Alguns
leitores reclamam que descrevo o problema mas não indico
solução. Sabem por que faço isso? É que
as únicas soluções possíveis são
tão difíceis e remotas que só de pensar
nelas a visão do problema se torna ainda mais insuportável.
Cada vez que volto ao assunto ecoa na minha memória
o verso de Manuel Bandeira, o mais triste da literatura universal,
que resume a história do Brasil nas últimas décadas: "A
vida inteira que poderia ter sido e que não foi."
Em 2002, numa reunião internacional (v. http://www.midiasemmascara.com.br/
artigo.php?sid=4960), os estrategistas da revolução
latino-americana já haviam chegado à conclusão
de que nenhuma força de direita tinha condições
de erguer-se para enfrentá-los. Desde então o poder
da esquerda veio crescendo formidavelmente, especialmente no
Brasil, e seus eventuais adversários não fizeram
senão ceder terreno, acomodar seu discurso ao do inimigo,
abdicar de toda identidade ideológica e gastar energias
preciosas em alianças debilitantes, em campanhas de bom-mocismo
sem teor ideológico e em esforços eleitorais perfeitamente
fúteis.
É
claro que antevejo soluções. Mas tenho a quase
certeza de que ninguém vai colocá-las em prática.
Todos os que poderiam fazê-lo estão demasiado fracos,
demasiado sonsos para reagir. Oito, dez anos atrás andei
sugerindo soluções. Falei a empresários,
políticos, religiosos, intelectuais, militares. Em geral
não consegui persuadi-los nem mesmo de que havia um problema
- o mesmo problema sob cujo peso agora estão gemendo.
Todos, sem exceção, avaliavam a situação
baseados somente no que liam na mídia, prescindindo solenemente
de qualquer conhecimento das fontes diretas, da bibliografia
especializada ou mesmo dos clássicos do marxismo. E julgavam
tudo com uma segurança, com uma pose! Uns confiavam nos
seus galões, outros no seu saldo bancário, outros
nos seus diplominhas da USP como se fossem garantias de infalibilidade,
incomparavelmente superiores a décadas de estudo e montanhas
de documentos. Uns diziam que eu estava açoitando cavalos
mortos, outros estavam tão despreocupados que lhes sobrava
tempo para criticar detalhes de estilo que os incomodavam nos
meus artigos, outros, ainda, davam-me conselhos jornalísticos,
recomendando-me temas mais agradáveis para conquistar
os coraçõezinhos das leitoras em vez de assustá-las
com advertências apocalípticas. Assim o tempo passou.
Acabei-me recolhendo à minha insignificância, e
hoje me dedico à função que me resta: analisar
o mais objetivamente possível a agonia do Brasil, para
uso dos futuros historiadores. Larguei a prática da medicina
de urgência para dedicar-me ao estudo das patologias terminais. É um
assunto inesgotável e, para quem observa o moribundo de
longe, interessantíssimo. Se eu estivesse no Brasil, morreria
de depressão. À distância em que estou, a
melancolia do declínio se torna quase uma experiência
estética.
(...)
o verso de Manuel Bandeira, o mais triste da literatura
universal, resume a história do Brasil nas últimas
décadas: 'A vida inteira que poderia ter sido
e que não foi'.
|
Vou lhes dar só um exemplo de como a esquerda está adiantada
na conquista de seus objetivos e a direita, ou o que resta dela,
ainda nem começou a se dar conta do estado de coisas.
No fim dos anos 70, o presidente Jimmy Carter, fiel às
diretrizes do CFR, decretou que a melhor maneira de combater
o avanço do comunismo na América Latina era apoiar
a "esquerda moderada". Quem conhece a figura sabe precisamente
o que ele queria dizer com sso: tratava-se de fomentar o comunismo
alegando combatê-lo. Os brasileiros estão (até hoje)
tão por fora do que acontece nos EUA, que a simples hipótese
de um presidente americano pró-comunista ainda lhes parece
absurda e fantasiosa. Falta-lhes o conhecimento de pelo menos
setenta anos de história. Ainda nem se tocaram de que
o braço-direito de Franklin D. Roosevelt em Yalta era
um espião soviético, de que na gestão Truman
o Departamento de Estado foi entregue a um advogado chiquíssimo
cujo escritório representava oficialmente o governo da
URSS nos EUA, de que todas as acusações de espionagem
nos altos círculos lançadas pelo senador Joe McCarthy
acabaram sendo confirmadas (com uma única exceção)
e de que, enfim, o lugar mais seguro para os comunistas, depois
da redação do New York Times, é o governo
americano. É horrível conversar com pessoas que,
precisamente por não saber nada, acreditam saber tudo.
Principalmente quando elas têm dinheiro bastante para pagar
consultores que as conservam na ilusão.
