O marquês
de Sader diz que a esquerda é "responsável
pelos melhores momentos da história da humanidade".
Vou lhes dar um exemplo entre outros inumeráveis. Em
1974, os soldados americanos se retiraram do Vietnã,
deixando o campo livre para os comunistas, que então
promoveram a matança de três milhões de
civis vietnamitas e cambojanos, o mais hediondo episódio
de genocídio da segunda metade do século XX,
superando em mais de três vezes o total de mortos da
guerra. O resultado era mais que previsível, mas os
amorosos pacifistas que se esforçaram para torná-lo
realidade jamais foram cobrados na grande mídia pelo
crime imensurável que ajudaram a praticar. Alguns, como
Noam Chomsky, ainda fizeram o possível para ocultá-lo,
e por isso são honrados até hoje como exemplos
de honestidade intelectual.
Os
radicais democratas sabem perfeitamente que o Irã atualmente
já é o maior fornecedor de recrutas para
o terrorismo iraquiano.
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Outro belo momento, que poderá levar o marquês ao êxtase,
anuncia-se para breve no Iraque, caso os radicais de esquerda
do Partido Democrata americano, embriagados pela vitória
fácil na Câmara e no Senado, se deixem levar pelo
entusiasmo pacifista de John Murtha, Nanci Pelosi e outros
que tais.
É
difícil que isso chegue a acontecer, pois, quando tiveram
a chance de levar à prática a proposta de retirada
imediata que advogavam da boca para fora, os democratas recuaram
mais que depressa. Eles sabem perfeitamente que o Irã,
atualmente já o maior fornecedor de recrutas para o terrorismo
iraquiano, está pronto para ocupar o território
do país vizinho ou pelo menos para realizar ali uma matança
sem precedentes tão logo veja os soldados americanos pelas
costas. E uma coisa é falar mal do governo, outra é compartilhar
das responsabilidades de governo. Uma dessas responsabilidades,
que George W. Bush agora se sente aliviado de poder dividir com
seus críticos mais ferozes, é a de decidir o que
fazer com Kim Il-Jung. Mais provável e mais iminente do
que uma retirada do Iraque é um ataque à Coréia
do Norte. Neste momento, os EUA estão reforçando
suas tropas na Ásia e dando os retoques finais ao plano
de bombardear com mísseis Tomahawk as instalações
coreanas de processamento de plutônio em Yongbyon. Há outras
opções militares menos devastadoras, mas alguma
delas terá de ser levada à prática em breve,
a não ser na hipótese de que Kim vole atrás
nos seus planos já anunciados de atacar os EUA. Entre
os democratas, alguns esperam ou dizem esperar que ele seja induzido
a isso pelas pressões da Coréia do Sul e sobretudo
da China. Mas aí a coisa se complica espetacularmente,
porque, segundo o relatório em preparo pela U.S.-China
Economic Security Review Commission (Comissão de Revisão
da Segurança EUA-China), cuja versão oficial deverá ser
divulgada ainda este mês, a China, ao mesmo tempo que fingia
apoio aos EUA, ajudava secretamente o programa norte-coreano
de armas nucleares. O relatório baseia-se em informações
de testemunhas diretas. Partes do documento foram passadas ao
jornalista Bill Gertz por assessores parlamentares, de modo que
ninguém no Congresso pode verossimilmente alegar completa
ignorância a respeito. No tempo em que os democratas eram
apenas oposição, informações como
essa os ajudavam a espremer o pobre George W. Bush na parede,
obrigando-o a escolher entre o risco de ignorar a ameaça
e o de tomar sozinho uma decisão impopular. Agora, quem
está na parede são eles.
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Tropas americanas
patrulham ruas centrais de Bagdá, em dia de explosões
e violência. |
Esse é só um dos motivos por que, nos círculos
conservadores, ninguém está lamentando muito a
derrota republicana. É verdade que os jornalistas brasileiros
nem falam disso. Apanhar de petistas enragés não
há de tê-los tornado mais inteligentes, nem extinguido
em seus corações as afeições esquerdistas
que já se tornaram a sua segunda natureza. A esta altura,
eles estão comemorando a dupla vitória democrata
nos EUA como se fosse o começo do fim da "direita
religiosa", se não do abominável Império
americano inteiro.
