Até o
começo dos anos 90 ainda era possível acreditar, honestamente,
que a Nova Ordem Mundial que se formava ante os olhos de todos após
a queda da URSS era, em essência, a mundialização
do poder americano, a realização dos sonhos mais ambiciosos
dos imperialistas do Norte.
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Todas as aparências indicavam isso, e estudiosos tão isentos
de viés esquerdista como o Pe. Michel Schooyans e o historiador
espanhol Ricardo de La Cierva afirmavam categoricamente que a ONU,
governo mundial em germe, não era senão a expressão
e instrumento do Estado americano ampliado à escala global.
Hoje, quem quer que continue acreditando nisso, depois de tudo o
que aconteceu nessa década e meia e com todas as informações
que se tornaram acessíveis a respeito, é um autêntico
homem de Neanderthal, se não for seu antepassado mais próximo,
o dr. Emir Sader em pessoa.
Na visão dessas criaturas primevas, a Nova Ordem Mundial é o
bom e velho imperialismo americano que, mal camuflado, estende suas
asas sobre o globo terrestre, pondo em risco a soberania das nações
pobres, cuja esperança então se volta para os poucos
núcleos de resistência espalhados pelo mundo, como Cuba,
a Coréia do Norte e os terroristas islâmicos, bravos pigmeus
em luta contra o gigante, à imagem e semelhança da Princesa
Léa e Luke Skywalker enfrentando aos trancos e barrancos as
tropas imperiais sob o comando de Darth Vader (não inventei
a comparação; ela já se tornou um lugar-comum
do imaginário esquerdista).
Hoje em dia, o material disponível com as provas cabais de que
não é nada disso é tão vasto, tão
abundante e tão consistente, que a única desculpa razoável
que alguém pode apresentar para continuar apegado a essa idéia é ser
pessoalmente o dr. Emir Sader e nada poder fazer contra tão
cruel destino. Todos os demais são culpados de negligência
proposital.
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| Luke Skywalker contra Darth Vader, face do
imperialismo |
Digo isso com a ressalva de que, as
informações pertinentes
sendo talvez menos acessíveis no Brasil do que em qualquer outro
lugar do mundo com exceção dos países islâmicos
e comunistas, a ignorância geral dos fatos explica a subsistência
residual, neste país, de lendas e estereótipos já desmoralizados
pelo tempo e em toda parte. Mas mesmo ignorantes profissionais
não podem ter deixado de
notar, nos últimos anos, o conflito aberto entre a ONU e os
EUA, seguido de uma explosão mundial de anti-americanismo, cujas
manifestações nas ruas e na mídia, simultâneas,
súbitas e organizadíssimas, não poderiam ter surgido
do nada, sem longa e dispendiosíssima preparação
secreta. De repente, os pobres e esfarrapados tinham a seu serviço
o New York Times, o Washington Post, a CBS, a CNN e praticamente todo
o restante da grande mídia internacional (a brasileira, então,
nem se fala), enquanto os ricaços imperalistas mal conseguiam
uma entrevistinha na Fox, uns minutos no programa de rádio do
Rush Limbaugh, sem a menor repercussão fora dos EUA, e dois
parágrafos em sua defesa na coluna da Mary O'Grady no Wall Street
Journal. A desproporção contrastava tão dramaticamente
com a visão convencional dos coitadinhos em luta contra as forças
tentaculares do império financeiro intergalático, que
parecia mesmo a coluna do dr. Emir, "O Mundo pelo Avesso".
Para quem ainda tivesse alguma dúvida, bastava, para eliminá-la,
olhar a lista dos financiadores da gritaria anti-americana, entre os
quais brilhavam, junto com George Soros, as fundações
Ford e Rockefeller e outras fortunas do mesmo porte. Depois disso,
só mesmo o cérebro geneticamente lesado dos apreciadores
daquela coluna poderia, imune ao gritante paradoxo, continuar acreditando
piamente na identidade de americanismo e globalismo. Nem falo dos discípulos
do sr. Lyndon La Rouche, os quais, admitindo o paradoxo, tentavam explicá-lo
como rebuscado truque do maquiavelismo ianque, como se rebuscada não
fosse antes essa explicação e como se atrair todos contra
si fosse astúcia digna do governo americano e não, mais
apropriadamente, do saudoso Chapolín Colorado.
