Se tenho insistido
no tema do desconstrucionismo, é para mostrar que toda
tentativa de discussão democrática com intelectuais
ou líderes esquerdistas, hoje em dia, é tempo perdido.
Eles criaram instrumentos verbais altamente sofisticados para
escapar de toda cobrança racional e impor seus desejos
e caprichos sem ter de dar satisfações senão à sua
vontade de poder. Mais ainda: inventaram um sistema de pretextos
infalíveis para sentir que, ao fazer isso, são
as melhores pessoas do universo, contra as quais só monstros
de egoísmo e crueldade poderiam objetar alguma coisa.
Pior: transmitiram essas atitudes e sentimentos a duas gerações
de estudantes universitários, que hoje ocupam os espaços
fundamentais na educação, na mídia, na administração
pública, na justiça e, é claro, numa infinidade
de ONGs e "movimentos sociais".Hegel dizia que aquele
que nas discussões públicas se abstém de
razões e apela à autoridade secreta da sua "voz
interior" é um inimigo da espécie humana.
Extinta a possibilidade de aferição objetiva, suprimidos
os instrumentos de prova, reduzido o debate a um confronto de
vontades, a única autoridade que resta é a pura
habilidade de impressionar, de assombrar, de seduzir, de hipnotizar.
E para isso vale tudo: desde o sex appeal até a intimidação
prepotente, passando pela ostentação de títulos
e cargos, a forma mais tosca e besta do argumento de autoridade,
característica do bacharelismo provinciano que volta à moda
meio século depois de parecer definitivamente superado.
Uma vez conquistada a adesão estudantil pelo fascínio
vulgar de charlatães bem-falantes, a autoridade se transfere
a gerações inteiras de jovens enragés que
saem da faculdade imbuídos do dever de "transformar
o mundo" por meio da mentira e do engodo.
Por
toda parte, esses "agentes de transformação
social" se empenham em fazer com que as engrenagens
da sociedade funcionem ao contrário das suas finalidades
nominais, criando o caos em lugar da ordem, a revolta e o ódio
em lugar da paz, a malícia em lugar da confiança.
Em suma, caro leitor, você está rodeado de ativistas
cínicos, capazes de mentir e trapacear ilimitadamente
no interesse do seu grupo político. Se você abre
um jornal, não pode ter a certeza de ler fatos em
vez de balelas interesseiras. Se tem uma demanda na justiça,
não pode estar seguro de que não cairá nas
mãos de um comissário do povo, decidido a julgar
não segundo as razões do processo, mas segundo
a classe social das partes. Se envia a esposa nervosa a um
consultório de psicoterapia, não sabe se ela
será tratada dos seus males ou envenenada de ódio
ao marido. Se envia os filhos à escola, sabe que eles
voltarão de lá tatuados e viciados, admirando
bandidos e abominando as leis, falando alto, dando ordens
ao pai e à mãe, indignados com a proibição
das drogas, cheios de revolta sacrossanta contra a instituição
familiar que os sustenta e protege.
O
general Golbery foi o pai da ascensão petista,
restando apenas saber se o foi por pura presunção
e ignorância ou se houve da sua parte um pouco
de cegueira voluntária.
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E
ainda há quem, no meio disso, acredite poder confiar
nas leis e instituições, no funcionamento normal
da sociedade, na sanidade do processo democrático.
