Um simpático
leitor enviou o meu artigo "Dormindo Profundamente" a um
círculo de empresários de bastante peso em São
Paulo, e recebeu de um deles, em resposta, um compêndio de
chavões pueris, irresponsáveis e presunçosos
cuja autoridade nesse meio basta, por si, para explicar a desgraça
do Brasil, mesmo abstraída a obra petista de destruição.
A carta merece ser examinada porque reflete menos a opinião
de um indivíduo do que um conjunto de crenças compartilhadas
por uma parcela ativa da classe empresarial, crenças que contrariam
flagrantemente a realidade mas são reforçadas todo
dia pela mídia bem-pensante. Sócrates dizia que a ignorância é a
raiz de todos os males. Mas o ignorante pobre só faz o mal
a si mesmo, no máximo a mais meia dúzia em torno. Transformar
a ignorância em autoridade pública é empreendimento
dispendioso: o sujeito tem de pagar muito bem para que as pessoas
ouçam com reverência bobagens que sem isso nem mereceriam
atenção. Groucho Marx dizia a um desses opinadores
milionários: "É preciso ter mesmo muito dinheiro,
para sobreviver com essa sua cabeça."
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Mas a ignorância, como tudo o mais nesta vida, não permanece
estável: evolui. Nasce como pura falta de conhecimentos, mas
transmuta-se em incapacidade e por fim em recusa absoluta de adquiri-los,
mesmo quando disso dependa a sobrevivência do interessado. Começa
como um estado natural e transforma-se numa requintada forma de perversidade.
Mais ainda: se o ignorante ocupa um lugar de destaque na sociedade,
se ele é o que hoje se chama um "formador de opinião",
então deve ter à mão um estoque de declarações
requeridas para as diferentes ocasiões de uma vida social variada:
jantares, reuniões de diretoria, entrevistas na mídia,
discursos de posse, homenagens etc. Sem disposição ou
paciência para criar opiniões mediante estudo, só lhe
resta preencher as lacunas voluntárias do conhecimento com os
produtos espontâneos da sua fantasia pessoal. Não sendo,
porém, verossímil que a mente imune ao conhecimento seja
ao mesmo tempo dotada de grande vivacidade imaginativa, o mais provável é que
o sujeito não crie suas fantasias, mas as absorva passivamente
do falatório em torno, repetindo-as como se fossem suas e legitimando-as
com a autoridade da sua posição na sociedade. É assim
que milhares de mentiras tolas, vindas de uma multidão de pequenos
fofoqueiros e desinformantes, se condensam num sistema de cretinices
respeitáveis, oficiais, cuja contestação se expõe à repulsa
e ao desprezo gerais.
Em todo caso, estou muito grato ao palpiteiro, por ter resumido em
poucos parágrafos o conjunto das lendas e ilusões que
entorpecem boa parte da nossa classe empresarial e a incapacitam para
uma reação eficaz ao presente estado de coisas.
Ele começa sua exposição apelando a dois chavões
consagrados: "Tão atrasado e fora de contexto quanto qualquer
projeto revolucionário marxista em qualquer parte do mundo, é o
temor e a neurose permanente em combatê-los." Em outras
palavras: (1) O anticomunismo está fora
de moda. (2) Ele é um
sintoma neurótico.
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Discutir com o ignorante é uma das tarefas mais difíceis
deste mundo. As razões do debatedor inteligente, culto, são
transparentes: exibem-se no conteúdo do seu discurso, porque
ele mesmo as pensou e as colocou ali. As do ignorante, sendo desconhecidas
dele próprio, vêm de uma atmosfera social difusa, entre
obscuras associações de idéias, automatismos de
linguagem e mil e um pressupostos mal conscientizados. Desencavá-las é como
analisar um sonho. Você tem de mergulhar fundo no inconsciente
coletivo para descobrir de onde o cidadão tirou os motivos
de crer naquilo que afirma.
A origem das duas idéias expostas é diferente. Uma espalhou-se
pela mídia como reação imediata do triunfalismo
liberal ante a queda da URSS. A outra é bem anterior: é um
slogan inventado pela KGB nos anos 40 e tão intensamente repetido
ao longo das décadas que acabou por disseminar entre os próprios
liberais e conservadores a inibição de declarar-se e
mais ainda de ser anticomunistas. São, ambas, puras expressões
emotivas, que nem mesmo podem ser discutidas como juízos de
realidade. A primeira expressa um desejo, a segunda uma autodefesa
preventiva contra a ameaça do riso e da chacota, propositadamente
espalhada no ar pelos próprios inventores do slogan.