Não obstante, a afirmação absoluta dessa identidade é não
apenas a crença unânime do esquerdismo local, para o qual
ela tem ao menos a utilidade de fomentar o ódio ao seu inimigo
tradicional, mas é também o fundamento de uma "nova
doutrina militar brasileira" que vem se esboçando desde
os anos 90, firmemente empenhada em criar, com base em informação
deficiente, uma estratégia desastrosa que arrisca fazer das
Forças Armadas brasileiras, amanhã ou depois, o instrumento
seril da revolução continental, seja como aliadas da
esquerda lulo-chavista que tanto as difamou e humilhou ao longo das
décadas, seja, na melhor das hipóteses, como suas concorrentes
na liderança do anti-americanismo nacional.
Essa visão das coisas não expressa nenhuma realidade
objetiva; expressa apenas, indiretamente, o estado de total alienação
da elite falante brasileira, separada do mundo por um muro de fantasias
obsessivas e complexos incapacitantes, agravados por uma indolência
intelectual verdadeiramente criminosa e pela compulsão irresistível
de complicar ainda mais as coisas tentando mostrar boniteza em vez
de exercer a única virtude que, numa hora dessas, poderia
ser salvadora: a sinceridade.
Não
inventei a comparação, ela já se tornou
lugar-comum do imaginário esquerdista: a Princesa Léa
e Luke Skywalker
[a resistência] enfrentam as tropas imperiais sob o comando
de Darth Vader [os Estados Unidos].
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Se entre todos os políticos, oficiais de alta patente, grandes
empresários, professores de universidade, juristas e economistas
de uma nação não se encontra um só que
seja capaz de descrever corretamente o estado de coisas no mundo e
enquadrar nele a posição do país - e a realidade é que
não se encontra quase nenhum -, é claro que esse país
está perdido e desorientado no espaço e no tempo, condenado
a erros descomunais de política externa e administração
interna que só por milagre não tornarão inviável
sua existência de Estado independente num prazo mais veloz do
que a imaginação desses indivíduos e grupos pode
alcançar.
Os planos de grandeza e discursos patrióticos que saem da boca
dessa gente são um coral de marinheiros bêbados num barco
prestes a afundar. São sintomas psicóticos de uma
total falta de senso da realidade.
Na verdade, ao tentar lhes explicar que as coisas não são
como eles pensam, eu mesmo me sinto um pouco psicótico. Esperar
que entendam alguma coisa é tão louco, no fundo, quanto
apostar no futuro de um país liderado por eles. Mas, como essa
esperança se recusa a morrer, vamos lá. Vamos tentar
outra vez.
Os EUA são mesmo a potência hegemônica, mas é ridículo
imaginar que todas as ações que os projetam no mundo
sejam o resultado de um cálculo unitário fundado no seu "interesse
nacional" (no sentido que o termo tem na ESG). Com mais freqüência,
isto sim, exteriorizam o conflito interno americano, conflito que,
por força da própria hegemonia dos EUA, expressa por
sua vez a essencial divisão de forças no mundo. Dito
de outro modo: a política americana, o drama americano, a guerra
cultural americana, são o modelo em miniatura do conflito global.
O problema é que, entre os palpiteiros midiáticos, acadêmicos,
empresariais e militares do Brasil, ninguém entende coisíssima
nenhuma do que acontece nos EUA, portanto enxerga menos ainda o
que se passa no mundo.
Duas visões padronizadas, ambas falsas e profundamente idiotas,
se alternam no imaginário nacional como pretensas descrições
do cenário americano:
Visão 1 - As
duas correntes em disputa ali são apenas
duas faces da mesma moeda imperialista. Nos EUA não existe
esquerda politicamente atuante, apenas uma direita capitalista
durona e outra
mais molinha
.
Visão 2 - Existem,
sim, uma direita e uma esquerda: a direita, republicana, é fundamentalista, imperialista e militarista,
representando os interesses calhordas da elite financeira e industrial:
a esquerda, democrata, representa os pobres e oprimidos do mundo, os
direitos humanos, a democracia iluminista e, enfim, tudo o que é lindo
desde o ponto de vista do Fórum Social Mundial.
Quanta besteira, porca pipa!
Até o
começo dos anos 90 ainda era possível acreditar,
honestamente, que a Nova Ordem Mundial que se formava ante
os olhos de todos após a queda da URSS era, em essência,
a mundialização do poder americano.
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A divisão americana, em primeiro lugar, não é entre
republicanos e democratas. É entre conservadores e globalistas.
Estes estão nos dois partidos, os primeiros estão em
parte no republicano, em parte órfãos de agremiação
partidária, sem por isto deixar de constituir uma força
política e cultural considerável.
O programa globalista, longe de ser imperialismo americano, consiste
essencialmente em quebrar a soberania dos EUA, submetendo cada
vez mais o país a organismos internacionais, sendo necessário,
para esse fim, diluir a cultura e a identidade nacionais numa pasta "multiculturalista".
