Quando
o sr. Hugo Chávez proclama que sua estratégia contra
os EUA é a da "guerra assimétrica", já não
há como negar que esse conceito é o instrumento essencial
para a descrição e compreensão do estado de
coisas na América Latina. Se nossos comentaristas internacionais,
analistas estratégicos, politólogos e tutti quanti
continuam a usá-lo com parcimônia ou a abster-se por
completo de usá-lo, não é só por preguiça
mental: é porque um dos elementos fundamentais da assimetria é a
desigual iluminação do quadro. Esses cavalheiros jamais
desejariam ver o seu querido mentor bolivariano mostrado à mesma
luz implacável e crua com que seus inimigos são exibidos
e dissecados diariamente na mídia. Conceder a um dos lados
o direito à penumbra protetora e obrigar o outro a um contínuo
strip-tease ante a curiosidade sádica dos holofotes não é descrever
nem analisar a guerra assimétrica: é praticá-la.
Jornalistas, professores e similares, os "formadores de opinião" ou "intelectuais",
no sentido calculadamente elástico que Antonio Gramsci dá ao
termo, são a vanguarda da revolução. Sua função
não consiste em mostrar o mundo como ele é, mas transformá-lo
naquilo que ele não é. Deformar propositadamente o
quadro, portanto, é seu dever profissional número um.
Os
alvos da guerra assimétrica são três e
sempre os mesmos: os EUA, Israel e aquilo que, nesses países
ou em quaisquer outros, ainda reste da civilização
judaico-cristã.
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Mas a palavra mesma "deformação" é um
tanto enganosa. Deformar por meio do fluxo de informações
uma realidade preexistente é uma coisa; outra bem diversa é criar
praticamente do nada uma nova realidade constituída do puro
fluxo de informações falsas. Mentir em situações
de guerra, para favorecer um dos lados, é tão antigo
quanto a própria guerra. Mas mesmo o formidável desenvolvimento
da técnica da desinformação ao longo de duas guerras
mundiais e inumeráveis revoluções do século
XX não dá uma imagem adequada do que hoje se passa. Em
todos esses casos, os "formadores de opinião" desempenhavam
um papel auxiliar: a parte substantiva dos conflitos desenrolava-se
nos campos de batalha. Os protagonistas da narrativa bélica
eram os militares, os guerrilheiros, os terroristas, os partiggiani.
Jornalistas e tagarelas em geral formavam apenas o coro. Nas últimas
décadas, as proporções inverteram-se. A integração
mundial das comunicações e a conseqüente reorganização
da militância revolucionária em "redes" de extensão
planetária permitiram reduzir ao mínimo a função
bélica das armas e ampliar ao máximo a da guerra de informações.
O princípio subjacente a essa mudança é simples
e baseia-se na regra clássica da arte militar que mede a eficácia
da ação armada segundo a relação custo-benefício
que ela guarda com os resultados políticos visados. Quanto mais
ampla a repercussão política que se pode obter com um
esforço militar reduzido, tanto melhor. Nesse sentido, batalhas
inteiras da II Guerra Mundial, com centenas de milhares de mortos,
foram politicamente menos relevantes do que alguns ataques terroristas
comparativamente modestos realizados nas últimas décadas,
pela simples razão de que neste caso havia meios de alcançar
repercussão jornalística mais vasta e imediata, determinando
decisões de governo que em outras épocas necessitariam
de um estímulo sangrento muito mais eloqüente. Exemplos
característicos foram a guerrilha mexicana de Chiapas, militarmente
irrisória, que graças ao apoio instantâneo da mídia
internacional conseguia transformar em vitória política
cada nova derrota que sofria em combate, e o atentado à estação
férrea de Madri, que do dia para a noite fez a Espanha mudar
de lado na guerra contra o terrorismo. Napoleão, Rommel, Zhukov
ou MacArthur jamais sonharam em obter resultados tão espetaculares
com investimentos bélicos tão minguados.