Graças à ação conjugada da ignorância
e dos consultores, até hoje o empresariado brasileiro
acredita piamente na lenda esquerdista de que os americanos deram
o golpe de 64 e não sabem que a verdade é precisamente
o contrário, que o governo de Washington não ajudou
em nada a criar o regime militar mas sim foi o principal responsável
pela sua destruição. "Fortalecer a esquerda
moderada" significava, desde logo, eliminar a direita, radical
ou moderada, como alternativa válida ao esquerdismo. A
morte da direita nacional foi decretada por Jimmy Carter, pelo
CFR e pelas fundações Ford e Rockefeller (peço
que consultem os meus artigos http://www.olavodecarvalho.org/semana/060611zh.html e http://www.olavodecarvalho.org/
semana/060605dc.html para esclarecimentos de ordem teórica).
O programa foi cumprido à risca, com sucesso total. Como
a política de Washington para com a América Latina
não mudou substancialmente desde então (exceto
parcialmente e por breve tempo na gestão Reagan), e como
a atuação das fundações bilionárias
em prol da esquerda continental se intensificou enormemente nas últimas
décadas, a direita brasileira não só perdeu
qualquer apoio americano residual mas ainda nem sequer se deu
conta do tamanho dos inimigos que a cercam e estrangulam hoje
em dia.
A esquerda encobriu tão bem essas informações
elementares, essenciais para a compreensão do que se passa
no Brasil, que até agora elas são radicalmente
ignoradas por quem mais precisaria delas. Refiro-me especialmente
ao empresariado. Os militares, por sua vez, não desconhecem
os fatos, mas, bem trabalhados por agentes de desinformação,
interpretam tudo às vessas: enxergam os Carters e os Clintons
como agentes do "imperialismo americano" (e não
do globalismo anti-americano) e acabam sendo levados pela tentação
de se aliar à esquerda para se vingar das humilhações
sofridas pelas forças armadas nas últimas décadas.
Os aplausos dos homens de farda à recem-constituída "Comissão
de Defesa das Forças Armadas" - mais um ardil da
esquerda inventado para integrar as nossas tropas na revolução
chavista - mostra que o horizonte de consciência dos nossos
militares, pelo menos os de comando, é tão estreito
quanto o do empresariado.
Entre a esquerda e a direita, no Brasil, não há só uma
monstruosa desproporção de forças: há um
desnível de consciência imensurável. De um
lado, informação abundante e integrada, intercâmbio
constante, flexibilidade estratégica, conhecimento e domínio
dos meios de ação. Do outro, fragmentos soltos
mal compreendidos, amadorismo bem pago, opiniões arbitrárias
e bobas voando para todo lado, desperdício das últimas
energias em esperanças eleitorais insensatas e projetos "anti-corrupção" ideologicamente
inócuos, facilmente absorvidos e instrumentalizados pela
própria esquerda. Os esquerdistas absorveram profundamente
o preceito de Sun-Tzu: conhecer o inimigo melhor do que ele conhece
você. A esta altura, o general chinês, se consultado
por algum direitista brasileiro interessado em "soluções",
responderia: "Não converso com defuntos." Por
que eu deveria ser menos realista que Sun-Tzu?
Se
eu estivesse no Brasil, morreria de depressão. À distância
em que estou, a melancolia do declínio se torna
quase uma experiência estética.
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A direita não está somente esmagada politicamente
sob as patas da esquerda. Está dominada psicologicamente
por ela, ao ponto de repelir com ojeriza a simples hipótese
de fazer algo de efetivo contra a adversária. Exemplo?
Façam a lista de todas as ONGs, departamentos do governo,
cátedras universitárias, empresas de produções
artísticas e órgãos de mídia empenhados,
há trinta anos, em investigar, divulgar e ampliar até dimensões
extraplanetárias os crimes reais e imaginários
da "direita". A quantidade de dinheiro e mão-de-obra
envolvida nisso é incalculável. Agora experimentem
ir falar com algum empresário soi disant liberal ou conservador,
e sugiram ao desgraçado fundar uma ONG, mesmo pequenininha,
para informar o público sobre torturas e assassinatos
de prisioneiros políticos em Cuba, sobre os feitos macabros
das Farc e do MIR, sobre as conexões entre esquerdismo
e narcotráfico. A resposta é infalível:
ou o sujeito rotula você de extremista, de louco, de fanático,
ou desconversa dizendo que não se deve tocar em assuntos
indigestos, que é mais bonito circunscrever-nos a assuntos
inofensivos de economia e administração. Se um
dos lados tem o monopólio do direito de fazer a caveira
do outro, e o outro ainda reconhece esse monopólio como
legítimo e inquestionável, a briga já está decidida.
