Vivenciar
conscientemente o tempo histórico em que transcorre a nossa
existência é um privilégio, um dever e um direito
da inteligência individual, que não alcança sua
plenitude senão absorvendo e integrando as tensões
e mutações do ambiente maior em torno. Desde o início
do século XX, esse direito foi negado a várias gerações
de seres humanos, induzidos a viver uma história fictícia
no mundo paralelo das militâncias ideológicas e a atravessar
a existência em pleno estado de ignorância quanto aos
fatores reais que determinaram o seu destino. A ilusão socialista
não consiste somente num erro de previsão quanto aos
objetivos finais. Se fosse assim ela seria apenas o final trágico
de existências nobres. Mas a expectativa falsa quanto ao futuro
já falsifica a vida presente: ela perpassa toda a biografia
de cada militante, tingindo de farsa e auto-engano cada um de seus
atos e pensamentos, mesmo os mais íntimos, pessoais e aparentemente
alheios à luta política.
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É
só estudar as vidas de Marx, de Lênin, de Stalin, de Mao,
de Guevara, de Fidel Castro, de Yasser Arafat (ou de seus acólitos
intelectuais, os Sartres, Brechts, Althussers e tutti quanti) para
entender do que estou falando: cada um desses homens que tiveram nas
mãos os destinos de milhões de pessoas foi um deficiente
emocional, cronicamente imaturo, incapaz de criar uma família,
de arcar com uma responsabilidade econômica ou de manter relações
pessoais normais com quem quer que fosse. Em compensação
do aborto moral de suas vidas, criaram a idealização
pomposa do "revolucionário" (isto é, deles
próprios), como encarnação de um tipo superior
de humanidade, adornando com um toque de estética kitsch a
mentira existencial total.
Eles não são personagens de tragédia. A regra
essencial da tragédia é a ausência de culpa. O
herói trágico não pode estar abaixo das circunstâncias,
não pode ser um perverso, um fraco, um idiota incapaz de arcar
com a própria vida. Ele fracassa porque entra em choque com
as exigências superiores de uma ordem cósmica invisível.
Seu único delito é ser apenas humano numa situação
que lhe impõe desafios sobre-humanos. Mas perceber a falácia
intrínseca da promessa socialista não é um desafio
sobre-humano (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/060611zh.html ). É um dever elementar de qualquer inteligência média
que se disponha a examinar o assunto objetivamente. Aqueles que fogem
a esse exame, transferindo a partidos, a movimentos ou à "opinião
pública" as responsabilidades da sua consciência
individual, renunciam ipso facto à dignidade da inteligência
e se consagram a uma luta obstinada e fútil contra a estrutura
da realidade. Vai nisso uma mistura de vaidade adolescente, de revolta
gnóstica e daquele orgulho satânico que é a compensação
quase automática da covardia existencial. Tudo isso é lamentável,
mas não é trágico: é grotesco. Não
há tragédia no fracasso do socialismo: há apenas
uma palhaçada sangrenta.
O modelo dos líderes e dos ídolos intelectuais é repetido,
em série ilimitada, nas vidas de militantes, simpatizantes e "companheiros
de viagem", acabando por espalhar-se entre o público geral.
O rancor sem fim contra pais e mães, a destruição
da unidade familiar, o ódio às exigências morais
das tradições religiosas, a busca desesperada de sensações
por meio do consumo de drogas, a reivindicação pueril
do "direito ao prazer", a transformação do
erotismo numa escalada de exigências egolátricas que começa
no protesto feminista e culmina na apologia aberta da pedofilia e do
incesto, a disseminação de técnicas pedagógicas
que estimulam a delinqüencia infanto-juvenil - tudo isso é a
projeção ampliada do estilo de vida dos "grandes
revolucionários", espraiada no tecido da sociedade ao ponto
de já não reconhecer-se como tal e transfigurada num
sistema de obrigações "éticas" que se
torna a base de julgamentos, acusações, cobranças
e chantagens.
O fundo de tudo é o ódio à realidade, a recusa
de arcar com o peso da existência, o sonho gnóstico de
transfigurar a ordem das coisas por meio da auto-exaltação
psicótica e de truques mágicos como a "reforma do
vocabulário".