O fenômeno ao qual estou me referindo recebe às vezes
o nome de "guerra informática" (netwar).
A bibliografia
a respeito já é bem extensa e foi inaugurada em 1996
com a excelente monografia da Rand Corporation sobre a guerrilha
de Chiapas, The Zapatista 'Social Netwar' in Mexico, que pode ser
comprada
ou descarregada gratuitamente em PDF no site http://www.rand.org/pubs/monograph_reports/MR994/index.html,
mas nunca encontrei entre as elites brasileiras, seja intelectuais,
empresariais, políticas ou militares, quem a tivesse lido. Menos
ainda encontrei quem tivesse alguma consciência clara da ligação
entre guerra informática e guerra assimétrica, embora
essa ligação seja a chave mesma para a compreensão
do quadro internacional hoje em dia. A fórmula do negócio
pode ser enunciada numa frase: A guerra assimétrica não é outra
coisa senão uma estratégia destinada a compensar a desproporção
de força e capacidade militares por meio da guerra informática.
Uma sugestão para quem deseje entender o funcionamento da coisa é ler
a monografia da Rand junto com o livro de Jacques Baud, La Guerre Asymétrique,
ou la défaite du vainqueur (Paris, Editions du Rocher, 2003).
Uma vez que se entendeu a unidade de guerra informática e guerra
assimétrica - e quem não entendeu está fora do
mundo --, torna-se inevitável tirar dessa convergência
de estratégias algumas conclusões óbvias:
1 - Os
alvos da guerra assimétrica são três e
sempre os mesmos: os EUA, Israel e aquilo que, nesses países
ou em quaisquer outros, ainda reste da civilização
judaico-cristã.
A "guerra cultural" é parte integrante da guerra
assimétrica.
2 - Se
a identidade dos alvos é nítida e bem conhecida,
a das forças atacantes permanece difusa e nebulosa ao ponto
de que a noção mesma de sua unidade estratégica
continua impensável até para o público mais
culto. Para apreendê-la é preciso ter estudado a estrutura
das "redes",
mapeando a circulação de dinheiro, de informações
e de palavras-de-ordem entre governos, fundações, partidos
políticos, ONGs, banditismo organizado e mídia no mundo
inteiro. Elementos para esse estudo podem ser encontrados nos sites http://www.discoverthenetworks.org e www.activistcash.com,
que já citei
aqui, bem como na recém-inaugurada seção "Mapas
Visuais" do jornal eletrônico brasileiro www.midiasemmascara.com.br.
Quem quer que examine esse material com a devida atenção
sabe que a existência de um eixo anti-americano, anti-israelense
e anticristão formado pelos governos da Rússia e da
China, pelas fundações globalistas bilionárias,
pela grande mídia esquerdista chique, pela rede terrorista
internacional e por milhares de organizações militantes
espalhadas pelo mundo não é uma hipótese ou
uma teoria: é um
fato brutalmente real - o fato essencial do nosso tempo. Mas as informações
que o evidenciam não saem, é claro, no "Jornal
Nacional" nem
na Folha, não são alardeadas desde o alto das cátedras
universitárias e, enfim, não chegam de maneira alguma
ao público maior. O resultado é que a hostilidade contra
os EUA, Israel e o cristianismo, meticulosamente fabricada a um custo
de muitos
bilhões de dólares, parece surgir do nada, como manifestação
espontânea dos belos sentimentos morais da humanidade - e qualquer
tentativa de contestar essa hipótese logicamente insustentável
e supremamente imbecil é rejeitada, mesmo por pessoas cultas,
como "teoria da conspiração". O sucesso psicológico
da guerra assimétrica pode medir-se pela facilidade com que
histórias da carochinha acabam parecendo mais verossímeis
do que os fatos mais abundantemente comprovados.