O globalismo não tem finalidades essencialmente econômicas
ou mesmo político-militares: é todo um conceito integral
de civilização, uma verdadeira mutação
revolucionária da espécie humana, incluindo a total erradicação
das religiões tradicionais ou sua diluição numa
religião biônica universal cuja expressão mais
visível é o movimento da "Nova Era". Seus ideais
são tão opostos aos valores e interesses da nação
americana que os conservadores, sem pestanejar, os consideram inimigos
tão perigosos quanto a Al-Qaeda. Os poderosos grupos econômicos
que apóiam o globalismo são os mesmos que elegeram Bill
Clinton e sustentaram a campanha de John Kerry. Apóiam o aborto,
o casamento gay, a liberação das drogas, a imigração
ilimitada e tudo o mais que possa dissolver rapidamente a unidade histórica
da cultura nacional americana. Fazem uso maciço do ativismo
judicial para mudar completamente o sentido da Constituição
através de sentenças que permitem o que era proibido
e proibem o que era permitido. Patrocinam maciçamente a esquerda
do Terceiro Mundo e as manifestações anti-americanas,
mas, lutando para enfraquecer o país enquanto Estado independente,
buscam ao mesmo tempo fortalecê-lo como instrumento da ONU. Daí a
ambigüidade de suas tomadas de posição quanto
ao terrorismo, por exemplo.
Os conservadores, cuja base de apoio econômico está essencialmente
na prodigiosa capacidade de coleta de fundos de milhares de organizações
populares (grassroots), mas que têm algum respaldo na indústria
nacional acossada pela concorrência chinesa, defendem o predomínio
americano no mundo, mas não querem a diluição
do país num império transnacional. Suas ambições "imperialistas",
incomparavelmente mais modestas que as de seus concorrentes, consistem
apenas em manter uma relativa superioridade econômica e militar
dos EUA (numa inversão patética, é este plano,
e não o globalista, que a mídia brasileira denuncia como
grande perigo para a nossa soberania). Não aceitam a ingerência
de organismos internacionais em assuntos de soberania, defendem as
interpretações consagradas da Constituição,
a restrição dos poderes do governo central, o liberalismo
econômico clássico, os direitos das religiões tradicionais
- protestantismo, catolicismo e judaísmo -- e a preservação
da identidade cultural americana.
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| A queda do muro de Berlim: celebração
de uma Nova Ordem Mundial. |
Cada palavra que se ouve em debates
na mídia, no parlamento,
nas universidades dos EUA, ecoa essa divisão, da qual o Brasil
em peso continua ignorando praticamente tudo, graças aos bons
préstimos de uma elite falante mentirosa, corrupta, vaidosa
e radicalmente estúpida.
É
absolutamente impossível entender o jogo de forças no
mundo - e portanto tomar uma posição consistente dentro
dele - sem ter em conta a luta de concepções civilizacionais
por trás do conflito partidário americano que a reflete
de maneira irregular e parcial. O presidente Bush, por exemplo, é moralmente
um conservador, mas atado por mil e um compromissos globalistas que
tornam suas ações freqüentemente ambíguas
e não raro incompreensíveis nos termos usuais do nosso
debate político.
Entender essas coisas dá algum trabalho, requer muito estudo
e o mergulho numa infinidade de dúvidas, mas é imensamente
recompensador para quem, com sinceridade, queira encontrar uma esperança
para o Brasil nesse mare ignotum. Em vista disso, peço aos distintos
jornalistas, empresários, professores etc., que, por favor,
por caridade, por misericórdia, não saiam dando palpites
sobre o presente artigo antes de estudar pelo menos estes três
livros:
* Carroll Quigley, Tragedy and Hope: A History of the World in
Our Time, New York & London, Macmillan, 1966. É a Bíblia
do globalismo. Não existe uma do antiglobalismo; as objeções
estão espalhadas; aqui vão duas amostras:
* Cliff Kincaid, Global Bondage: The U. N. Plan to Rule the World,
Lafayette, Louisiana, Huntington House, 1995.
* Lee Penn, False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism
and the Quest for a One-World Religion, Hillsdale, NY, Sophia Perennis,
2004.
* Vale a pena também examinar o artigo de Steven Yates, "From
Carroll Quigley to the UN Millennium Summit: Thoughts on the New World
Order", em http://www.lewrockwell.com /yates/yates14.html
.
Os que não quiserem ler nada disso, então, por gentileza,
queiram freqüentar a coluna do dr. Emir Sader e continuar entendendo
tudo às avessas, como já se tornou costume nacional. |