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O
deputado Aldo Rebelo, cujo cargo de presidente da Câmara
custou quinhentos milhões de reais em favores distribuídos
pelo governo para elegê-lo, não parece ser pessoalmente
um corrupto nem um conspirador maquiavélico. Durante um
tempo cheguei a imaginar que fosse homem honesto. Hoje compreendo
que ele não pode ser
honesto nem desonesto, porque ambas essas condutas requerem um pouco
de imaginação. Ele é o inverso simétrico
do Super-Homem de Nietzsche: está aquém do bem
e do mal. Se pertence ao partido que aplaudiu o genocídio
empreendido por Mao
Tsé-tung, não é porque seja malvado, nem porque
consiga seriamente enxergar algum bem em tanta crueldade: é porque,
reunindo todas as forças intelectuais de que dispõe,
não chega a atinar com a diferença entre o número
de sessenta milhões de chineses assassinados pelo regime comunista
que ele tanto admira e o das três centenas de vítimas
da ditadura militar que ele tanto abomina.
Insensível às diferenças quantitativas, é natural
que o deputado Rebelo o seja mais ainda às qualitativas. A distinção
entre enaltecer a pátria e humilhá-la, por exemplo, lhe
escapa completamente. Ele é o autor de uma lei que, sob alegações
nacionalistas, proíbe a importação de palavras,
lei que, se fosse aplicada, produziria velozmente a redução
do vernáculo à condição de dialeto local
sem comunicação com o mundo. Vá ser patriota assim
lá na Bruzundanga.
Com idêntico espírito verde-amarelista propôs ele
a instituição do Dia do Saci, para oferecer uma alternativa
local ao Halloween, o Dia das Bruxas, que no seu entender foi introduzido
no Brasil como parte de um plano perverso de dominação
cultural. Quando conto isso aos americanos, eles nem riem. Engolem
em seco e, mediante esforços prodigiosos de autocontrole muscular,
imitam o melhor que podem uma expressão de respeitosa seriedade.
Fazem isso para não me humilhar, mas só conseguem é me
humilhar mais ainda. Eu preferiria que rissem logo da minha cara. Antes
ser alvo de gozação que de piedade.
O Congresso deveria instituir logo o Dia da Mula-Sem-Cabeça.
Só não faz isso para não parecer badalação
do presidente da República. Mas, após o Dia do Boto,
o Dia do Curupira, o Dia da Mãe d´Água e os dias
de várias outras criaturas inconcebíveis, virá quase
que infalivelmente o Dia do Aldo Rebelo, ou Dia da Curtura.
Um país precisa estar na última lona, na mais desesperadora
miséria espiritual, para apelar a uma brincadeira de crianças
como símbolo representativo da sua cultura, principalmente porque
brincadeiras de crianças são, por definição,
arremedos infantis de símbolos representativos. Nenhum menino
americano brincaria de caubói, de confederado, de fuzileiro
ou de paraquedista se não tivesse havido uma epopéia
da ocupação do Oeste, uma Guerra Civil e duas Guerras
Mundiais e se esses capítulos grandiosos e sangrentos da História
não tivessem se cristalizado em símbolos tradicionais
que a imaginação infantil só pode imitar de maneira
diminuída
e caricatural.
Com
idêntico espírito verde-amarelista propôs
Rebelo a instituição do Dia do Saci, para oferecer
uma alternativa local ao Halloween, o Dia das Bruxas.
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No
caso do Dia das Bruxas, a distância entre o símbolo
originário e a brincadeira é maior ainda, na medida em
esta não alude nem remotamente a valores tradicionais, mas,
ao contrário, resulta da diluição progressiva
com que a cultura se livrou de um contravalor que ela desprezava. O
Dia das Bruxas veio para a América de contrabando, trazido por
feiticeiras espalhadas entre os imigrantes irlandeses, e não
era era sequer representativo dessa nacionalidade minoritária,
acentuadamente católica: era o vício sintomático
de uma minoria dentro da minoria. Tão deslocado estava no
novo meio
social, que logo perdeu a virulência da intenção
originária, tornando-se brincadeira de crianças. Era
uma celebração satanista, virou folclore infantil. Só é um
símbolo cultural americano no sentido em que uma marca de vacina é um
monumento à varíola, ou no sentido em que a "Farra
do Boi", pela analogia remota com a malhação do
Judas, é um ritual cristão. É nesse mesmíssimo
sentido que o deputado Rebelo é um patriota. Acreditando enaltecer
a cultura nacional, ele a avilta e a espezinha pela escala diminutiva
em que a concebe, proporcional à visão mesquinhamente
pueril que tem da cultura vizinha. Direi então que o deputado
Rebelo é uma diluição, uma caricatura de patriota?
Não. Diluição, caricatura, era Policarpo Quaresma,
o homem cheio de boas intenções imaginárias, traduzidas
no mundo real como propostas nacionalistas irrealizáveis, inúteis
e sem sentido. Mas Policarpo tinha ainda algum fundamento na realidade,
na medida em que seu conhecimento de história do Brasil e das
línguas indígenas era genuíno. O deputado Rebelo
não tem nem isso. Ele só é um patriota no sentido
duplamente indireto em que a caricatura de uma caricatura, a imitação
da imitação, o postiço do postiço, a diluição
da diluição, pode ter ainda alguma ligação
com o objeto originário. Mas por isso mesmo ele é representativo
daquilo que, no Brasil de hoje, se chama de cultura nacional - o culto
de bonecos de papelão improvisados ao sabor de um oportunismo
publicitário sufocante. A imagem completa de um país
espiritualmente morto. |