A classe empresarial, os políticos pragmáticos e os analistas
econômicos têm uma dificuldade quase intransponível de compreender
o alcance político de modas culturais que, de início, parecem
limitadas a um círculo de professores excêntricos e estudantes
amalucados. Quase um século depois de Lukács, Gramsci, a Escola
de Frankfurt e o próprio Stálin haverem descoberto que a cultura,
e não a economia, é a força que move o processo revolucionário,
esses observadores vesgos ainda acreditam que existe um abismo entre o mundo "prático" e
a esfera dos interesses "abstratos", "estratosféricos",
da intelectualidade acadêmica e artística. Estratosféricos
são eles, habitantes do mundo da Lua. Quando o general Golbery do Couto
e Silva inventou a teoria da "panela de pressão", pontificando
que a atividade repressiva do Estado deveria limitar-se à oposição
armada, deixando as universidades e as instituições de cultura
livres como válvula para o escoamento das pressões subversivas,
mal sabia ele que, àquela altura, os esquerdistas mais avisados já haviam
abandonado o projeto guerrilheiro e depositado todas as suas esperanças
na "revolução cultural" gramsciana: a única
arma de que precisavam era, precisamente, uma válvula.
(...)
no calor da luta contra as guerrilhas, a imagem de uma
futura esquerda 'pacífica' e 'legalista' pareceu
à elite militar
uma alternativa roseamente desejável.
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Ao
optar implicitamente por não resistir ao comunismo
em geral, mas só ao comunismo "violento",
o governo lhes forneceu essa arma. Um pouco de estudo teria
bastado para mostrar ao sapientíssimo general que
a "via pacífica" para o comunismo era nada
mais que o adiamento da violência crua para depois
da tomada do poder por meios anestésicos. Mas, no
calor da luta contra as guerrilhas, a imagem de uma futura
esquerda "pacífica" e "legalista" pareceu à elite
militar uma alternativa roseamente desejável. Em poucos
anos, essa esquerda, nascida das conversações
gramscianas na USP, estava montada e em pleno funcionamento.
Não houve, na "direita", quem não
celebrasse o seu advento como um formidável progresso
da democracia. O general Golbery foi o pai da ascensão
petista, restando apenas saber se o foi por pura presunção
e ignorância ou se houve da sua parte um pouco de cegueira
voluntária, alimentada por ambições
nasseristas de absorver a esquerda continental num esquema
militar nacionalista e anti-americano. Hoje sabemos que o
esquema militar é que foi absorvido, subjugado e posto
a serviço dos planos do Foro de São Paulo.
Isso era perfeitamente previsível, mas não
a quem alimentasse, como o general, a ilusão de poder
manipular e "civilizar" o movimento comunista.
A "queda" da URSS e a embriaguez triunfal dos liberais
no início dos anos 90 levaram essa ilusão às últimas
conseqüências, fazendo com que as "elites" (ou
a Zé-Lite) celebrassem o sucesso do PT como uma promessa
de melhores dias para a democracia capitalista. Frases como "o
comunismo acabou" e "Lula mudou" adquiriram
então o prestígio de dogmas inabaláveis,
e quem sugerisse que as coisas não eram bem assim
se tornava objeto de chacota da parte de banqueiros, empresários,
políticos "de direita", capitães
da mídia e altos oficiais militares - a pura nata
da Zé-Lite.
Hoje,
quando esses senhores, de rabo entre as pernas, já entrevêem
no colaboracionismo servil e trêmulo a sua única
chance de sobrevivência, sinto-me até um tanto
constrangido de lhes explicar, de novo, que os estrategistas
da revolução comunista, por mais que lhes pareçam
meros intelectuais avoados, de paletó sebento e barba
por fazer, são um pouco mais espertos que eles. Um "homem
prático" vive de olho nas cotações
da bolsa e ri da sugestão de que algo tão abstrato
e academicamente rebuscado como uma teoria literária
possa ter alguma periculosidade política. O intelectual
comunista aproveita-se dessa falsa sensação
de segurança para fazer da teoria literária
um instrumento de ação capaz de virar o mundo
do avesso.
Empresários,
políticos pragmáticos e analistas econômicos
têm uma dificuldade quase intransponível
de compreender o alcance político de modas culturais.
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Vou
contar, em linhas gerais, como isso aconteceu.
