Reagindo com
fúria burlesca ao meu artigo da semana retrasada, o
general Andrade Nery, por extenso Durval Antunes Machado Pereira
de Andrade Nery, vice-presidente da Associação
dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, está fazendo
circular pela internet uma nota repleta de solecismos, na qual
me chama de "pseudojornalista dissimulado, entreguista,
antipatriota, peitado, defensor intransigente de uma política
globalizante que prioriza uma só nação
dando-lhe o direito de explorar todos os povos" (sic).
Eu não solicitaria a atenção do leitor para
semelhante estupidez se esta fosse apenas um insulto pessoal
e não, como de fato é, um sintoma elucidativo daquilo
mesmo que denunciei no meu artigo: o esforço maciço
de traidores e usurpadores para colocar as nossas Forças
Armadas a serviço de tudo o que elas combateram no passado.
Pela sua posição na Adesg, Andrade Nery está bem
equipado para dar uma substantiva contribuição
a esse esforço, e é só isto o que torna
as suas palavras dignas de exame.
O teor mesmo das imputações é tão
ridículo, tão inverso ao conteúdo expresso
de tudo o que escrevi, disse e fiz ao longo da minha carreira
jornalística, que nenhuma dificuldade séria impedirá o
leitor de perceber, à primeira vista, que o general não
tem a menor idéia do que está dizendo: é apenas
um papagaio de bordel a repetir mecanicamente coisas feias que
ouviu de prostitutas. Com efeito, o encanecido oficial, nos intervalos
furtivos do seu convívio perfeitamente respeitável
com velhos companheiros de farda, freqüenta o círculo
de redatores da Hora do Povo, aquela publicação
eminentemente fecal que, no centenário de Stalin, celebrou
o ogro genocida como "o maior democrata da humanidade" (sic),
e cuja misteriosa sobrevivência com tão poucos leitores
e anúncios só veio a ser cabalmente explicada mediante
a revelação das propinas que, por conta do tristemente
célebre projeto "oil for food", recebera de
Saddam Hussein. Nas horas sombrias em que o peso da dignidade
castrense se torna excessivo e os instintos
baixos da mendacidade atávica clamam por soltar
a franga, é nesse submundo mental que o general Nery busca
alívio e reconforto, não só intoxicando-se
daquela droga impressa, mas ajudando a produzi-la sob a forma
de invencionices convenientemente anti-americanas, bem ao gosto
de seus camaradas de farra ideológica, publicadas em confraternização
promíscua com as de outras macacas de auditório
de Mao Tsé-tung, Fidel Castro e Pol-Pot.
O que se ouve num ambiente desses não se repete em casa.
Deposita-se discretamente na privada do esquecimento. A não
ser, é claro, quando se tem a vocação incoercível
da papagaiada. Aí o que o sujeito faz é empoleirar-se
na janela do prostíbulo e repetir o discurso inteiro que
ouviu lá dentro, surpreendendo-se de que os transeuntes
distraídos não parem para aplaudi-lo.
O que o general Nery escreveu de mim só fica bem no recinto
fechado da redação da Hora do Povo. Fora daí,
alardeado para o mundo, a céu aberto, é uma gafe
medonha, um vexame colossal, além de delito previsto nas
leis penais do país.
O general chama-me de todos aqueles nomes para dar a impressão
de ser um tribuno indignado, erguido em defesa de uma nobre instituição,
a Escola Superior de Guerra, que teria sido atacada por mim.
Bela comédia. Na verdade, eu nada disse contra a ESG,
mas tudo contra o estado atual em que se encontra. Nada contra
a instituição, tudo contra os que hoje se servem
dela para finalidades opostas às suas metas originárias.
Defender esses farsantes e usurpadores não é defender
a instituição: é aviltá-la, é cuspir
na sua história, fingindo-se de seu advogado. Atacá-los
não é falar mal dela: é honrar os que a
criaram, é dar voz aos mortos que já não
podem se defender. Tal a diferença entre o empreendimento
do general Nery e o meu.
