Amigos que muito
respeito pedem-me às vezes que escreva algo sobre pobreza,
desigualdade social ou coisa assim. Sendo esse o assunto mais
mexido e remexido em campanhas eleitorais, discursos parlamentares,
teses universitárias, editoriais sapientíssimos,
debates de botequim e congressos internacionais de especialistas
em tudo, sinto-me naturalmente inibido de entrar numa conversa
na qual praticamente todos os membros da espécie humana,
por direito de nascimento, se sentem convidados a opinar e
na qual, pela insuperável limitação de
tempo decorrente da afluência universal ao microfone,
cada um só pode desfrutar do seu direito de falar quando
exerce com ainda mais tenacidade o direito de não ouvir.
Por isso mesmo tenho acreditado que a minha maior contribuição
ao melhoramento da condição social dos desfavorecidos
seria uma espartana abstinência de opiniões. Isso
não quer dizer que não pensasse no assunto. Pensava
nele, sim, mas sem nenhuma esperança de chegar a diagnósticos
gerais ou propor terapêuticas. Movido por aquela prudência
quase obsessiva que nasce da ignorância consciente, julguei
que antes de me alçar a tão altos vôos seria
recomendável coletar um certo número de observações
básicas fáceis de confirmar, mas suficientemente
amplas, na generalidade do seu alcance, para ter alguma utilidade
em futuras especulações mais ambiciosas. Em compensação
da penúria de opiniões e propostas, não
me esquivo de maneira alguma a fornecer aos interessados uma
lista dessas constatações:
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Hesíodo
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1 Até onde
alcança a visão do historiador,
a pobreza e a desigualdade são as condições
mais gerais e permanentes do ser humano na Terra. Não
são de maneira alguma anomalias observadas, aqui e ali,
sobre um fundo universal de prosperidade e igualdade. Também
não são mutações sobrevindas após
uma etapa historicamente registrada de riqueza geral e justa
distribuição. O comunismo primitivo é uma
conjeturação mítica exatamente como a
Idade de Ouro de Hesíodo.
2 Em
nenhuma etapa histórica anterior ao século
XVIII europeu observa-se um estado de espírito marcado
pela revolta geral, radical e crescente contra a desigualdade
social em qualquer das suas formas. Essa revolta, partindo da
França, veio junto com a crença na possibilidade
de uma sociedade inteiramente planejada por uma elite de revolucionários
iluminados.
3 idéia da sociedade planejada sofreu muitas modificações
desde então, mas toda tentativa de realizá-la produziu
níveis de miséria e desigualdade social nunca imaginados
pelas gerações anteriores. O mais radical desses
experimentos, o "Grande Salto para a Frente" da China
revolucionária, matou de fome trinta milhões de
pessoas em uma década - por certo o mais notável
desastre econômico de todos os tempos, só comparável
a devastações produzidas por catástrofes
naturais. Na Rússia soviética, após sete
décadas de comunismo, o cidadão médio consumia
menos proteínas do que um súdito do tzar, e tinha
menos meios de adquirir um automóvel do que um negro da África
do Sul sob apartheid.
4 Só povos
que se atiraram de cabeça na aventura
capitalista conseguiram elevar significativamente o padrão
de vida de suas populações, mas em muitos países
a prosperidade veio junto com um crescimento ainda maior do
aparato burocrático-estatal, resultando naquela mistura
de capitalismo e socialismo que leva o nome genérico
de "fascismo",
um regime que deságua quase que naturalmente na autodestruição
por meio da guerra.
5 Embora
desde o século XVIII as esperanças de
uma vida melhor para os pobres viessem associadas à expectativa
de uma ampliação geral dos direitos civis e políticos,
em muitos países esses dois objetivos entraram em conflito,
ora sacrificando-se a liberdade em nome da igualdade, ora esta
em nome daquela.