Na
década de 30, Stálin estava persuadido de que
a única função da arte e da literatura
era a propaganda revolucionária. Parida às
pressas pela Academia Soviética, a teoria estética
do "realismo socialista" impregnou massas de escritores
e artistas em todo o mundo comunista. Só não
chegou a tornar-se um dogma universal porque, no Ocidente,
Stálin reservava às celebridades das letras
e artes uma função mais sutil. Queria usá-las
como instrumentos de camuflagem: deviam abster-se da filiação
explícita ao Partido Comunista (e portanto também às
suas opções estéticas) e, conservando
uma fachada de neutralidade, colocar o seu prestígio
a serviço de causas específicas de interesse
do Partido nos momentos decisivos. Isso deu aos escritores
esquerdistas da Europa e das Américas a margem de
liberdade que lhes permitiu escapar do realismo socialista
e continuar fazendo literatura em sentido estrito. Por toda
parte, poetas, romancistas e críticos - a começar
pelo príncipe da crítica marxista, Georg Lukács
em pessoa e seu fiel escudeiro Lucien Goldmann - desprezavam
a estética oficial soviética e faziam a apologia
dos cânones literários que construíram
a grandeza de Shakespeare, Cervantes, Goethe, Balzac e Dostoiévsky.
Lukács escreveu páginas notáveis em
defesa do "grande realismo burguês", alegando
que a representação fiel da realidade histórica
era uma força revolucionária em si, sem necessidade
de concessões à propaganda. Até em congressos
do Partido a hostilidade ao realismo socialista acabava se
mostrando, às vezes de maneira explosiva. Referindo-se
ao chefe da escola, o nosso Graciliano Ramos exclamava: "Esse
Jdanov é um cavalo." Assim a literatura foi salva
do embrutecimento ideológico. Os anos 30-50 acabaram
sendo uma época de criatividade literária incomum.
No Brasil, então, nem se fala. Nunca tivemos tantos
escritores bons ao mesmo tempo.
Fotos: Reprodução
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Mas
foi uma salvação provisória. Aqui e
ali, discretamente, intelectuais iluminados se davam conta
de que a preservação dos cânones do realismo
e, de modo geral, a concepção da literatura
como conhecimento, eram incompatíveis com a meta escolhida
pelo próprio Lukács: a destruição
da civilização ocidental. Puseram-se então
a trabalhar na idéia de que a literatura não
podia conhecer a realidade, já que - segundo entendiam
- a própria realidade era uma invenção
literária. Para dar a essa idéia um arremedo
de consistência, apelaram a um formidável arsenal
de recursos extraídos da língüística,
da antropologia, da lógica formal, da "teoria
crítica" frankfurtiana e das filosofias de Nietzsche
e Heidegger. Em menos de uma década a proposta havia
evoluído para a formulação radical do
desconstrucionismo: não existe realidade nem conhecimento,
nenhum discurso tem significado, o significado é livremente
inventado por "comunidades interpretativas" que
aí projetam como bem entendem seus desejos e interesses,
portanto tudo o que há para fazer é reunir
a comunidade e ensinar-lhe os meios de usurpar o sentido
dos textos em benefício próprio.
De
súbito, a doutrina de Stálin-Jdanov era restaurada
em todo o esplendor da sua brutalidade, mas agora resgatada
da sua pobreza teórica originária e paramentada
com todos os falsos adornos da sofisticação
acadêmica. O desprezo pela verdade, a legitimação
da mentira politicamente útil, o cinismo das interpretações
forçadas, enfim a prostituição total
das atividades intelectuais superiores aos interesses de
grupos de pressão tornaram-se não só legítimos
e recomendáveis, mas intelectualmente elegantes e
moralmente obrigatórios. Na mesma onda, as distinções
entre o verdadeiro e o falso, entre cultura e incultura,
entre o esteticamente superior e inferior, foram condenadas
como instrumentos de opressão e substituídas
pelo culto de qualquer bobagem politicamente oportuna que
se apresentasse. Toni Morrison foi igualada a Shakespeare,
as novelas de Gilberto Braga celebradas como portadoras da "universalidade
de um Balzac" por ser bem aceitas em todos os mercados.