Pseudo-jor-nalista
dissimulado, entreguista, antipatriota, peitado" -
do general Andrade Nery sobre o colunista Olavo de Carvalho.
|
A ESG de hoje não é mais a de ontem. Mas não é a
sua continuação, o fruto de uma evolução
normal. É a sua negação, o seu oposto simétrico.
Não há conciliação entre elas. Quem
ama a primeira, odeia a segunda, e vice-versa. O próprio
general Nery fornece a prova dessa transformação.
Leiam o seguinte parágrafo (transcrevo sem correções):
"
Assim foram encomendados (à ESG) planos de governo na área
energética, planos para melhoria das comunicações
- o que à época era um caos, pois se demorava quatro
dias para falar do Rio de Janeiro para Manaus - domínio
da energia nuclear, tecnologia para agroindústria, tecnologia
de ponta na área de engenharia. desta forma, nasceram
a Usina de Tucuruí, Itaipu, ampliação da
Usina de Paulo Afonso, Furnas, a Usina Nuclear de Angra dos Reis,
Embrapa, ITA, Embraer, bem como o desenvolvimento dos motores
a álcool, plano hoje oferecido a Cuba para solução
de suas carências, face ao atual valor do petróleo,
e o embargo pelos Estados Unidos da América."
Tudo o que ele diz aí é verdade. A ESG realizou
grandes trabalhos para o país. Só que todos eles
- com exceção do último, e já veremos
por quê - foram realizados entre a fundação
da Escola e o fim do chamado "governo militar", em
1988. Nesse período, a instituição, com
sua "doutrina da segurança nacional", servia
ao Brasil e aos valores tradicionais da civilização
cristã que nortearam a construção do país.
Ela era o centro intelectual da defesa da nacionalidade - e da
segurança continental - contra a ameaça comunista
vinda de Cuba. Por isso os comunistas a odiavam, tanto quanto
hoje odeiam a mim, e falavam dela nos mesmos termos que o general
agora usa contra mim. Consideravam-na o templo do entreguismo,
chamavam-na de vendida ao imperialismo ianque, de servidora da
exploração internacional. Nesse tempo, a ESG recebeu
vultosas tarefas do governo e se desincumbiu delas com eficiência
e patriotismo inigualáveis. Não é estranho
que tantas coisas boas para o país fossem feitas por uma
instituição acusada de trabalhar a serviço
de interesses estrangeiros, como representante local de uma concepção
de segurança continental "imposta por Wall Street"?
O general não faz idéia de quanto me honra ao macaquear,
contra mim, o discurso com que os inimigos do Brasil tentaram
enlamear a imagem da instituição que hoje ele
finge servir para melhor servir-se dela.
Não por coincidência, de todas as realizações
da ESG que constam da sua lista, só uma corresponde ao
período atual, à chamada redemocratização
ou Nova República: trata-se de um plano para o desenvolvimento
de motores a álcool, já antigo, mas agora - surprise!
- "oferecido a Cuba para solução de suas carências,
face ao atual valor do petróleo, e o embargo pelos Estados
Unidos da América". Não liguem para a regência
preposicional capenga. O homenzinho apenas exerce seu direito
ao analfabetismo funcional. O que importa é a informação:
o apologista da nova ESG não tem a alegar em favor dela
senão o que a velha ESG fez pelo do Brasil e o que ela,
agora, faz em benefício de Cuba. Para ele, já se
vê, as duas coisas são igualmente patrióticas.
Tanto faz defender o Brasil contra uma ditadura estrangeira que
financiava a subversão armada no nosso território,
nas décadas de 60-70, ou ajudar essa ditadura a fazer
exatamente o mesmo, agora. Com um agravante formidável:
comparadas aos feitos das FARC, as guerrilhas dos anos 70 eram
uma escaramuça de moleques; ao lado do Foro de São
Paulo, a velha OLAS de Fidel Castro (Organización Latino-Americana
de Solidariedad) era um clube de futebol de botão. Se
naquela época a ESG serviu como um poderoso cimento para
dar solidez à "grande barreira" erguida contra
as ambições cubanas, muito mais obrigação
teria de fazê-lo hoje, em vez de dar força a uma
ditadura que subsidiou e orientou a matança de tantos
soldados brasileiros.