6 Somente
um país conseguiu manter-se numa linha de desenvolvimento
econômico constante e progressiva eliminação
da pobreza sem sacrifício considerável das liberdades
individuais: os Estados Unidos da América. Coincidência
ou não, esse foi o país em que a doutrina da
sociedade planejada foi recebida com maior frieza e hostilidade,
só alcançando
alguma aceitação nos períodos de atividade
militar intensa (presidências de Woodrow Wilson, Franklin
D. Roosevelt e Lyndon B. Johnson).
7 Desde
a época de Johnson, no entanto, a tendência
ao controle estatal crescente e à restrição
das liberdades nos EUA tem aumentado perigosamente nas últimas
décadas, com ou sem atividade guerreira concomitante.
Essa tendência vem associada a projetos de uma Nova
Ordem global, fortemente apoiada por uma elite de metacapitalistas
(a explicação do termo encontra-se em http://www.olavodecarvalho.org/semana/040617jt.htm),
que, para realizar sua ambição
de uma sociedade planejada global, já se mostraram
dispostos a sacrificar parcelas importantes da própria
soberania nacional americana. (O conflito mortal entre globalismo
e interesse
nacional americano, o fato capital da nossa época, é totalmente
desconhecido do público brasileiro, graças à ignorância
maciça - não raro voluntária - da classe
jornalística e daquela raça de macacos, mistos
de papagaios, com cérebros de jumento e almas de víbora,
que a si próprios se denominam "intelectuais".
Há muitos livros a respeito, mas a fonte mais acessível é o
site de Henry Lamb, http://www.sovereignty.net , que abrirá para
o leitor uma infinidade de outras fontes.)
A
pobreza e a desigualdade são as condições
mais gerais e permanentes do ser humano na Terra. Não
são de maneira alguma anomalias (...)
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8 Hoje
em dia, a promessa de eliminação radical
da miséria e da desigualdade social no mundo, repetida
ao ponto de disseminar por toda parte uma explosiva impaciência
com a continuidade desses males, é alardeada principalmente
pelos centros de difusão do projeto globalista, cujo
porta-voz mais notório é a ONU. Dessa mesma origem
provêm
inúmeros outros projetos associados, como o da uniformização
mundial dos padrões educacionais, o de um controle ecológico
global o de uma fusão administrativa de todas as religiões
numa espécie de gerência espiritual do planeta.
Não pretendo opinar sobre os planos econômicos
da ONU e demais entidades associadas, que não estudei
a fundo, mas tenho a certeza de que não estão
desligados dos projetos nas áreas de educação,
ecologia e religião, já que, se me permitem,
o globalismo é global,
isto é, holístico, uma visão unificada
construída
ao longo de meio século e não uma colcha de retalhos
improvisada. Tal como no século XVIII, a utopia do progresso
igualitário vem hoje no bojo de um projeto civilizacional
integral, a ser realizado por meio do planejamento centralizado.
A diferença é que os philosophes se tornaram
burocratas, têm poder decisório, recursos financeiros
ilimitados e escala de ação global.
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L.B.Johnson
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9 Um
breve exame do Index of Economic Freedom, aqui citado na
semana retrasada, basta para mostrar que os níveis máximos
de miséria e desigualdade social coincidem com os locais
de maior interferência estatal e economia planejada. O
argumento em favor da economia planejada global é que
os planejamentos falharam porque adotados em escala nacional,
defrontando-se ao mesmo tempo com dificuldades que transcendiam
as fronteiras das nações. Basta portanto universalizá-los
e tudo correrá às mil maravilhas. 10 O
programa globalista não é a mesma coisa que
a expansão mundial do capitalismo, um processo historicamente
espontâneo no qual ele toma carona parasitária,
tal como aconteceu em escala nacional em vários países,
onde o crescimento do capitalismo teve como efeito colateral
a ascensão dos metacapitalistas e a proliferação
dos seus aliados naturais, os burocratas e os intelectuais ativistas.