No primeiro caso, o que tenho a observar é que a moda local
está um tanto atrasada em relação ao debate de
idéias nas áreas mais civilizadas do planeta. No ano
2000, Jean-François Revel já publicava La Grande Parade.
Essai sur la Survie de l'Utopie Socialiste (Paris, Plon), expressando
a tomada de consciência dos liberais franceses de que o movimento
comunista, aparentemente defunto em 1990, se havia reerguido mais poderoso
do que nunca, organizado mundialmente e com uma rede de apoios muito
mais vasta do que jamais tivera. Esta constatação é uniformemente
compartilhada por todos os estudiosos do assunto nos EUA e na Europa.
A bibliografia a respeito é esmagadora, mas, no Brasil, como
ninguém lê nada, ainda se pode alegar manchetes do Economist
de quinze anos atrás como se fossem a última palavra.
A ignorância tem seu tempo histórico próprio,
imune aos fatos do mundo.
Quanto à difamação do anticomunismo como "neurose",
sua eficácia paralisante tende a diminuir no resto do universo, à medida
que a direita européia e americana descobre que foi vítima
desse engodo para muito além do que poderia admitir a honorabilidade
da sua inteligência. Em 1956, o preconceito contra o anticomunismo
fez com que os EUA aceitassem Fidel Castro como um grande líder
democrático, ajudando-o a consolidar-se no poder. Em 1973, quando
Henry Kissinger recebia o Prêmio Nobel da Paz por ter retirado
as tropas americanas no Vietnã, quem dissesse que o efeito da
festejada obra diplomática seria o genocídio da população
civil era objeto de riso. Três milhões de cadáveres
depois, é preciso muita teimosia para não enxergar que
a pax kissingeriana ocasionou a tomada do Vietnã do Sul pelo
Vietnã do Norte, a ascensão de Pol-Pot no vizinho Camboja
e todos os horrores que transcenderam em muito os males da guerra.
Em 2002, o analista estratégico Constantine Menges, do Hudson
Institute, foi alvo de toda sorte de gracejos maliciosos na mídia
nacional por ter dito que a América Latina caminhava para a
formação de um eixo anti-americano. Hoje o eixo está visível
diante de todos, e aqueles que riram de Constantine Menges já tiraram
a máscara, confessando que queriam apenas o silêncio e
a discrição necessários para chegar exatamente
a isso. O que o cidadão nos propõe é cairmos de
novo no mesmo truque, só para não corrermos o risco temível
de ser alvo de gozações comunistas. Não há nada
mais ridículo do que o medo do ridículo.
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Prossegue o indigitado: "Clinton e Jimmy Carter como agentes do
comunismo internacional??? A criação de teorias onspiratórias
sempre desperta curiosidade e por mais absurdas e não fundamentadas
que sejam, apenas por contrariarem radicalmente o senso comum e o que é de
domínio público, já conferem a seus autores uma
aura de inteligência superior ou informação
privilegiada..."
Deixo de comentar a elipse enganosa que, para gerar uma falsa impressão
de comicidade, substitui "agentes do CFR" por "agentes
do comunismo". É um tipo de truque estilístico que
também remonta ao jornalismo comunista dos anos 40. Seu contínuo
poder de impregnação na linguagem dos próprios
adversários nominais do comunismo é uma das glórias
da estupidez humana.
Também nada digo dos três pontos de interrogação.
Seria realmente o cúmulo da genialidade retórica, destruir
um edifício de fatos e documentos mediante um simples aceno
ortográfico. O sujeito acha que conseguiu isso. Só falta
chamar a mãe para contemplar o filhinho em seu momento de triunfo.
A vaidade da ignorância é um abismo de miséria
humana.
A
crença de que Chávez ou Lula tenham estratégias
pessoais independentes, inconexas entre si, é uma bobagem
descomunal que não resiste ao mínimo confronto
com os documentos.
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Quanto à depreciação do meu artigo como "teoria
conspiratória", era infalível e já estava
prevista nele mesmo. Chavões têm sobre certas mentalidades
o poder persuasivo de uma revelação divina. Muito significativamente,
após alegar a "falta de fundamentos" da minha exposição,
o indivíduo apresenta os da sua: "o senso comum e o que é de
domínio público". Muito bem: contra informações
diretas da fonte, prevalece a autoridade do que a patota diz e do que
sai no jornal. Mais explícita confissão de credulidade
beócia não se poderia esperar. Pergunto-me o que pode
ser de um país onde a liderança empresarial se deixa
guiar por gente assim, inflada de desprezo pela inteligência
e pelos estudos sérios. Foi essa mentalidade, afinal, que elegeu
Lula. Não vejo como ela pode tirá-lo do poder que
lhe deu.