Considerar Bach superior a Gilberto Gil tornou-se algo assim
como um crime de racismo.
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Não é preciso
dizer que o primeiro resultado foi a pura e simples desaparição
da grande literatura. A segunda metade do século XX
não gerou nada que se comparasse nem de longe a um
Thomas Mann, a um Proust, a um Jacob Wassermann, a um Hermann
Broch, a um Robert Musil, a um Antonio Machado, a um Bernanos,
a um Mauriac. Nas nações do Terceiro Mundo,
as sementes da cultura superior em gestação
foram impiedosamente arrancadas. O país que cinqüenta
anos atrás tinha Manuel Bandeira, Carlos Drummond
de Andrade, Graciliano Ramos, Annibal M. Machado, Marques
Rebelo, José Lins do Rego, agora lê Luís
Fernando Veríssimo e acha o máximo.
Se
os efeitos se limitassem à esfera das letras, já seriam
suficientemente perversos. À retração
da criatividade literária corresponde, pari passu,
a degradação da linguagem pública, a
progressiva incapacidade de expressar a experiência
real e, conseqüentemente, a fixação dos
debates em estereótipos alienados, prenunciando a
ascensão da loucura geral como alternativa política.
Mas,
como não poderia deixar de ser, os procedimentos interpretativos
da escola desconstrucionista e similares logo foram estendidos
para as ciências humanas em geral, afetando todas as
esferas do debate público. Aí os efeitos foram
muito além do mero sucesso propagandístico.
Ampliaram-se até à destruição
de todo princípio de ordem e racionalidade na vida
social. Avaliar, mesmo sumariamente, a extensão do
dano, ocupará muitos artigos nas próximas semanas.
Vou aqui dar um único exemplo, que depois explicarei
melhor.
Um dos setores onde a influência desconstrucionista penetrou mais fundo é o
Direito. Aí se evidencia como uma teoria literária pode ter conseqüências
devastadoras sobre toda a ordem social. Juízes, promotores e advogados
são hoje formados sob a crença dominante de que as leis, como
qualquer outro texto, não têm nenhum significado originário
objetivamente válido. Toda significação que elas possam
ter é mera projeção de fora, vinda dos setores politicamente
interessados. Só o que resta portanto é organizar uma "comunidade
interpretativa" e impor a sua leitura dos textos legais por meio da gritaria,
da chantagem, da intimidação. De um só golpe, a Justiça
inteira se transforma em instrumento de subversão revolucionária.
Para virar de cabeça para baixo a ordem pública, não é preciso
mudar as leis: basta inverter-lhes o sentido.
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Nos
EUA, o alucinógeno desconstrucionista chegou até à Suprema
Corte, transformando-a numa frente de combate contra a religião,
os valores americanos tradicionais e a própria Constituição.
Amparado em teóricos acadêmicos da reputação
de Ronald Dworkin e Stanley Fish, o juiz William Brennan,
ex-presidente da Suprema Corte, proclama abertamente que
tentar ater-se ao significado originário da Constituição é "falsa
humildade": o verdadeiro sentido do texto constitucional
tem de ser livremente inventado conforme as pressões
dos grupos abortistas, feministas, gays etc. É isso
o que o ex-vice-presidente Albert Gore entende por "Constituição
viva". A profundidade da subversão judicial nos
EUA já não pode ser medida. Um pequeno indício é que,
em plena guerra contra o terrorismo islâmico, crianças
de escola pública, em vários Estados, são
obrigadas a ouvir horas e horas de louvações à religião
muçulmana, sendo ao mesmo tempo proibidas de expressar
em voz alta sua fé cristã, sob pena de expulsão
ou de medidas policiais mais graves. É a guerra psicologia
ao contrário, movida não contra o inimigo mas
contra o próprio país, sob a proteção
da Suprema Corte. |