Mas, se é verdade que o povo americano está mesmo
cansado da guerra no Iraque, nunca a política internacional,
sozinha, decidiu uma eleição nos EUA. Ninguém
duvida de que o Partido Republicano pagou pelos pecados de George
W. Bush, mas a rejeição nacional ao presidente
tem muito menos a ver com a guerra do que com as atitudes dele
com relação a gastos públicos, imigração
e legislação eleitoral - e, nessas três áreas,
ele não errou contra os democratas, e sim com o apoio
entusiástico deles. Deles e dos chamados Rinos (republicans
in name only, "republicanos só no nome"),
como John McCain e Lincoln Chafee.
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Ahmadinejad, presidente
do Irã: fornecimento de terroristas.
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O exemplo mais notório foi a lei de imigração.
Enquanto o país inteiro clamava por medidas drásticas
contra a imigração ilegal, o presidente tramava
com os rinos e os democratas um plano ridículo que não
só anistiava os invasores, mas lhes dava mais direitos
do que os imigrantes legais jamais tiveram. A proposta despertou
tanta revolta que os republicanos conservadores na Câmara
dos Deputados frustraram o esquema, trabalhando contra seu próprio
presidente e suprimindo da lei contra a imigração
ilegal o dispositivo de anistia. Isso foi em dezembro. Então
já havia conservadores chamando Bush abertamente de "traidor".
Bush complicou muito sua própria situação
quando deu apoio a uma nova legislação eleitoral
que limitava severamente a ação das ONGs não
partidárias. Ora, essas ONGs como por exemplo a National
Rifle Association, a American Family Foundation e sobretudo os
think tanks como a Heritage Foundation ou a Claremont Foundation,
são a principal força do movimento conservador
americano. É claro que os democratas, que nunca conseguiram
montar um think tank que funcionasse, adoraram a nova regra e
os conservadores viram nela uma traição explícita
de Bush à causa que professou defender.
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Kim Il-Jung:
o que fazer com ele?
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Mais motivo ainda para revolta
o presidente deu quando violou ao mesmo tempo duas leis sagradas
do conservadorismo, gastando
um dinheirão do governo para aumentar a interferência
estatal na educação infantil, com a ajuda, é claro,
dos democratas. A repugnância dos conservadores ao excesso
nos gastos públicos é tradicional, mas sua resistência à educação
estatal, que era apenas moderada, se transformou em ódio
ostensivo quando ficou claro que as escolas americanas estavam
se tornando centros de doutrinação politicamente
correta orientados... pela ONU.
O pior de tudo foi a súbita revelação dos
planos secretos do Council on Foreign Relations para dissolver
as fronteiras entre os EUA, o Canadá e o México,
praticamente eliminando a nação americana como
unidade política independente. A idéia já era
antiga, mas quando alguém levantou a lebre e um cidadão
apelou ao FOIA (Freedom of Information Act), obrigando o governo
a divulgar os documentos sobre o assunto, o que se descobriu
foi que Bush já estava formalmente comprometido com os
governos do Canadá e do México a realizar o plano.
O Partido Republicano, onde há tantos membros do CFR quando
no Democrata, não podia nem aprovar uma coisa dessas
nem romper abertamente com o presidente. Confuso e indeciso,
optou
por fazer-se de morto, o que era o mesmo que pedir aos eleitores
que o sepultassem.
Mas é claro que nem toda a justa irritação
dos conservadores contra Bush poderia transformá-los em
esquerdistas. O que eles fizeram foi o que havia de mais inteligente
a fazer: escolheram os mais conservadores entre os candidatos
democratas, e votaram neles. Deste modo, o sucesso do Partido
Democrata não foi nem uma vitória da esquerda nem
uma derrota do conservadorismo. Foi uma derrota de um presidente
ambiguamente "tucano" e de seus aliados rinos.
Entre os republicanos, o comentário geral é que
o partido tem de abandonar o bushismo e voltar à boa
e velha linha conservadora de Goldwater e Reagan, que Bush,
por
momentos, fingiu representar.
Uma
das responsa-bilidades das quais Bush agora se sente
aliviado de poder dividir com seus críticos
mais ferozes é
a de decidir o que fazer com Kim
Il-Jung.
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Quando
tiveram a chance de levar à prática
a proposta de retirada imediata do Iraque, que advogavam
da boca para fora, os democratas recuaram mais que
depressa.
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