Ninguém
deve regozijar-se com a desgraça alheia, mas mostrar ao dr.
Emir Sader que ele não está acima das leis era uma
questão de saneamento básico. Apenas não concordo
com a Justiça catarinense ao desprovê-lo de suas funções
oficiais na USP. Onde mais haveria lugar para um tipo como ele? Nas
ruas, ele espalhará a mentira e a loucura entre a população.
Na cadeia, corromperá os presidiários. Só na
Cidade Universitária do Butantã é que ele pode
estar entre seus iguais ou piores, sem chance de fazer o mal a quem
não o mereça. Prova disso é a solidariedade
que seus pares acabam de lhe hipotecar em mais um "Manifesto
de Intelectuais", o único gênero em que a produção
literária nacional tem alcançado algum destaque no
mundo.
Sabemos como tudo começou. Tendo o senador Jorge Bornhausen
dito que o voto era a maneira natural de expelir da vida pública
a "raça petista", o dr. Sader, fazendo-se de criancinha
e fingindo ignorar a acepção do termo "raça" como
coletivo usado para designar pejorativamente ou laudatoriamente qualquer
grupo de pessoas sem o menor parentesco genético (como no xingamento "raça
ruim" ou no título do famoso poema de Cassiano Ricardo),
acusou o senador de racista e nazista. Sendo o racismo delito inafiançável,
a imputação de crime, forçada até o extremo
limite do ridículo, era ela própria crime doloso, e tinha
de render a seu autor o prêmio judicial merecido.
Talvez se pudesse alegar em favor do réu o fato de que essa
micagem semântica, por boboca que seja, é o único
procedimento retórico que ele conhece, sendo possível
reduzir a ela, por análise estilística, absolutamente
todos os argumentos que ele apresenta na sua coluna internética "O
Mundo às Avessas", na qual, como já se vê pelo
título, a verdade pode em geral ser obtida mediante simples
inversão das assertivas do autor. Se, portanto, ele acusou o
senador de racista, foi precisamente por saber que ele não era
racista de maneira alguma. No início, o colunista pode ter feito
essas coisas com a satisfação sádica da calúnia
consciente, mas, com o tempo, parece que o hábito se incorporou
de tal modo à sua pessoa que acabou por se tornar um cacoete,
um reflexo instintivo e, por fim, uma cosmovisão e um estilo
de vida: o mero sadismo transfigurou-se em saderismo.
Mas eu seria injusto se visse nisso uma idiossincrasia pessoal saderiana. "Inversão" é a
premissa universal do movimento revolucionário desde muitos
séculos. Apenas, de Diderot e Hegel até Jacques Derrida,
o procedimento geral era encobri-la sob alguma aparência requintada
de coerência e sensatez, induzindo os leitores a engolir a enormidade
sem percebê-la. Foi apenas no Brasil dos últimos anos
que, reduzida a nada a capacidade literária por excesso de indulgência
no vício do jargão partidário, e devidamente rebaixado
o QI do público em iguais proporções, a inversão
começou a se exibir em estado puro, pelada, nuinha, sem pejo,
com toda a sua mecanicidade bárbara e o orgulho obsceno da estupidez
triunfante. A esquerda inteira, em suma, começou a escrever,
falar e pensar como o marquês de Sader.
A prova disso, como eu ia dizendo, era o manifesto em favor do referido.
Assinado por pessoas que se imaginam ilustres e são mantidas
nessa crença pelos agradinhos mútuos e intenso troca-troca
de subsídios oficiais sob os pretextos mais variados, essa peça
literária copia tão exatamente o modus argüendi
do referido, que parece ter sido escrita por ele em pessoa.
Não digo isso pela pletora de solecismos, já demonstrada
no estilo do dr. Sader pela Profa. Norma Braga (http://normabraga.blogspot.com/2006_06_01_normabraga_archive.html)
e agora meticulosamente confirmada pelo Reinaldo Azevedo no texto do
documento coletivo (v. as mensagens "Nos
Emirados Sáderes", "A palavra 'escorchante' e ProUni
para Sader", "Intelectuais, relembrem o texto de Sader" e "Luminares
das letras em manifesto solecista pró-Sader" no seu blog
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo). Se é verdade que o
estilo é o homem, o estilo do manifesto é "usômi".
Mas o analfabetismo endêmico da classe dita intelectual neste
país já é fato notório no qual não
pretendo insistir. O caracteristicamente sadérico no manifesto é mesmo
o seu conteúdo.