Baseado no que lê na Folha e no Globo, o indivíduo sentencia: "Acredito
sinceramente que estamos em outro momento histórico, sem espaço
para qualquer coisa semelhante a uma revolução esquerdista..." Ele
deveria informar isso ao Fórum Social Mundial, ao Foro de São
Paulo, à Organização de Cooperação
de Shangai, à rede mundial de ONGs ativistas e ao movimento
terrorista internacional. Em todos esses lugares prevalece a crença
oposta: a de que a direita está desmantelada politicamente por
toda parte, exceto nos EUA, e de que nunca o projeto da revolução
mundial foi tão viável como neste momento. Evidentemente,
as atas e documentos dessas entidades, suas discussões internas
e as análises feitas por seus estrategistas não saem
no Jornal Nacional. Muito menos nas novelas. São um material
difícil, tedioso, que só interessa aos envolvidos ou
a estudiosos. Se depender de líderes como o autor dessa carta,
a classe empresarial jamais conhecerá os planos que seus inimigos
estão fazendo contra ela.
Em seguida o sujeito parte para a negação explícita
de que os líderes articulados no Foro de São Paulo -
Lula, Chávez, Evo Morales, o próprio Fidel Castro --
sejam agentes de uma estratégia esquerdista comum. No seu entender,
são apenas tipos singulares agindo em função de
preferências, idiossincrasias e interesses pessoais. Chávez,
por exemplo:
"
Há muito pouco de ideológico nele, sua orientação é apenas
e tão somente populista e seu projeto é pessoal... Ele
sabe que a adoção de qualquer discurso ou convicção
ideológica mais sólida (principalmente a comunista) colocariam
seu governo a perigo, reduziriam seu apoio e colocariam sua própria
figura em segundo plano... Por isso adota como discurso ideológico
o mais óbvio e vazio, mas tão caro aos pobres latino-americanos:
o anti-americanismo. Sua semelhança com Lula? Total. Chávez,
Lula, Dirceu e companhia leram Maquiavel de cabo a rabo, e aí reside
o problema... Não há nem em Lula nem no PT mais nada
de ideológico. Acreditar no contrário, é cair
na armadilha criada por eles de tentar implicitamente justificar, sob
argumentos ideológicos, a bandalheira praticada. O 'Projeto'
não é à esquerda ou à direita. É de
perpetuar-se no poder, pura e simplesmente. Ideologia tem o Bruno Maranhão,
que está preso. Ideologia tem a Heloisa Helena e a Luciana
Genro, que fundaram um partido nanico..."
Lula,
Chávez e Dirceu, se chegaram a ler Maquiavel, o leram
através de Gramsci, e sabem que nas condições
do mundo moderno o maquiavelismo individual nada pode (...)
|
Cada uma dessas opiniões pode ser rastreada até suas
origens na própria mídia esquerdista que as pôs
a circular como pura desinformação. Desde logo, a identificação,
muito caracteristicamente pequeno-burguesa, de "ideologia" com "idealismo" ou "esperança
utópica" em oposição a "interesses", "maquiavelismo" e "desejo
de poder". Todo esquerdista com QI superior a 12 sabe que essa
identificação é falsa, mas por isso mesmo boa
para ser espalhada entre direitistas idiotas. Ideologia, segundo a
tradição marxista, é precisamente um vestido de
idéias encobrindo interesses político-econômicos
determinados. Longe de opor-se aos interesses, ela é seu instrumento
e é concebida para atendê-los, para conquistar e ampliar
o poder. Se o adversário boboca vê uma oposição
inconciliável onde o esquerdista sabe haver uma unidade dialética,
tanto melhor para este último: pode bater com duas mãos
num adversário que só enxerga uma de cada vez.
Mais ingênuo ainda é tentar explicar tudo pelo maquiavelismo
pessoal dos líderes esquerdistas, como se a estratégia
da revolução gramsciana na sua totalidade não
fosse ela própria baseada em Maquiavel. Lula, Chávez
e Dirceu, se chegaram a ler Maquiavel, o leram através de Gramsci,
e sabem que nas condições do mundo moderno o maquiavelismo
individual nada pode: o novo "Príncipe" é o
partido revolucionário. As dimensões majestosas da corrupção
petista, superando incomparavelmente os delitos avulsos de políticos
individuais, são a melhor prova disso.
Quanto à crença de que Chávez ou Lula tenham estratégias
pessoais independentes, inconexas entre si, é uma bobagem descomunal
que não resiste ao mínimo confronto com os documentos.
