1.
O que, exatamente, deve ser comemorado?
Em
janeiro de 2008, Brasil e Portugal começaram
a "festejar" - se o verbo se aplica - os
200 anos da vinda da família real para
o Brasil. Alguns se atêm ao ato da "fuga",
outros celebram a "genial estratégia" do
Príncipe Regente, o único a ter enganado
Napoleão, nas palavras do próprio, como
já fomos
lembrados. Apreciações positivas e negativas
são inevitáveis, em ambos os lados do Atlântico,
uma vez que a controvérsia sobre decisões
de tanta gravidade faz parte da trama da
história, e não apenas entre historiadores.
O fato determinado é que a partida (por
certo precipitada), em novembro de 1807,
e a chegada à Bahia,
em janeiro de 1808, imediatamente seguida
do famoso Alvará Régio de abertura dos
portos, se impunham como necessidades absolutas, à falta,
cada uma, de melhores alternativas.
Este
ensaio não pretende retomar as circunstâncias
da "fuga" ou, então, do "traslado" da corte,
já suficientemente cobertas na bibliografia
consagrada - na qual se sobressai o clássico
de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil
(várias
edições, a mais atual pela Topbooks), o
mais recente e "leve", mas bem pesquisado,
de Laurentino Gomes, 1808 (Planeta) e o
recentíssimo, "binacional",
A Abertura dos Portos, organizado por Luís
Valente de Oliveira e Rubens Ricupero (Senac-SP) - e
objeto de artigos de divulgação geral em
muitos meios de comunicação nas semanas
que passaram e nos meses que ainda estão
por vir. A intenção seria a de oferecer
uma espécie
de balanço sobre o quê, exatamente, Portugal
nos legou, como resultado dos 300 anos
anteriores de colonização e da sua marca
deixada nos anos de Reino Unido, e também
sobre o quê o
Brasil, nos seus 186 anos de independência,
foi capaz de realizar enquanto nação em
construção.
O que temos a "comemorar", neste
ano de 2008, seriam os duzentos de administração
do Brasil a partir do próprio país, ainda
que não efetivamente,
no começo, a serviço da nação e, sim, a
serviço
da família real portuguesa que, junto com
a corte, controlava o que poderia ser chamado
de "governo" (ou seja, um decisor central,
com alguns ministérios setoriais e vários
conselheiros da corte em volta do primeiro).
Essa transposição da administração "central" dos
negócios do País, da metrópole para a colônia - que
logo deixou de ter tal estatuto, em 1816,
para passar a ser "reino unido" - implicou
numa série de conseqüências administrativas,
institucionais, econômicas e de infra-estrutura
(aqui, inclusive, a "infra-estrutura" social
ou educacional), que todas contribuíram
para fazer do Brasil o que ele é hoje.
Nossa tarefa é,
então, determinar o que ocorreu, e o que
poderia ter ocorrido, com base nas condições
que tínhamos no momento dessa mudança.
Comemorações
também são "rememorações"...
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Paulo
Roberto de Almeida
Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas, diplomata
de carreira desde 1977 e professor no mestrado em Direito no Centro
Universitário de Brasília.
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Muitas
coisas mudaram, efetivamente, nos últimos dois
séculos,
e para melhor, num país onde tudo precisava
ser feito (sem entrar aqui em considerações
politicamente incorretas sobre a população
autóctone). É preciso desde logo deixar
registrado que nossas deficiências atuais - visíveis
na injustiça social, na iniqüidade com
que são tratados os mais humildes, nas
notórias
carências educacionais e de infra-estrutura,
na corrupção latente e na baixa qualidade
geral de nossas instituições públicas - não
podem ser debitadas de modo algum a Portugal
ou ao domínio português, embora as estruturas
da história sejam muito lentas a se formar
e ainda mais lentas a se desfazerem. O
que somos hoje devemos, em parte, a Portugal,
e muito mais ao que fomos capazes (ou não)
de realizar no período independente. Tendo
já discutido alguns aspectos do "então" e "agora" em
trabalhos recentes - como em "O que Portugal
nos legou?; um balanço de 1808-1822 e as
perspectivas do presente", Espaço Acadêmico
(ano 7, nº 80, janeiro 2008; disponível
no link: http://www.espacoacademico.com.br/080/80pra.htm),
no qual foram examinadas a situação econômica
do Brasil em 1808 e as mudanças ocorridas
a partir de 1822 -, minha intenção seria
fixar-me, agora, em alguns aspectos seletivos
do legado português, alguns já abordados
no trabalho em questão.
