Ao chegar à América
em 1623, o governador William Bradford encontrou a colônia
de Plymouth numa situação desesperadora: magros,
doentes, em farrapos, sem atividade econômica organizada,
os peregrinos estavam à beira da extinção.
Muitos, depois de vender aos índios todas as suas roupas
e demais bens pessoais, tinham lhes vendido sua liberdade:
eram escravos, vivendo de cortar lenha e carregar água
em troca de uma tigela de milho e um abrigo contra o frio.
Interrogando os líderes da comunidade em busca da causa
de tão deplorável estado de coisas, Bradford descobriu
que a origem dos males tinha um nome bem característico.
Chamava-se "socialismo".
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ANARQUIA - Os
habitantes de Plymouth, revolucionários puritanos
exilados, trouxeram para a América as idéias
sociais esplêndidas que os haviam tornado insuportáveis
na Inglaterra, e tentaram construir seu paraíso coletivista
no Novo Mundo. As terras eram propriedade comunitária,
a divisão do trabalho era decidida em assembléia
e a colheita se dividia igualitariamente entre todas as bocas.
O sistema havia resultado em confusão geral, a lavoura
não produzia o suficiente e aos poucos a miséria
havia se transformado naturalmente em anarquia e ódio
de todos contra todos.
A um passo do extermínio,
a comunidade aceitou então a sugestão de mudar
de rumo, voltando ao execrável sistema de propriedade
privada da terra. "Isso teve muito bons resultados",
relata Bradford. "Muito mais milho foi plantado e até as
mulheres iam voluntariamente trabalhar no campo, levando
suas crianças para ajudar." O surto de prosperidade
que se seguiu é bem conhecido historicamente: ele
permitiu que os colonos fincassem raízes na América
e começassem a construir o país mais rico do
mundo.
A
experiência socialista em dose mínima
teve no corpo da América o efeito de uma imunização
homeopática. A ojeriza às experiências
coletivistas dura até hoje.
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Homem de fé, Bradford
não atribuiu a salvação da colônia
aos méritos dela ou dele próprio, mas à mão
da providência divina. O sucesso do sistema capitalista,
escreveu ele, "bem mostra a vaidade daquela presunção
de que tomar as propriedades pode tornar os homens mais felizes
e prósperos, como se fossem mais sábios que
Deus".
Encontrei essa história na coluna de Mike Franc no semanário
Human Events. Para mim ela era novidade completa, mas depois descobri
que por aqui até os meninos de escola a conhecem. O documento
clássico a respeito é o livro do próprio Bradford,
Of Plymouth Plantation, 1620-1647. Uma edição confiável é a
de Samuel Eliot Morison (New York, Modern Library, 1967).
BRADFORD - A
experiência socialista em dose mínima teve no
corpo da América o efeito de uma imunização
homeopática. A arraigada ojeriza do povo americano às
experiências coletivistas dura até os dias de
hoje, malgrado as tentativas cíclicas de reintroduzi-las
subrepticiamente por meio de manobras burocráticas
que escapam ao controle do eleitorado, as quais terminam
sempre no fracasso geral e no subseqüente retorno à constatação
de Bradford: "Deus, na sua sabedoria, viu um outro rumo
melhor para os homens."
Há décadas
o MST vem habituando a opinião pública
a aceitar passivamente a sua cínica usurpação
de direitos auto-legados, passando por cima da lei.
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Há muita gente que,
não gostando do socialismo, se curva de bom grado à sua
pretensa necessidade histórica, sob a alegação
de que o povo "precisa passar por isso" para aprender
com a experiência. Uma das poucas coisas de que me
gabo é nunca ter apelado a essa desculpa idiota para
justificar meus erros. Adotei como divisa a máxima
atribuída pelo povo gaiato ao ex-presidente Jânio
Quadros - "Fi-lo porque qui-lo" - e, sem nada conceder
ao fatalismo retroativo, considero-me o único autor
de minhas próprias cacas (afinal, a gente tem de se
orgulhar de alguma coisa na vida).