A inversão já começa quando os signatários
acusam a sentença condenatória de ser um atentado contra
a liberdade de expressão. A demissão de Boris Casoy,
a supressão de meus artigos no Jornal da Tarde, no Globo, na
revista Época e na Zero Hora, as ameaças judiciais do
deputado Greenhalgh ao jornal eletrônico Mídia Sem Máscara,
as agressões a repórteres, a pressão policial
contra a Folha de São Paulo e sessenta e três processos
movidos contra Diogo Mainardi por ter dito verdades óbvias e
arquiprovadas não atenam de maneira alguma contra a liberdade
de expressão, mas proibir que o dr. Sader atribua crimes a quem
não os cometeu, ah!, isto sim atenta, isto sim agride, isto
sim fere a consciência libertária de Flávio Aguiar,
Antônio Cândido e similares.
Mas o inversionismo em todo o seu esplendor aparece é na comparação
entre esse documento e o seu antecedente internacional. Em janeiro,
tão logo anunciado o processo aberto contra o dr. Sader, uma
vasta patota global constituída de Eduardo Galeano (escritor
uruguaio), Anibal Quijano (sociólogo peruano), Ignacio Ramonet
(Le Monde Diplomatique), Samir Amin (Fórum Mundial das Alternativas),
Walden Bello (Focus on the Global South) e outros tantos já tomou
partido do acusado e, sem ter a menor idéia do uso do termo "raça" em
português, endossou a acusação ao senador Bornhausen,
tachando-o de "fascista e racista".
O manifesto de agora, assinado por brasileiros que ao menos teoricamente
falam a língua do senador, esperneia em todas as direções
na defesa do dr. Sader, mas abstém-se meticulosamente de subscrever
aquela acusação e até mesmo de transcrevê-la.
Por que? Se a sentença judicial contra as palavras do dr. Sader é injusta,
elas são obviamente justas. Por que defender o denunciante ocultando
ao mesmo tempo o conteúdo da denúncia?
A resposta é óbvia: por mais amigos que fossem do dr.
Sader, os autores do manifesto não quiseram ser seus cúmplices
retroativos, sujeitando-se eles próprios à penalidade
que o atingiu. Confessam, portanto, que ele é culpado, no instante
mesmo em que o proclamam inocente, e tiram o corpo fora da encrenca
no ato mesmo de fingir que entram nela corajosamente em defesa do condenado. É mesmo "o
mundo às avessas".
Que tenham assim procedido por desatenção e inocentemente, é hipótese
que se exclui desde logo pelo fato de que alguns deles, a começar
pelo próprio Flávio Aguiar, já tinham assinado
antes o manifesto de janeiro, no qual se fizeram cúmplices do
crime cometido pelo dr. Sader, tentando agora apagar as pistas da sua
participação no episódio, fazendo-se de advogados
neutros para camuflar sua condição de co-autores do delito.
Esforço inútil. Está tudo bem documentado, e,
se faltassem provas patentes da má-fé dos "intelectuais
de esquerda" em geral, essa já diria tudo. O senador Bornhausen
não apenas obteve justiça no seu confronto com o dr.
Sader, mas tem direito ainda a reparações, por danos
morais, da parte de uma infinidade de estrelas e estrelos do elenco
internacional e local do ativismo esquerdista, a começar pela
Agência Carta Maior, que publicou originariamente a patifaria
saderiana no site http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=2171.
Creio mesmo que o senador tem a obrigação de lhes mover
o devido processo cível, ferindo-os no único ponto sensível
das suas consciências - o bolso - e ajudando o país a
livrar-se dessa raça.
Qual raça, exatamente?
Em janeiro, o dr. Plínio de Arruda Sampaio, elegante esquerdista
quatrocentão e um dos mais assanhados partidários do
dr. Sader, chegou a tentar justificar o truque semântico pueril
concebido contra o senador Bornhausen, proclamando que "não
se pode aceitar o uso do termo 'raça' para referir-se a uma
parte da população". Esse critério lingüístico,
se adotado oficialmente, obrigaria as autoridades a recolher como propaganda
racista todos os exemplares do Evangelho, onde Jesus constantemente
se refere a uma parte da população como "raça
de víboras". Mas, assim como o termo "raça
petista" não ofende a nenhuma raça biológica,
e sim somente à raça política petista, a expressão
de Jesus não soa ofensiva e inaceitável senão às
próprias víboras. Eis a resposta à minha pergunta. É a
essa raça que pertencem o marquês de Sader e todo o cortejo
dos seus admiradores. Por isso o lugar mais apropriado para eles é na
USP, no bairro do Butantã, ao lado de um serpentário
e dentro de outro.
Links
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Norma Braga
* Reinaldo azevedo
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agência carta maior
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