Todo mundo no
Brasil imagina que a CIA é uma espécie de KGB de
direita, um governo invisível dominando com mão
de ferro uma multidão inerme. No plano internacional,
uma vasta organização subterrânea empenhada
em fomentar golpes de Estado, assassinar intelectuais esquerdistas
e implantar por toda parte o império do capitalismo ianque.
Se essas fantasias imitam tão simetricamente o modelo da espionagem
soviética, é porque foi ela mesma que as criou à sua
própria imagem e semelhança, invertendo apenas o signo
ideológico da sua realidade macabra para formar o desenho de um
tipo de organização que, num país com eleições
e imprensa livre, jamais teria condições de existir. Esse
desenho foi espalhado pelo Ocidente através de toda uma imensa
subcultura editorial e cinematográfica produzida, sobretudo, entre
os anos 60-80.
Após a abertura dos Arquivos de Moscou, ninguém mais tem
o direito de ignorar, por exemplo, que o enredo conspiratório
do filme de Oliver Stone, "JFK", saiu direto dos escritórios
da KGB, nem que o ex-agente Philip Agee, badaladíssimo pela mídia
popular pelas denúncias escabrosas que fez contra a CIA no seu
livro Inside the Company: CIA Diary (1975), esteve sempre na folha de
pagamentos do serviço secreto soviético e hoje é um
agente full time do governo cubano. Mas não há país
do mundo em que esses fatos tenham sido suprimidos mais sistematicamente
da mídia do que o Brasil. Resultado: as balelas mais sonsas postas
em circulação por aquela subcultura tornaram-se, aí,
verdades de evangelho cuja contestação ainda soa, no mínimo, "polêmica",
isto quando não lança sobre o contestador a fama de psicótico...
ou de agente da CIA.
Para avaliar a distância
entre o imaginário brasileiro e os fatos, basta notar
que aqui nos EUA também circula uma multidão
de livros contra a CIA, mas que a maioria deles a acusa de
fazer exatamente o contrário do que os brasileiros imaginam
que ela faz. Nenhum americano razoavelmente culto ignora que
esse serviço de inteligência, há bastante
tempo, trabalha mais para grupos políticos - de esquerda
em geral - do que para o governo do seu país. Isso começou
na era Reagan. Ronald Reagan foi um grande presidente, mas
nas últimas semanas de mandato fez uma burrada monumental:
privatizou uma parcela importante dos serviços secretos.
Quem podia comprar comprou um pedaço e o pôs a
serviço de si próprio. A família Clinton,
por exemplo, tem lá seu feudo particular. Sem saber
dessas coisas, o público brasileiro entende às
avessas acontecimentos importantes como a falsa informação
sobre as armas de destruição em massa de Saddam
Hussein. O que aos olhos brasileiros pareceu uma desculpa maquiavélica
inventada por George W. Bush para legitimar a invasão
do Iraque (até hoje isso é repetido na mídia
nacional como obviedade de senso comum) foi na verdade uma
cama-de-gato armada para o presidente por gente desleal dentro
da CIA. Daí a limpeza geral que o governo está fazendo
nesse serviço de inteligência, trocando tipos
suspeitos por funcionários concursados.
Uma das melhores fontes para estudar o assunto são os artigos
de Jack Wheeler, filósofo que abdicou da carreira acadêmica
para levar uma vida de aventureiro, caçador de tigres e estudioso
de culturas primitivas, acabando por ser conhecido como "o Indiana
Jones da direita".
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Wheeler trabalhou na CIA por
algum tempo e não modera as palavras ao dizer o que
viu lá dentro: um panorama que vai da indolência
anárquica ao antipatriotismo militante de altos funcionários
empenhados em amarrar as mãos dos agentes por meio de
exigências "politicamente corretas" impossíveis
de cumprir, quando não em sonegar ao governo informações
vitais para a segurança do país. Wheeler me disse
que o empreendimento mais importante do governo Bush era justamente
a reforma dos serviços de inteligência, mas que
seus resultados seriam muito lentos, tamanhas as resistências
que encontrava entre os marajás remanescentes da era
Clinton.
Mesmo depois da conversa com Wheeler, porém, eu não imaginava
que essas resistências podiam chegar ao ponto do boicote sistemático
e da rebelião ostensiva. O que me abriu os olhos foi o livro de
Curt Weldon, Countdown to Terror ("Contagem Regressiva
para o Terror"), publicado há uns meses pela Regnery e a
mais importante dentre as obras sobre a CIA que entraram na lista de
bestsellers do New York Times.
O autor é um deputado pela Pensilvânia, reeleito consecutivamente
por vinte anos. Durante sua experiência como vice-presidente de
duas comissões parlamentares encarregadas de assuntos de segurança,
Weldon obteve informações confiáveis de um dissidente
iraniano sobre esquemas terroristas diretamente concebidos pelo governo
de Teerã. O principal era o plano de atirar aviões com
pilotos suicidas não sobre um simples prédio comercial
como no 11 de setembro, mas sobre o reator nuclear de Seabrook, Massachusetts,
ocasionando uma catástrofe do tipo e das dimensões de Chernobyl.
O informante dava também detalhes sobre a fabricação
da bomba atômica iraniana em íntima associação
com a Coréia do Norte - um projeto em estágio muito mais
avançado do que se imaginava no Ocidente --, descrevia a rede
de agentes iranianos infiltrados no Iraque para espalhar o terror e esmagar
no berço a democracia iraquiana, e resumia atas e mais atas do "Comitê dos
Nove", a entidade criada pelo governo do Irã para coordenar
a atividade terrorista em escala internacional. Dizia ainda que Osama
bin Laden se encontrava refugiado no Irã como hóspede de
honra e que entre os projetos terroristas em andamento estava o assassinato
do ex-presidente George H. W. Bush.
Mas a surpresa maior estava por vir. Quando tentou passar essas informações
para a CIA, Weldon se defrontou não só com uma barreira
de má-vontade e indolência, mas com uma hostilidade ativa
que tentava por todos os meios - inclusive a ameaça de coerção
física - bloquear o acesso ao informante e impedir que os dados
fornecidos por ele chegassem ao primeiro escalão do governo.
Isso continuou mesmo depois que a mais espetacular das revelações,
a do ataque a Seabrook, foi integralmente confirmada pela prisão,
pelo governo canadense, de um grupo de terroristas preparados para realizar
a operação - o que, segundo Weldon, não significa
que o plano tenha sido abandonado e não esteja sendo levado adiante
neste preciso momento, em algum outro lugar do mundo.
Weldon tentou por todos os meios articular os vários serviços
de inteligência para que fizessem a análise cruzada dos
dados, mas todos os seus esforços foram boicotados de maneira
tão ostensiva que ele desistiu de buscar a atenção
do governo e resolveu apelar diretamente ao povo americano, publicando
os relatórios do seu informante clandestino na esperança
de que a opinião pública pressione o governo para levar
a fundo a reforma do sistema de segurança.
" Este livro - escreve ele no prefácio - é um ato de desespero.
Trago-o à presença do leitor porque não consegui que a comunidade
de informações fizesse nada a respeito, embora minha fonte tenha
provado sua credibilidade e embora a informação que ela fornece
anuncie um ataque terrorista maior aos Estados Unidos."
Não é possível ler essas coisas e continuar não
enxergando o abismo de diferença entre a realidade da CIA e o
que se escreve a respeito dela na nossa mídia.
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