(...)
nenhum regime direitista jamais matou, prendeu ou torturou
tantos militantes esquerdistas quanto Stalin, Mao, Pol-Pot
ou Fidel Castro.
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Não espanta que a política produzida por essas pessoas
seja uma contradição, uma imensa engenhoca entrópica
que cresce por meio da autodestruição e se inebria de
vanglória na contemplação das próprias
derrotas. Nenhuma exploração capitalista, por mais "selvagem" que
a rotulassem, conseguiu matar de fome multidões tão vastas
quanto as que pereceram durante a estatização da agricultura
na URSS, o "Grande Salto para a Frente" de Mao Dzedong ou
os experimentos socialistas em vários países da África.
A "luta contra a miséria" continua sendo o principal
pretexto moral do socialismo, mas a verdade é que a maior contribuição
do socialismo à vitória nessa luta seria simplesmente
cessar de existir. Do mesmo modo, o protesto inflamado contra qualquer
violência anti-socialista é um persistente Leitmotiv do
discurso de esquerda, mas nenhum governante direitista jamais matou,
prendeu ou torturou tantos militantes esquerdistas quanto Stalin, Mao,
Pol-Pot ou Fidel Castro. É uma simples questão de fazer
as contas. Se os socialistas tivessem um pingo de respeito por seus
próprios direitos humanos, voltariam para suas casas e deixariam
que a boa e velha democracia burguesa os protegesse contra a tentação
suicida de implantar o socialismo.
Do mesmo modo, quando os esquerdistas começam a falar em "paz",
a prudência recomendaria que começassem a estocar comida
no porão para a próxima guerra em que seus líderes
estão tratando de metê-los naquele mesmo momento. O movimento
pacifista encabeçado pelos partidos comunistas da Europa nos
anos 30 foi um truque concebido por Stalin para dar tempo à Alemanha
de se rearmar com a ajuda soviética e destruir a "ordem
burguesa" do velho mundo (leiam o clássico Stalin's War,
de Ernst Topitsch). Milhões de franceses idiotas gritaram em
passeatas e agitaram bandeirinhas brancas sem saber que isso era o
passaporte para o matadouro. Os tratados que, atendendo ao clamor de
uma geração inteira de jovens enragés, puseram
fim aos combates no Vietnã em 1972, deram um salvo-conduto para
que os comunistas invadissem o Vietnã do Sul e o vizinho Camboja
e matassem aí três milhões de civis - quatro vezes
o número total de vitimas civis e militares da guerra.
Os
terroristas sabem que as nações ditas infiéis
têm sentimentos morais, enquanto eles, os santos, os
eleitos, não têm nenhum e não precisam
ter nenhum.
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Enganam-se aqueles que enxergam na
novilíngua (newspeak) de
George Orwell apenas um truque publicitário concebido por líderes
maquiavélicos para induzir militantes estúpidos a aceitar
a guerra como paz, a tirania como liberdade. Esses líderes maquiavélicos
não têm nenhum controle sobre o processo, que, com raras
e inevitáveis exceções, termina por arrastá-los
e destruí-los junto com suas vítimas. O paradoxo autodestrutivo
está na centro de cada alma militante porque está na
raiz mesma do movimento socialista, que nasce da aspiração
gnóstica à supressão do mundo físico e
se condensa na proclamação absurda de Hegel: "O
ser, na sua indeterminação, é o nada" - uma
confusão patética entre discurso e existência,
destinada a ter as mais monstruosas conseqüências intelectuais
e históricas. O puro newspeak já marca sua presença
ostensiva na fórmula de Engels, "A liberdade é o
reconhecimento da necessidade", que inspirou tantas auto-acusações
falsas nos Processos de Moscou e cujo sentido último, de ironia
verdadeiramente demoníaca, aparece com nitidez fulgurante no
comentário de Bertolt Brecht: "Se eram inocentes, mais
ainda mereciam ser condenados." Brecht, aliás, foi aquele
mesmo que resumiu com cinismo exemplar a essência da moral socialista: "Mentir
em favor da verdade." Experimente fazer isso e, é claro,
você nunca mais vai parar de mentir.