Nesse sentido, a profecia de Karl Marx de que o capitalismo geraria
os seus próprios coveiros se revelou acertada, com a ressalva
de que esse papel não coube nem poderia caber aos proletários,
mas à parcela mais ambiciosa politicamente da própria
classe capitalista e aos "intelectuais" (no sentido
gramsciano e ampliado do termo). Esta ressalva, por sua vez,
foi diagnosticada e expressa em tempo hábil pelos socialistas
fabianos - especialmente Bernard Shaw -, não sendo, pois,
de espantar que o fabianismo tenha se tornado, formal ou informalmente,
a ideologia dominante das elites burocráticas globalistas.
A tensão aparentemente insolúvel entre expansão
do capitalismo e centralização burocrática
mundial lateja no fundo do conflito, acima mencionado, entre
os EUA e os organismos globais.
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ONU: promessa
de eliminação
da miséria
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11 Exatamente
como as propostas globalistas em educação,
ecologia e cultura religiosa - cujas fontes analisarei em outro
artigo --, a promessa de eliminação mundial da
pobreza é uma parte integrante de um discurso ideológico
globalista, e a ela não corresponde nenhum mecanismo prático
de realização exceto aqueles já desencadeados
espontaneamente - e anteriormente -- pela expansão planetária
do capitalismo, à qual o globalismo só vem a acrescentar,
em última análise, um elemento parasitário:
os custos crescentes de uma burocracia planetária
cada vez mais intromedida, paralisante e contraproducente.
12 A
luta contra a pobreza e a desigualdade social encontra-se
hoje no seu ponto de máxima tensão. De um lado,
a revolta radical contra esses males milenares se incorporou
de tal modo à mentalidade coletiva, que por toda parte
se espalhou a expectativa insana de soluções globais
a prazo relativamente curto. De outro lado, essa mesma expectativa
alimenta o crescimento da burocracia planetária que suga
e desvia para seus próprios objetivos políticos
os frutos da expansão mundial do capitalismo, retardando
a distribuição dos seus benefícios a bilhões
de seres humanos necessitados.
O
capita-lismo é uma força de expansão,
o globalismo uma força de contração.
Equivalem, no simbolismo alquímico, ao mercúrio
e ao enxofre.
O
Brasil é uma folha levada na tempestade, incapaz
de controlar o seu destino e até de compreendê-lo,
graças à inépcia geral dos 'intelectuais'.
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13 O
Brasil, nesse panorama, é uma folha levada na tempestade,
incapaz não só de controlar o seu destino mas até mesmo
de compreendê-lo, graças à inépcia
geral dos "intelectuais" nacionais, que estão
entre os mais despreparados, levianos e pretensiosos do mundo.
Assim descrito o quadro, na medida das minhas possibilidades,
e ressalvada qualquer imprecisão devida à pressa
da redação jornalística, permito-me agora
emitir uma opinião. Como qualquer outro ser humano, eu
desejaria uma vida melhor para todos, mas, ao contrário
da maioria deles, não acredito que se deva esperar algum
progresso substancial na busca desse objetivo ao longo das próximas
décadas, apesar de todas as conquistas da técnica
agrícola e industrial. A tensão entre capitalismo
e globalismo não resultará necessariamente em tragédia
global, mas é quase impossível que ela não
desemboque mais cedo ou mais tarde em agressões militares
de conseqüências incalculáveis. O capitalismo é uma
força de expansão, o globalismo uma força
de contração. Equivalem, no simbolismo alquímico,
ao mercúrio e ao enxofre. A produção da
resultante - alquimicamente, o sal - é um processo infinitamente
delicado, sutil e complexo, mais sujeito ao acaso e à providência
divina do que ao arbítrio humano. A atenção
devota, a paciência, a prudência e a busca constante
da compreensão do processo são aí incomparavelmente
mais úteis e necessárias do que os programas e
as palavras-de-ordem. Mais úteis ainda para aqueles países
que, sem ter voz ativa no processo, não podem contar senão
com a esperança de uma adaptação vantajosa às
circunstâncias de cada momento. Infelizmente, é precisamente
nesses países que prolifera de maneira mais incontrolável
a raça dos "intelectuais" amantes de slogans
e palavras-de-ordem. |