No tempo
da ditadura, os esquerdistas da mídia, embora conservassem
o poder sobre as redações, se sentiam isolados e constrangidos.
Não tanto pela censura quanto pela hostilidade geral da população às
guerrilhas. Deprimia-os que o povo não gostasse de ver recrutas
e civis brasileiros ser feitos em pedaços por carros-bombas.
Magoava-os profundamente que ninguém visse nada de heróico
em "justiçar" com tiros nas costas homens desarmados,
que ninguém admirasse a nobreza de sentimentos com que o capitão
Lamarca esmagava a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado.
O
Fórum Social Brasileiro vai capitalizar a roubalheira
petista, explicando-a retroativamente como delito de neoliberalismo..."
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Hoje, esses episódios sumiram
tão completamente dos mesmos jornais que os denunciavam, que
já parecem invencionices retroativas da direita. Na época,
os próprios jornalistas de esquerda eram obrigados a contar
tudo tim-tim por tim-tim, sem poder em contrapartida expor ao menos
em detalhes a sua parte, os padecimentos que seus amigos terrorristas
sofriam - oh, quão injustamente! - em retribuição
das bombas e das emboscadas. Tinham os mais altos cargos e os melhores
salários, mas eram tão incompreendidos e infelizes
que precisavam consolar-se mediante festinhas de embalo no Copacabana
Palace. Terminaram achando que drogas e surubas tinham um alto potencial
revolucionário, e não estavam de todo errados, já que
acabaram conseguindo mais eficazmente corromper e drogar as gerações
seguintes do que ganhar alguma simpatia dos contemporâneos
para a violência revolucionária. Vindo a calhar com
a estratégia gramsciana que então começava a
ser importada, o modelo americano de "guerra cultural" da
New Left, que no início julgavam desprezível e burguês
na comparação com as propostas truculentas de Che Guevara
e Régis Débray, acabou sendo a tábua de salvação
que lhes permitiu sobreviver para reinventar depois a história
daquele período, fazendo da derrota das guerrilhas uma espetacular
vitória publicitária e uma fonte inesgotável
de verbas consoladoras.
Mas não foi só nisso que a esquerda midiática se americanizou.
A época foi também a do afluxo maciço de brazilianists,
que embora fossem também quase todos de esquerda - alguns deles tão
enragés quanto qualquer guerrilheiro -, eram bem recebidos pelo governo
por conta das instituições que os patrocinavam. Muita coisa que
a esquerda local não podia dizer era dita pela boca desses medalhões,
de onde o discurso esquerdista saía perfumado com o aroma da superior
neutralidade acadêmica da Ivy League.
Os
turistas brincavam de se jogar na piscina quando chegou o boliviano
que trazia pó. Jogaram-no também. Desespero geral".
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Aos poucos, o hábito de respaldar-se
em declarações de americanos apresentados como insuspeitos
tornou-se um dispositivo usual da retórica esquerdista. Na
verdade homens como Ramsey Clark, John K. Galbraith, Jimmy Carter
ou Ted Kennedy eram a fina flor do esquerdismo chique. Estavam comprometidos
até a goela com a ajuda à subversão no Terceiro
Mundo. Mas a simples insistência geral da esquerda na lenda
de que o golpe militar viera de Washington dava a qualquer americano,
por contraste, a autoridade para falar contra a direita latino-americana
sem parecer nem um pouquinho esquerdista. O mesmo acontecia com jornais
patologicamente mentirosos em favor da esquerda, como New York Times
e Washington Post, que ante a platéia tupiniquim ignorante
podiam ser citados como modelos de isenção profissional
pelo simples fato de ser americanos.
A geração seguinte de esquerdistas continuou usando o mesmo truque,
mas por automatismo paspalho e sem saber que era truque. Quando um Eliakim
Araújo, ardido de dores petistas e embriagado de alegria vingativa pela
demissão de Boris Casoy, compara desvantajosamente o ex-âncora
da Record a "respeitados jornalistas do horário nobre" da
TV americana, incluindo entre estes últimos dois notórios vigaristas
de esquerda como Peter Jennings e Dan Rather, ele parece acreditar mesmo no
que diz, coitado. A malícia dos gurus impregnou-se em seus discípulos
sob a forma de ingenuidade perversa. Eles já não mentem por astúcia.
Mentem porque ninguém os ensinou a fazer outra coisa.
NOTINHA
HORRÍVEL
Quanto às festinhas no Copacabana Palace, não falo genericamente.
Há uma crônica inesquecível de Daniel Más sobre
isso, publicada na extinta revista Visão. Segundo o cronista, até a
expressão "Anos Dourados", usada para designar de maneira
aparentemente paradoxal uma época também carimbada como "Anos
de Chumbo", se originou entre o pessoal da mídia e do show business
por alusão a uns pacotinhos dourados em que vinha a cocaína.
O episódio é edificante. Um dia, turistas estavam brincando de
jogar-se uns aos outros na piscina do hotel, enquanto a turminha esperta dos
brasileiros, nas mesas em torno, aguardava a chegada de um boliviano que trazia
o pó. De repente, aterrorizados, viram o sujeito entrando e sendo agarrado
pelos brincalhões. Não houve tempo nem de gritar. Foi o desespero
geral: todo mundo pulando na água, atrás dos papeizinhos dourados... |