Algumas regras usuais do leninismo ilustram esse cinismo na prática
diária: "Fomentar a corrupção e denunciá-la" e "Acuse-os
do que você faz, xingue-os do que você é" resumem às
mil maravilhas a história do nosso PT, que cresceu pelo discurso
de acusação moralista ao mesmo tempo que montava uma
máquina de corrupção de dimensões faraônicas,
perto da qual os velhos políticos ladrões começam
a parecer meninos de escola culpados de roubar chicletes.
Era inevitável que, com o tempo, a forma mentis autonegativa
do movimento esquerdista se cristalizasse numa fórmula estratégica
simples, ingênua até, que por sua simploriedade mesma
fosse de aplicação fácil e lucrativa, reprodutível
em escala mundial por simples automatismo.
Essa estratégia, cujo nome é hoje proclamado abertamente
pelo sr. Hugo Chávez, é a guerra assimétrica.
Ela consiste, como explica Jacques Baud em La Guerre Asymétrique,
ou la défaite du vainqueur (Paris, Éditions du Rocher,
2003), em transformar as derrotas militares em vitórias políticas
por meio de um ardil psicológico: outorgar a um dos lados, sob
pretextos edificantes, o direito incondicional a todos os crimes, a
todas as brutalidades, a todas as
baixezas, e desarmar o outro por meio de cobranças morais
paralisantes.
O que nem os praticantes nem os colaboradores passivos nem as vítimas
desse ardil parecem perceber é que ele traz em si a prova definitiva
da superioridade moral do adversário no mesmo momento em que
acusa seus supostos crimes e iniqüidades. É claro: se o
acusado não fosse moralmente sensível, consciencioso,
escrupuloso, seria impossível inibi-lo mediante o apelo a seus
deveres éticos. E, se o acusador fosse por sua vez sensível
a esses mesmos deveres no plano da sua própria conduta, ele
se veria igualmente travado por escrúpulos e não haveria
assimetria nenhuma. É justamente o fato de dispensar-se das
obrigações morais exigidas do inimigo que dá ao
praticante da guerra assimétrica a vantagem estratégica
da sua posição. É essencial para o sucesso desse
ardil que o discurso de acusação seja feito sempre pelo
culpado contra o inocente, pelo criminoso contra a vítima. O
público e a totalidade dos colaboradores passivos usados como
caixas de ressonância do moralismo indignado nem de longe se
dão conta disso, mas o fato é que, quanto mais veemente
a acusação, maior a malícia do acusador e mais
irrefutável a prova de seus crimes. A assimetria consiste
precisamente nisso.
Um exemplo didático, colhido da guerra entre Israel e o
Hezbollah, aparece no contraste entre as atitudes dos dois lados
no que diz respeito às
vítimas civis. Enquanto na mídia ocidental os israelenses
são condenados como monstros porque mataram acidentalmente
trinta civis num bombardeio, em países islâmicos as
matanças
deliberadas de civis israelenses pelos mísseis do Hezbollah
são comemoradas como atos meritórios. Se o leitor
duvida, veja o documentário em http://pmw.org.il/bulletins_Aug2006.htm#b020806.
Os terroristas sabem que as nações ditas infiéis,
pecadoras, têm sentimentos morais, enquanto eles próprios,
os santos, os eleitos, não têm nenhum e não
precisam ter nenhum. Sua moral consiste apenas na glorificação
descarada dos próprios crimes - e é ela que lhes
dá a
vitória na guerra assimétrica.
Outros exemplos, ainda mais eloqüentes, estão nas fotos
que ilustram esta página. Tiradas numa passeata de militantes
palestinos em Londres, foram enviadas pela escritora Bella Jozef, uma
judia brasileira residente na Inglaterra, a amigos seus em várias
partes do mundo, e vieram parar na minha caixa postal. Enquanto na
própria comunidade judaica muitos se sentem inibidos de desejar
em público a vitória de Israel, preferindo fazer discursos
tímidos e genéricos em favor da "paz", elas
mostram a verdadeira face da ideologia radical islâmica, que
a mídia ocidental, colaborando na guerra assimétrica,
esconde para dar feições mais humanas aos terroristas
e criar no mínimo uma impressão enganosa de equivalência
moral. As inscrições nestes cartazes dizem tudo. O que
o "outro mundo possível" promete conscientemente à humanidade,
sob os pretextos mais sublimes, é um novo Holocausto, de proporções
colossais, e a liquidação de tudo o que conhecemos
como liberdade e direitos humanos. |