O problema com a experiência é a dose: a quantidade
de veneno de cobra numa vacina não é a mesma da mordida
real. O que educa não é propriamente a experiência,
mas a rememoração meditativa depois dela. A condição
para isso é que você saia da experiência vivo
e não muito danificado. Uma coisa é a miniatura de
socialismo numa colônia de peregrinos. Outra são décadas
de ditadura socialista em extensões territoriais continentais
como a da Rússia e a da China. O Brasil ainda não
chegou a esse ponto, mas já passou muito além do
limite em que a experiência pode ensinar alguma coisa em
vez de lesar o aprendiz para sempre. O vício estatista e
coletivista é muito antigo e pertinaz, a intromissão
do Estado na economia é muito vasta e profunda para que
se possa simplesmente parar tudo de uma hora para a outra e meditar
sobre o fracasso da experiência. Nem se pode designar com
esse nome o que já se tornou um estilo de vida, uma cosmovisão,
uma religião, um imperativo categórico investido
de fatalidade quase cósmica: um empresário brasileiro
sem subsídio estatal se sente tão desamparado quanto
um inglês sem guarda-chuva, um russo sem vodca ou um italiano
sem mãe. Inversa e complementarmente, não chegou
a ser uma "experiência" a tentação
de capitalismo liberal do brevíssimo governo Collor, punida
exemplarmente pelo superego estatista sob o pretexto de crimes
jamais provados e abortada na gestão subseqüente pelo
escândalo das pseudo-liberalizações monopolistas,
que um presidente socialista, patrono da revolução
no campo temporariamente disfarçado em adepto da liberdade
econômica, forçou para dar a seus correligionários
o pretexto que queriam para voltar correndo aos braços do
Estado-babá.
A imersão do Brasil na poção miraculosa do
estatismo já durou tempo demais para que um mergulho ainda
mais profundo e duradouro possa valer como experiência didática,
exceto no sentido em que é didático trancar-se numa
jaula com um tigre faminto para averiguar se come gente.
Mas até essa advertência é tardia: já demos
esse mergulho, já estamos dentro da jaula. O tigre já está lambendo
os beiços. Os que quiserem esperar para só tirar
conclusões quando ele começar a palitar os dentes
não terão tempo para isso, pois estarão espetados
no palito, reduzidos a fiapos de si mesmos.
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Não há covardia
mais torpe que a covardia da inteligência, a burrice
voluntária, a recusa de juntar os pontos e enxergar
o sentido geral dos fatos. Toda a chamada "oposição" nacional é culpada
desse pecado que terminará por matá-la. Não
faltam aí políticos e intelectuais que protestem
contra afrontas isoladas, mas não há um só que
consinta em apreender a unidade estratégica por trás
delas, clara e manifesta, no entanto, para quem tenha algum
estudo, por modesto que seja, da técnica das revoluções
sociais.
Muitos são os que se sentem insultados pela proposta indecente
de cursos especiais para o MST em universidades públicas,
com concessão de diploma superior e dispensa de exame escrito,
tendo em vista o direito dos doutores ao analfabetismo, já consagrado
como um mérito na pessoa do sr. presidente da República
e em parte na do próprio ministro da Cultura seja isto lá o
que for). Mais ainda são os que se revoltam contra a obstinada
impossibilidade de punir qualquer mandatário petista, mesmo
com provas cabais de crimes incomparavelmente superiores ao de
um juiz Lalau, de um Maluf e de um P. C. Farias, todos somados.
MÁFIA - O que não
percebem é que, em ambos os casos, se trata
da aplicação de um mesmo princípio
básico da estratégia revolucionária,
que é a progressiva substituição
do sistema de legitimidades vigente por um novo sistema
fundado na solidariedade partidária mafiosa.
Não se trata nem de sugar vantagens ocasionais
para o MST, nem de proteger improvisadamente um criminoso
vermelho de colarinho branco. Estas são apenas
oportunidades para a aplicação do princípio.
Ao postular abertamente vantagens ilícitas
para seus protegidos ou festejar descaradamente a
impunidade do corrupto-mor, o esquema esquerdista
dominante está enviando à nação
uma mesma mensagem, que os analistas de plantão
podem não perceber, mas que cala fundo no
subconsciente do povo e impõe, com a força
do fato consumado, o império da nova lei.
Traduzida em palavras, a mensagem diz: "A velha
ordem constitucional acabou. O Partido-Príncipe
está acima de todas as leis. Ele é a
fonte única de todos os direitos e obrigações."