A própria direita concede à esquerda o direito
de matar, torturar, ludibriar, e ainda posar de detentora exclusiva
das mais altas qualidades morais. Depois disso, que alternativa
resta aos partidos direitistas, senão tornar-se subseções
dos de esquerda? Vejam o PFL. Esse partido, que um dia chegou
a ter alguma perspectiva de futuro, se autodestruiu mediante
sucessivas alianças com a "esquerda moderada" tucana.
Em vez de afirmar sua independência, de reforçar
sua ideologia, de criar e expandir a militância, preferiu
dissolver-se em troca de carguinhos que só lhe davam o
poder de fazer o que o sócio mandasse. A experiência
de mais de uma década não lhe ensinou nada. Continua
ingerindo doses cada vez maiores do remédio suicida.
Querem soluções? Elas existem, mas os homens influentes
deste país, tão logo acabem de ler a lista, já vão
querer atenuá-las, adaptá-las ao nível de
covardia e preguiça requerido para ser direitistas "do
bem" ou então diluí-las em objeções
sem fim até que se transformem nos seus contrários,
mui dialeticamente.
Se querem saber, essas soluções são
as seguintes:
1) Aceitar a luta ideológica
com toda a extensão
das suas conseqüências. Não fazer campanhas
genéricas "contra a corrupção",
salvando a cara do comunismo, mas mostrar que a corrupção
vem diretamente da estratégia comunista continental voltada à demolição
das instituições.
2) Criar uma rede de entidades para
divulgar os crimes do comunismo e mostrar ao público o total comprometimento da esquerda
atual com aqueles que os praticaram. A simples comparação
quantitiva fará o general Pinochet parecer Madre Teresa.
3) Criar uma rede de ONGs tipo media
watch para denunciar e criminalizar a desinformação esquerdista na mídia nacional,
a supressão proposital de notícias, a propaganda
camuflada em jornalismo.
4) Desmantelar o monopólio esquerdista do movimento editorial,
colocando à disposição do público
milhares de livros anticomunistas e conservadores que lhe têm
sido sonegados há quatro décadas.
5) Formar uma geração
de intelectuais liberais e conservadores habilitados a desmascarar
impiedosamente os trapaceiros
e usurpadores esquerdistas que dominaram a educação
superior e os órgãos de cultura em geral.
6) Formar e adestrar militância
para manifestações
de rua.
7) Durante pelo menos dez anos enfatizar antes o fortalecimento
interno do movimento do que a conquista de cargos eleitorais.
8) Criar um vasto sistema de informações sobre
a estratégia continental esquerdista e suas conexões
com os centros do poder globalista, de modo a esclarecer o empresariado,
os intelectuais e as Forças Armadas.
Essas são as soluções. Tudo o mais é desconversa.
Ou os brasileiros fazem o que tem de ser feito, ou, por favor,
que parem de choradeira. Que aprendam a morrer com decência.
Se o Brasil cessar de existir, ninguém no mundo vai sentir
falta dele. E se todos os brasileiros não inscritos no
PT, no PSOL, na CUT e similares entrarem na próxima lista
de falecidos do Livro Negro do Comunismo, talvez só eu
mesmo ache isso um pouco ruim. Em todo caso, o fim do Brasil
não vai abalar as estruturas do cosmos. Os esforços
da direita nacional para a conquista da perfeita inocuidade estão
perto de alcançar o sucesso definitivo. Quem em vida se
esforçou para não fazer diferença, não
há de fazer muita depois de morto.
Se escrevo essas coisas no jornal da Associação
Comercial, faço-o com dupla razão, porque vejo
o esforço dessa entidade para fazer alguma coisa com bravura
num país onde todo mundo está procurando um lugarzinho
para se esconder em baixo da cama e até a mulher do presidente
já tratou de se garantir com um passaporte italiano. Assisto
aos vídeos daqueles combatentes reunidos no seminário "Liberdade,
Democracia e o Império das Leis", e me pergunto:
Cadê o resto do país? Cadê os donos da mídia,
que lambem os sapatos dos comunistas aos quais entregaram suas
redações? Cadê os banqueiros, que têm
um orgasmo a cada novo aumento dos impostos e sabem
que lucram com a destruição da liberdade, da segurança,
das leis? Imaginam por
acaso que trogloditas capazes de depredar o Congresso vão,
miraculosamente, respeitar amanhã as sedes dos bancos
privados? Cadê os homens da indústria, que estão
de quatro, sem fôlego, e ainda insistem em bajular seus
algozes? Cadê a Igreja Católica - ou a entidade
que ainda leva esse nome --, autotransfigurada em órgão
auxiliar do Foro de São Paulo? Cadê a tal "classe
dominante", cuja única ocupação nas últimas
décadas é deixar-se dominar? Cadê os militares,
cujo mais
alto sonho de glória parece ser a aposentadoria sob as
asas do Estado previdenciário socialista? Pergunto
isso ao vento, e a resposta vem em outro
verso de Manuel Bandeira:
"
Estão todos dormindo, dormindo profundamente."
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