O
general não faz idéia de quanto me honra
ao macaquear, contra mim, o discurso dos inimigos do
Brasil" - reage Olavo de Carvalho.
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Fazer de conta que a ESG não mudou, que dá na mesma
servir ao Brasil ou a Cuba, é uma fraude tão manifesta,
tão despudorada, que só por endossá-la o
general já faria jus ao estatuto de inimigo da pátria,
de traidor das Forças Armadas, de agente de influência
a serviço - gratuito ou remunerado, pouco importa - daquilo
que existe de pior no mundo. E sua atuação na ESG é a
prova mais evidente de que a entidade, para dizer o mínimo,
traiu a si própria e hoje se empenha em cortejar seus
inimigos de ontem.
Saber como se deu essa transformação é outro
problema. Não freqüento a Escola, só observo
suas manifestações exteriores, assustando-me com
o espaço cada vez maior ali concedido a agentes de influência
dedicados a fazer das Forças Armadas brasileiras um instrumento
do comunismo internacional. Quando, alguns anos atrás,
o sr. Márcio Moreira Alves chegou a ser cogitado para
reitor civil da instituição, a mudança que
ela sofrera ao longo dos anos se tornou visível demais
para ser ignorada. O sr. Moreira Alves, pouco antes, tinha voltado
de uma viagem à Amazônia, entusiasmado com a transformação
ideológica das nossas tropas de fronteira, que, dizia
ele, varavam noites estudando as obras de Ho Chi Mihn e sonhando
com uma guerra na selva... contra os narcotraficantes? Não.
Contra os guerrilheiros das Farc, que entravam e saíam
do nosso território como se fosse sua própria casa?
Não. Sonhavam com uma guerra contra os marines americanos.
Era esse o mesmo Exército das décadas de 60 e 70?
Quantos soldados brasileiros a Marinha americana havia matado,
para que nossos jovens oficiais a odiassem tanto? Que extraordinários
benefícios o Brasil havia recebido do movimento comunista
internacional, para que nossas tropas se oferecessem para morrer
a serviço dele?
Não acompanhei a transformação da ESG capítulo
por capítulo, mas observei que, tão logo veio abaixo
a ditadura soviética, intelectuais iluminados, civis e
militares, se aproveitaram da impressão do momento para
proclamar que o movimento comunista internacional já não
era problema e que nosso inimigo potencial, daí por
diante, eram os EUA.
Como prova disso, alegavam a presença constante de ONGs
americanas na Amazônia e, naturalmente, a expansão
do "imperialismo americano" através do Plano
Colômbia e atividades similares.
A falsidade desse diagnóstico saltava aos olhos de quem
quer que conhecesse algo do movimento comunista. Desde logo,
a extinção da URSS não foi acompanhada de
nenhuma modificação substancial na velha KGB, que
só mudou de nome mas nem sofreu cortes no seu orçamento,
nem foi expurgada de seus velhos quadros comunistas, nem teve
alteradas as suas funções tradicionais. Falar em "fim
do comunismo", nessas circunstâncias, era tão
ridículo quanto teria sido proclamar a extinção
do nazismo se, morto o Führer, a Gestapo continuasse
a funcionar sem ser incomodada.
Desde o começo dos anos 90, era previsível a qualquer
momento a revivescência do comunismo sob outro nome qualquer.
Quando a IV Assembléia do Foro de São Paulo proclamou
seu objetivo de "reconquistar na América Latina tudo
o que perdemos no Leste Europeu", ignorar esse perigo trornou-se
cegueira suicida. Hoje, quando o poder no continente está nas
mãos dos Chávez, os Evos Morales, dos Kirchners
e dos Lulas, continuar a ignorá-lo é cumplicidade
criminosa. Mas, na ESG, os Andrades Nerys estão preocupados é com
o "avanço do imperialismo americano".