SOVIETES - Em todas as revoluções
socialistas, essa mudança do eixo da autoridade é ao
mesmo tempo o mecanismo básico e o objetivo
essencial. Na Rússia, anos de boicote à administração
oficial e de parasitagem das suas prerrogativas pelos
sovietes antecederam a proclamação
de Lênin ao voltar do exílio: "Todo
o poder aos sovietes". Há décadas
o MST, que tem uma estrutura e composição
interna absolutamente idênticas às dos
sovietes - não constituindo uma organização
agrícola, mas um todo político-militar
complexo, com especialistas em todas as áreas,
do marketing à técnica de guerrilhas
- já vem habituando a opinião pública
a aceitar passivamente a sua cínica usurpação
de direitos autopromulgados, passando por cima da
lei. Desde o instante em que o governo do sr. Fernando
Henrique Cardoso - cúmplice consciente de
um processo que ele conhece mais do que ninguém
- aceitou alimentar com uma pletora de verbas públicas
uma entidade legalmente inexistente, estava instaurado
o direito à ilegalidade em nome da superior
legalidade revolucionária. Destruindo voluntariamente
a ordem estabelecida, o sr. Cardoso teria sido objeto
de impeachment se sua pantomima de "neoliberal" não
tivesse entorpecido as lideranças políticas
e empresariais hipoteticamente direitistas, tornando-as
insensíveis ao desmantelamento da ordem, porque
era preferível que viesse "de um de nós" em
vez do espantalho petista. Cardoso elegeu-se com
o simples endosso da frase "Esqueçam
o que eu escrevi". Poucos meses depois, seu
conluio com o MST trouxe a prova de que ele próprio
não se esquecera de nada.
Com a ajuda de uma popularíssima novela da Globo, as invasões
de terras foram então legitimadas: a entidade sem registro
recebia o registro pelas mãos de seus próprios crimes.
Muito mais importante do que a posse das terras era, para o MST,
essa imposição da sua vontade como força superior às
leis. Era, já, a transferência tácita do poder
aos sovietes.
Usar
as terras para plantar nunca foi considerado, exceto
para jogar areia nos olhos da opinião pública.
O MST não produz nem para o sustento dos seus
membros.
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As terras podiam não servir de grande coisa, excluída
a sua posição estratégica ao longo das estradas,
nem sempre boa para o plantio, mas apta a paralisar o país
numa futura e talvez até desnecessária hipótese
insurrecional. Usá-las para plantar jamais entrou em consideração
exceto na dose mínima suficiente para jogar areia nos olhos
da opinião pública. A prova é que, transformado
pelo roubo oficializado no maior proprietário de terras
que já houve neste país, o MST não produz
sequer o necessário ao sustento dos seus membros, que se
nutrem de alimento muito mais substancioso: verbas públicas,
direitos usurpados, ocupação do espaço aberto
pela legalidade acovardada que recua.
Quanto à impunidade do sr. José Dirceu, é extensão
lógica da transformação do STF em assessoria
jurídica do Partido-Príncipe. Não é um
improviso espertalhão: é um capítulo previsível
da história da imposição do poder revolucionário
pelos meios esquivos e anestésicos concebidos por Antonio
Gramsci mais de sete décadas atrás. Desde 1993 venho
tentando chamar a atenção do empresariado, das Forças
Armadas, dos intelectuais não comprometidos com o poder
esquerdista para a obviedade da aplicação do esquema
gramsciano não só pelo PT, mas pelo conjunto dos
partidos esquerdistas aglomerados no Foro de São Paulo.
Passo por passo, etapa por etapa, anunciei antecipadamente cada
novo lance da implementação da estratégia.
Em vão. Excetuando cinco ou seis homens sensatos que compartilharam
imediatamente das minhas preocupações, mas cujo número
e poder eram inversamente proporcionais ao mérito da sua
coragem intelectual, a resposta que recebi foi sempre a mesma,
vinda das mais variadas fontes. Neste país de gente pomposa
e burra, o estudo mais extenso, o conhecimento mais preciso dos
fatos, a descrição mais exata do seu encadeamento
racional nada valem perante o apelo a um chavão tranqüilizante.
Despediam-se do problema por meio do rótulo "teoria
da conspiração" - e iam descansar seus traseiros
gordos e suas consciências balofas no leito macio da traição
passiva. Não perdôo ninguém: ricaços
presunçosos, generais perfumados, senadores de musical pornô,
sabonetões a granel. E não me venham com patacoadas
pseudo-evangélicas: Jesus ordenou perdoar as ofensas feitas
a nós pessoalmente; jamais nos deu procuração
para perdoar as ofensas feitas a terceiros, muito menos a uma nação
inteira. Por isso lhes digo: vocês todos são culpados
da degradação sem fim que este país está sofrendo.