Datas históricas,
aniversários centenários servem para isso
mesmo: revisitar o passado e tentar retirar
dele alguns ensinamentos para o presente,
como forma de construir um futuro melhor.
Ainda que balanços do passado e projetos
do presente carreguem inevitavelmente uma
carga insofismável de subjetividade - tanto
a obra dos historiadores, como os objetivos
de decisores atuais são o fruto de suas
preferências
pessoais, ainda que moldados pelo peso
da tradição e das evidências acumuladas
em gerações
e pela pressão dos interesses sociais que
se expressam através das instituições de
modo constante - tentarei ser o mais objetivo
possível no julgamento do legado português
e da obra acumulada pelas elites nacionais
que nos conduziram nos últimos duzentos
anos.
Ao fazê-lo, quero, mais uma vez,
deixar claro que não considero Portugal
ou os portugueses responsáveis pelo país
que somos hoje, e nisso retomo o que já disse
no trabalho acima referido: "um país industrialmente
desenvolvido, mas socialmente iníquo; economicamente
avançado,
mas socialmente atrasado; cientificamente
realizado, mas tecnologicamente mal dotado.
Não se devem aos portugueses nossos comportamentos
atávicos e nossos fracassos de modernização.
Eles não podem responder pelo que fizemos
desde 1822. Nós mesmos somos responsáveis
pelo muito que conseguimos fazer neste
período,
em termos de construção da nação, assim
como devemos ser considerados culpados
pelo quadro
lamentável no plano social ou educacional
que ainda contemplamos hoje." 2.Uma
pequena digressão histórica sobre convergência
e divergência econômica
Outra
observação,
de caráter metodológico, se impõe,
num trabalho que pretende fazer "um
balanço
e uma avaliação" dos últimos
duzentos anos: na ausência de critérios
absolutos - e
uniformes, ao longo do tempo - para
julgar o que representa, exatamente,
o "progresso",
o quê, nesse progresso (ou atraso)
pode ser imputado ao passado, e o quê deve
ser considerado como obra contemporânea,
algum tipo de comparação
com outros países em situação similar
aparece como inevitável. Um país só aparece
como mais rico ou mais pobre quando
comparado
aos demais, uma vez que tudo é relativo,
não apenas na física, mas também (talvez,
sobretudo) nas questões humanas e sociais.
Crescimento econômico - e, portanto,
prosperidade social - é o critério
básico pelo qual
medir o desempenho relativo de um país
em relação
a outro e, nisto, uma perspectiva histórico-econômica
pode ser útil.
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Tanto
o Brasil
quanto o Japão
partiram de
patamares muito
baixos no século
19. Mas o país
asiático, por ter
investido em
educação,
conseguiu alçar-se à condição de país
avançado (...)
|
Tomo como
exemplo uma simulação
que figura na introdução ao livro-texto
de Robert Barro e Xavier Sala-i-Martin,
Economic
Growth (2ª ed.; Cambridge, Mass.; The
MIT Press, 2003). Utilizando-se de
dólares
constantes de 1996, eles "retroprojetam" a
renda per capita nos EUA em 1870, estimada
em US$ 3.340,
e constatam o valor em 2000, equivalente
a US$ 33.330. Tal é o resultado de
uma taxa de crescimento anual acumulada
de
1,8% do
PIB, o que parece bastante modesto
em relação
aos valores com que nos acostumamos
neste início de século 21, mas ainda
assim bastante razoável para os que
lidam com a história
econômica e sabem como a humanidade
progrediu lentamente ao longo dos séculos,
de fato nos milhares de anos que precederam
a primeira
(1770-1830, grosso modo) e a segunda
revolução
industrial (a partir de 1870, aproximadamente).
Com base nesses resultados efetivos,
os dois economistas simulam, então,
trajetórias
diferentes de crescimento, uma "otimista",
apenas 1% acima da efetivamente realizada,
outra "pessimista",
exatamente 1% abaixo.