Ora, só um observador perverso e mal intencionado, ou
ainda mais burro do que o próprio Andrade Nery jamais
conseguiria ser, não percebe que as entidades americanas
que interferem na Amazônia, como por exemplo o Conselho
Mundial das Igrejas, a Fundação Rockefeller e agentes
de George Soros, não representam de maneira alguma os
interesses nacionais dos EUA, mas, ao contrário, estão
profundamente associadas ao movimento esquerdista e anti-americano
que se esforça para quebrar a espinha do poder nacional
americano e transferir a soberania do país para organismos
in-ternacionais. Não há ninguém que ignore
isso nos EUA - mas, graças a onipresença de agentes
de influência na mídia nacional e em entidades como
a ESG, essa informação ainda não chegou
ao Brasil. Claro: é preciso ocultá-la a qualquer
preço, pois ela modifica radicalmente a visão do
quadro estratégico internacional e dilui perigosamente
o empenho de juntar forças no mundo inteiro para um ataque
multilateral aos EUA - empenho apoiado pelas mesmas organizações
que os intelectuais iluminados descrevem como pontas-de-lança
do "imperialismo ianque".
Quanto ao Plano Colômbia, obra de um presidente cujas conexões
ideológicas não escapam nem a velhinhos com Alzheimer
desde que ele se elegeu com a ajuda do governo da China e depois
se tornou protetor da espionagem chinesa em Los Alamos, o seu único
efeito, previsível demais para ser coincidência,
foi desarmantelar os velhos cartéis e transferir todo
o seu poder às Farc. Se isso é imperialismo
americano, eu sou o Andrade Nery em pessoa.
Dentro dos EUA, até as crianças de escola sabem
que há uma briga de foice entre o nacionalismo americano,
tradicionalista e conservador, e o esquema globalista associado às
fundações bilionárias, à intelectualidade
enragée, ao movimento neocomunista e aos organismos administrativos
internacionais. Juntar tudo no mesmo saco e catalogá-lo
sob o rótulo geral de "imperialismo americano" só é possível
no Terceiro Mundo, onde a população ignora tudo
da política interna americana e pode ser facilmente ludibriada
para desviar seu ressentimento das verdadeiras centrais globalistas
e despejá-lo sobre os EUA. Patifes como Andrade Nery não
fazem outra coisa na vida senão colaborar com esse gigantesco
esquema de desinformação, no qual se depositam
as mais altas esperanças de "reconquistar na América
Latina o que perdemos no Leste Europeu". Se para isso tentam
parasitar as glórias da velha ESG, é porque sabem
que só por meio do engodo podem manipular as Forças
Armadas, transformando a "grande barreira" no "grande
rombo" por onde a tropa inteira dos tradicionais inimigos
do Brasil vem entrando para galgar todos os altos postos e cobrir-se
de glórias usurpadas.
Durante anos fui, na grande mídia brasileira, o único
jornalista empenhado em defender as Forças Armadas contra
o bombardeio de calúnias, sabendo que este, no fundo,
vinha das mesmas fontes da "nova doutrina estratégica" que
ia ganhando terreno na ESG e por toda parte. Por ter assumido
essa posição, sofri toda sorte de ataques e boicotes,
recebi inumeráveis ameaças de morte, vi minha família
ser difamada e perdi três empregos. Recebi duas condecorações,
uma do Exército, outra da Aeronáutica. Senti que
compensavam tudo aquilo. Não tenho estômago para
assistir a esse espetáculo grotesco de um agente de influência
comunista posar de advogado da honra militar enquanto eu faço
o papel do malvadinho, do inimigo, do bandido. É absurdo
demais, é insano demais. É o mundo de Pirandello,
de Kafka, de Ionesco, o mundo da Rainha de Copas. É a
realidade transformando-se em sátira de si mesma. Um engenheiro
do rombo falando em nome da "grande barreira"! Valha-me
Deus! Até que ponto este país vai consentir
em deleitar-se no fingimento, na farsa, na burla geral? 
PS
- No terceiro
parágrafo deste artigo, o leitor não
deve enxergar nenhuma insinuação maldosa contra
as prostitutas, essas boas moças que tanto alegraram
a nossa juventude. Como diria o eminente Agamenon Mendes Pedreira,
o jornalista mais sério do Globo, a única coisa
em comum entre elas e os Andrades Nerys é que mudam
de posição a pedido do freguês.
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