As atas do Foro de São Paulo atestam abundantemente a estratégia
comum -- e a unidade dessa estratégia se torna visível
nos momentos em que sua realização ameaça estender
até à ruptura o conflito de interesses nacionais, como
se viu no caso da Petrobrás, no dos lavradores brasileiros expulsos
da Bolívia ou nos tiroteios entre as Farc e o Exército
nacional. Nada disso, que normalmente resultaria em guerra, abala a
firmeza dos acordos estratégicos firmados no Foro de São
Paulo. Mais unidade que isso, só na fórmula 1 = 1.
O diagnóstico flagrantemente errado produz uma terapêutica
ainda mais alienada da realidade. Contra a marcha avassaladora do esquerdismo
continental, o homenzinho propõe o moralismo apolítico,
a recusa obsequiosa de atacar a esquerda como tal, a persistência
no erro já velho de uma década: "Melhor seria se
a direita conseguisse fazer um contraponto moral àquilo que
hoje está aí, o que não consegue porque está contaminada
até a alma de interesses espúrios e associada a práticas
políticas abomináveis."
Mas se a falta de ideologia, o oportunismo sujo e o império
dos interesses pessoais fizeram tão bem ao PT, por que teriam
sido a causa do fracasso do PFL? Por puro instinto lógico, toda
criança de dez anos percebe isto: um fator que permanece constante
e idêntico em dois processos opostos não pode ser a causa
da sua diferenciação. Não é interessante
que o apóstolo do "senso comum" o maltrate tão
desapiedadamente ao exigir que ele engula como verdade tranqüila
uma contradição intolerável?
A
ignorância, como tudo o mais nesta vida, não permanece
estável: evolui. Nasce como pura falta de conhecimentos,
mas transmuta-se em incapacidade e por fim em recusa absoluta
de adquiri-los (...)
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Sugerir que a direita, para vencer
o PT, se dedique a novos e ampliados rituais de auto-sacrifício purificador é querer que ela
entregue de bandeja mais algumas cabeças de líderes,
como já entregou tantas, na inútil e covarde esperança
de assim escapar às críticas maliciosas de petistas que
enquanto isso roubavam e delinqüiam incomparavelmente mais que
os acusados. Basta comparar as miúdas ilicitudes de um Collor à grandeza
imperial do Mensalão ou à violência do caso Celso
Daniel para compreender que o apelo à penitência moralista
só serve para tornar a direita uma vítima inerme da "guerra
assimétrica", onde um dos lados tem a obrigação
de se prosternar no altar da moralidade, enquanto o outro, quando ameaçado
por denúncias, aproveita a ocasião para buscar fortalecer
sua unidade na defesa comum contra o atacante. A direita nacional começou
a destruir-se quando, após ter depositado suas melhores esperanças
em Fernando Collor, correu para ajudar o inimigo comum a destrui-lo,
mesmo antes de ter contra o suspeito qualquer prova juridicamente válida.
Com anos de antecedência, em 1993, expliquei que a "Campanha
pela Ética na Política" tinha sido concebida exatamente
para isso, que qualquer concessão à versão brasileira
da "Operação Mãos Limpas" (ela própria
um truque esquerdista sujo) seria apenas cumplicidade suicida com a
estratégia mais perversa e astuta já adotada pela esquerda
nacional ao longo de toda a sua existência. Collor, mais tarde,
foi absolvido pela Justiça, mas sua fama de ladrão, criada
pela esquerda, persiste inabalável, mesmo diante da comparação
com tudo o que de infinitamente pior veio depois. Para conservá-la
viva, a direita consiste em mentir contra si mesma e ainda se oferece
para humilhar-se mais um pouco diante do adversário.
Aí a ignorância se transcende, se transforma em apego
irracional à mentira. "Liberais" como o signatário
dessa carta são a praga que debilita o liberalismo e o impede
de se tornar uma força política à altura dos desafios
colocados pela ascensão geral do esquerdismo. O serviço
que ele presta à esquerda é tão grande, que tornaria
razoável a suspeita de tratar-se de um agente provocador ou
desinformante infiltrado, se fosse preciso essa hipótese para
dar razão de uma conduta que, no entanto, o amor patológico à mentira
basta para explicar perfeitamente bem.
O pior dos mentirosos não é aquele que mente uma vez,
duas vezes, mil vezes. Não é aquele que mente muito,
quase sempre ou até mesmo sempre. Não é aquele
que mente tão bem que chega a se enganar a si próprio. É aquele
que, em prol da mentira, destrói tão completamente a
sua própria inteligência que se torna incapaz de perceber
a verdade até mesmo quando ele próprio, por desatenção
ou inabilidade, a proclama diante de todos. |