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Onde está o real campo de batalha: nos
protestos contra os EUA e Israel na Indonésia (foto),
ou no Líbano, acertado pelas bombas? |
3 - A
função da mídia e dos "formadores de
opinião" em
geral, no novo quadro estratégico, é bem diversa
daquele papel meramente auxiliar que tiveram em outras ocasiões,
incluindo nisto as vastas campanhas de desinformação
e manipulação
montadas pelo governo soviético desde a década de
30 até o fim da Guerra Fria (campanhas cuja amplitude permanece
ainda desconhecida fora do círculo dos estudiosos, por ter
sido revelada só a partir da abertura temporária
dos Arquivos de Moscou). Se a orientação geral é inverter
as proporções recíprocas do esforço
bélico
e da manipulação informática que o transmuta
em resultados políticos, os militares e terroristas é que
se tornam força auxiliar, enquanto o papel principal incumbe
aos manipuladores da opinião pública. Uma vez que
você percebeu
isso, sabe que é uma ingenuidade suicida continuar interpretando
a situação como se os únicos agentes revolucionários
que importam fossem os terroristas e os militantes mais descarados
a serviço de organizações subversivas e como
se os formadores de opinião fossem apenas cidadãos
inofensivos exercendo candidamente o seu direito à liberdade
de expressão.
Ao contrário: jornais, rádios, noticiários
de TV, aulas, livros, espetáculos de teatro são hoje
as principais armas de guerra, sua função essencial
ou única é serem
armas de guerra, e por isso mesmo o controle planejado do noticiário
deixou de ser uma exceção para se tornar a regra.
Um dos sinais mais alarmantes dessa mudança é o fato
de que a exclusão de notícias indesejáveis,
um recurso extremo antes usado com parcimônia até por
censores oficiais, se tornou procedimento normal e rotineiro da
maioria dos órgãos
da chamada "grande mídia" (no Brasil, em todos
eles, sem exceção). A supressão é tão
vasta e tão sistemática que continentes inteiros
da realidade contemporânea se tornaram invisíveis
para o público.
Notícias sobre torturas e assassinatos políticos
em Cuba, na China, no Vietnã ou na Coréia do Norte,
por exemplo, desapareceram por completo há mais de vinte
anos, embora nesse período o número das vítimas
nesses países
não esteja abaixo dos dez milhões de pessoas. É só quando
projetados sobre esse fundo vazio que episódios inócuos
como as humilhações ocasionais e incruentas sofridas
por terroristas em Abu-Ghraib ou Guantánamo podem despertar
atenção. É só nesse quadro totalmente
deformado que centenas de mísseis lançados diariamente
contra Israel podem parecer menos chocantes do que a tardia reação
israelense. É só nesse mundo de fantasia que o simples
pedido de uma congressista da Flórida para que o governo
americano estude a possibilidade de alguma ação militar
na Tríplice
Fronteira pode parecer uma intervenção estrangeira
mais perigosa, e mais insultuosa à dignidade nacional, do
que a movimentação
efetiva e constante, naquela área, de bandos de terroristas
armados atuando em parceria estreita com quadrilhas de narcotraficantes,
sob os olhos complacentes das nossas autoridades federais. É só no
reino da mentira total que a presença amazônica de
agentes do Conselho Mundial das Igrejas, um órgão
acentuadamente pró-comunista e anti-americano, pode ser
vendida ao público
como prova de intervenção imperialista ianque. Não,
já não se trata de censurar esta ou aquela notícia,
mas de modificar radicalmente a estrutura e as proporções
do panorama inteiro. Já não se trata de enganar o
público
quanto a um ou outro episódio em particular, mas de modificar
sua percepção integral da realidade.
Por isso é que a "guerra assimétrica", tão
constantemente presente no mundo dos fatos, raras vezes ou nunca dá o
ar da sua graça no universo de discurso da mídia brasileira. É que
aí não se trata de falar da assimetria, mas sim de criá-la. |