Tão culpados quanto qualquer José Dirceu. E nem falo
daqueles que, percebendo claramente a debacle, se adaptaram gostosamente
a ela, distribuindo medalhas a criminosos, subsídios a vigaristas,
afagos a quem só não os mata porque não chegou
a hora. Esses não pecaram por omissão: ao contrário,
nunca agiram tanto. Alguns já colheram o fruto amargo da
bajulação: foram esmagados sob o peso dos sacos que
puxavam. Outros não perdem por esperar. Quando a injustiça
se eleva ao estatuto de norma geral, ironicamente sobra sempre
um pouco de justiça nos detalhes.
Mas, cavando um pouco mais fundo no estudo dos
fenômenos
acima apontados, descobre-se que a imposição cínica
de direitos auto-arrogados não é nem mesmo um simples
instrumento da estratégia de tomada do poder: é um
traço constante e uniforme da mentalidade revolucionária,
nascido muito antes de que esse instrumento fosse concebido por
Lênin no contexto da via insurrecional e adaptado por Gramsci à estratégia
capciosa da revolução anestésica.
ADORAÇÃO - Norman
Cohn, em The Pursuit of the Millenium (Oxford University,
1961), assinala uma característica proeminente
de certas seitas gnósticas medievais: seus
adeptos sentiam-se tão intimamente unidos
a Deus que se imaginavam libertos da possibilidade
de pecar. "Isto, por sua vez, os liberava de
toda restrição. Cada impulso que sentiam
era vivenciado como uma ordem divina. Então
podiam mentir, roubar ou fornicar sem problemas de
consciência."
A
imersão do Brasil na poção miraculosa
do estatismo já durou tempo demais para que
um mergulho profundo e duradouro possa valer como experiência
didática.
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Enquanto essas seitas se refugiavam
em círculos estreitos
de iniciados esotéricos, a pretensão de imunidade
essencial ao pecado não passou de um delírio de auto-adoração
grupal. Na entrada da modernidade, porém, como observou
Eric Voegelin em The New Science of Politics (University of Chicago,
1952), essas seitas se exteriorizaram em poderosos movimentos de
massas. Foi quando começou a Era das Revoluções.
Transposta para a esfera da ação política,
a autobeatificação permissiva deu origem à moral
revolucionária que isenta o militante de todos os deveres
morais para com a sociedade existente, santificando as suas mentiras
e seus crimes em nome dos méritos de um estado social
futuro que ele se autoriza a exibir desde o presente como salvo-conduto
para praticar o mal em nome do bem.
Uma das primeiras manifestações dessa transmutação
de uma falsa sabedoria esotérica em movimento revolucionário
de massas foi, precisamente, a Revolução Puritana
na Inglaterra. Nela já estão presentes todos os elementos
da autobeatificação petista - e não só petista,
mas esquerdista em geral, com especial destaque para a "teologia
da libertação": a absoluta insensibilidade moral
aliada à reivindicação de méritos sublimes;
a idealização do "pobre" como portador
de uma sabedoria excelsa não apesar mas em razão
de sua incultura mesma; a vontade férrea de impor o critério
grupal de justiça acima de toda consideração
pelos direitos dos outros; o mito da propriedade coletiva; a pseudomística
de um Juízo Final terrestrializado e identificado com o
tribunal revolucionário.
CARDOSOS - Pois bem, foram esses
mesmos puritanos que, fracassado o intento revolucionário
na Inglaterra, vieram criar seu simulacro de paraíso
no Novo Mundo. A resistência da sociedade,
que encontraram na Europa, ainda podia ser explicada
como obstinação dos maus que não
se rendiam à autoridade dos "Santos".
Mas o que os "Santos" encontraram do outro
lado do oceano não foi nenhuma discordância
humana: foi a resistência implacável
da natureza material, a estrutura da realidade -
ou, em linguagem teológica, a vontade de Deus.
A ela souberam no entanto conformar-se, diante da
segunda derrota, os teimosos puritanos. Trocando
seu orgulho pela humildade que lhes ensinava o sábio
Bradford, tornaram-se mansos e herdaram a Terra.
No Brasil, a soberba dos revolucionários, alimentada pela
covardia geral e pela cumplicidade de muitos Cardosos, ainda vai
levar muito tempo para se chocar de encontro aos limites da realidade.
Comparadas as proporções entre a experiência
dos puritanos e a deles, não é provável que
isso aconteça sem uma dose de sofrimento superior àquela
da qual pode resultar algum aprendizado. |