, filmes,
peças
de teatro e canções populares que faziam a idéia
penetrar profundamente no imaginário popular ao ponto
de se tornar um dogma inabalável. Nos países do
Terceiro Mundo, justamente graças à profusão
de patologias sociais existentes, essa doutrina se impregnou
com aderência
maior ainda, tornando-se o tema dominante, se não único,
de várias culturas nacionais, entre as quais a brasileira
(dediquei a esse tema uma série de artigos publicados
em 1994 sob o título "Bandidos e letrados").
2º) Quando
o ambiente cultural estava suficientemente preparado, a transformação
do banditismo em instrumento da luta de classes revolucionária
passou da teoria à prática.
No Brasil, especialmente, o empenho organizado dos militantes
de esquerda para arregimentar a serviço da subversão
as gangues de delinqüentes já é um fato abundantemente
documentado desde a década de 60. Da esquerda o banditismo
absorveu não somente a doutrina e o discurso, mas também
as técnicas de guerrilha urbana que empregou, por exemplo,
no movimento insurrecional da semana passada. O contato entre
as gangues e os grupos terroristas intensificou-se ao ponto de
tornar-se
institucional. A presença de técnicos das FARC
e das organizações terroristas islâmicas
em vários
grupos criminosos do Brasil já se tornou tão freqüente
que não suscita mais nenhuma reação de escândalo.
Acostumamo-nos a isso como a um dado da natureza.
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Comerciantes
de armas relatam que viram policiais saírem de suas
lojas chorando, conscientes de que estavam condenados à morte
sem apelação.
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3º) Quando
a esquerda latino-americana, em 1990, passou por um formidável
upgrade com a fundação do Foro de
São Paulo, as organizações de narcotraficantes,
seqüestradores e assaltantes acompanharam-na na sua ascensão
social, assentando-se ao lado de partidos legais como o PT e
o PC do B nas assembléias do Foro, coordenação
estratégica
do movimento comunista latino-americano. Desde então,
todo empreendimento subversivo de larga escala, no continente, é realizado
sob a supervisão ao menos indireta do Foro de São
Paulo. Não há mais iniciativas isoladas: o banditismo
avulso vai sendo sepultado na memória coletiva como um
resíduo
de eras extintas. Por toda a parte o que se vê é integração,
conexão, unidade ideológica e estratégica.
4º) Como
fundador e principal líder do Foro de São
Paulo, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva sempre esteve muito
bem informado do grau de organização que seus colegas
de militância haviam conseguido transmitir aos grupos de
delinqüentes,
nas cadeias ou fora delas. Mais informado ainda encontrava-se
esse cidadão pelo fato de ser presidente da República,
tendo sob seu serviço direto os órgãos de
inteligência
e a Polícia Federal, além, é claro, da figura
insubstituível do seu ministro da Justiça, cuja
convivência íntima
com os líderes maiores do banditismo nacional tem representado,
para ele, mais que um estilo de vida, um meio de próspera
subsistência.
5º) Em
vista disso, é absolutamente impossível que
essas duas excelências ignorassem a preparação
do mais vasto movimento insurrecional já planejado neste
país
no último meio século, e que, portanto, fosse com
cândida
inocência e desconhecimento das conseqüências
que ambas vissem entrar em ação o indulto que colocou
na rua, livres, armados e bem articulados, doze mil delinqüentes,
entre os quais os autores da carnificina.
6º) Mais
impossível ainda é que os excelentíssimos
ignorassem o detalhe mais lindamente perverso da situação
aí gerada. Todo mundo sabe que, neste país, os
policiais recebem uma quantidade irrisória de munições,
tendo de dispender do próprio bolso para garantir-se em
situações
de risco de vida. Ao ver-se acossados, nas ruas, nos batalhões
e nos postos, por inimigos decididos a tudo e incomparavelmente
mais armados e municiados, os policiais paulistas, naturalmente,
correram às
lojas de armamentos para trocar o leite das crianças por
meios elementares de defesa. Com enorme surpresa, descobriram
que um determinado
item da lei do desarmamento, que até então jazia
inerte num papel, tinha acabado de entrar em vigor: não
podiam comprar munição nenhuma sem autorização
escrita da Polícia Federal. Comerciantes de armas relatam
que viram policiais saírem de suas lojas chorando, conscientes
de que estavam condenados à morte sem apelação.
Se me disserem que o sr. ministro da Justiça ignorava
essa armadilha, responderei então que ele é o mais
estúpido
incompetente que já passou pelo seu cargo, já que
a entidade encarregada de fornecer as autorizações
repentinamente exigidas e faltantes está sob o seu comando
direto. Mas somente um país muito louco, muito alienado,
mantém nesse cargo,
numa hora dessas, o advogado pessoal do próprio chefe
da inssurreição.
Como defensor de Marcola, o sr. Márcio Thomaz Bastos tem
confiabilidade zero até mesmo para dar uma opinião
imparcial quanto aos acontecimentos da semana passada, quanto
mais para reter em suas
mãos, com avareza assassina, os meios de defesa que teriam
podido salvar centenas de pessoas.
7º) Aqueles
que acima da suspeita racional coloquem a crença
dogmática na idoneidade do governo petista podem apostar
numa conjunção fortuita de fatores, na santa e
pura coincidência.
Eu é que não.

P.S.- A
situação de total desamparo em que o governo
brasileiro deixa os policiais, entregando-os à mercê dos
criminosos, já é um fato oficialmente reconhecido
pela justiça norte-americana. No fim de abril, um
tribunal da Flórida
concedeu asilo político a um policial de Minas Gerais
por reconhecer que, após matar em tiroteio um importante
líder
do narcotráfico local, o infeliz estava tão
desguarnecido quanto um pato de plástico num estande
de tiro. Voltarei ao assunto num próximo artigo.
Como a promotoria abdicou de recorrer da sentença,
a decisão está incorporada à jurisprudência
americana e valerá para os casos subseqüentes.
Os policiais brasileiros propositadamente deixados sem
munição na
hora do aperto já não podem dizer que não
têm
a quem recorrer: esqueçam o sr. Márcio Thomaz
Bastos, peçam socorro à justiça de
um país onde
existe justiça.
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