Quais os resultados?
Se os EUA, nos 130 anos que vão do
final da Guerra Civil até o final do
século 20,
tivessem crescido 2,8% ao ano, em lugar
de "apenas" 1,8%,
eles teriam, em 2000, uma renda per
capita de US$ 127.000, algo não alcançado
por qualquer outro país da atualidade
(mas que poderia, plausivelmente, ter
sido realizado
pelos
EUA, caso tivessem crescido apenas
um "pouco" mais
do que o fizeram). Ao contrário, se
os EUA tivessem sido "infelizes" (ou
incompetentes na gestão da economia),
ao ponto de acumular uma taxa de crescimento
anual de apenas
0,8% ao longo desses 130 anos, teriam
chegado em 2000 com apenas US$ 9.450,
ou seja,
o
equivalente do México atual. É importante
observar que 0,8% ao ano foi a taxa
efetivamente registrada ao longo do
período por países
como a Índia, o Paquistão e as Filipinas,
que não foram espetacularmente bem
sucedidos no curso do século 20. No
sentido inverso, o Japão (com 2,95%
ao ano) e Taiwan (com 2,75%) se aproximam
bastante da taxa de
2,8% que poderia ter levado os EUA
ao máximo
da renda per capita, demonstrando,
assim, que
a riqueza potencial 38 vezes acima
dos "meros" 10
vezes acima da renda realizada não
apenas era possível, como foi efetivamente
alcançada
por outros países. No ritmo atual,
os EUA só chegariam àquela renda de
US$ 127.000 em 2.074, mas ela provavelmente
será alcançada
bem antes por algum outro país (não
necessariamente os sultanatos petrolíferos,
mas alguma outra economia de alta produtividade
do
trabalho),
isto se não considerarmos que a renda
do habitante do sul de Manhattan, em
NY, já se
encontra perto desse patamar atualmente.
O
que isso tem a ver com o Brasil, ou
com Portugal, nossa origem? Tudo.
O Brasil
foi um país que, junto com o Japão,
mais cresceu no decorrer dos primeiros
80 anos
do século
20, tendo, contudo, sido "penalizado" por
suas altas taxas de crescimento demográfico
na comparação com o país asiático.
Em outros termos: no que se refere
ao PIB, em si,
o Brasil foi capaz até de crescer mais
do que o Japão entre 1900 e 1980, mas
pelo fato de o Japão ter realizado
sua "transição
demográfica" mais
cedo, seus resultados finais, isto é,
a renda per capita, foram mais favoráveis
do que os do Brasil. Não apenas isso,
obviamente, mas, como indicam os dois
autores, growth
matters, isto é, crescimento é importante,
sobretudo no longo prazo, ou em termos
constantes, mesmo se a taxas modestas
como as exibidas
pelos EUA. Tanto
o Brasil quanto o Japão
partiram de patamares muito baixos
no século
19. Mas o país asiático, por ter investido
em educação, conseguiu alçar-se à condição
de país avançado no decorrer do século
20, o que o Brasil ainda não fez e
não
parece ter condições de realizar no
horizonte previsível
(a despeito mesmo de sua industrialização "acabada",
ou completa). O fator chave é educação,
e não apenas indústria ou equipamentos
pesados, como parecem crer alguns economistas
desenvolvimentistas.
Uma comparação com a Coréia do Sul
pode ser pertinente para ilustrar este
ponto.
Em 1960,
quando o pequeno país asiático era
muito menos industrializado do que
o Brasil,
sua renda per capita, em paridade de
poder de
compra, era de apenas US$ 1.700, ao
passo que Brasil ostentava uma renda
per capita
de US$ 2.700 (a mediana, no mundo,
era, então,
de US$ 3.390). Pois bem, em 2000, ano
de referência na obra de Barro e Sala-i-Martin,
a Coréia do Sul já tinha alcançado
US$ 18.000 (mais de dez vezes acima),
enquanto
o Brasil
exibia modestos US$ 7.000, para uma
mediana global de US$ 8.490 (2,5 vezes
superior
ao valor de 1960).
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Entre
1900 e 1980, o Brasil cresceu
mais que o Japão, mas pelo
fato deste último ter realizado
sua "transição demográfica" mais
cedo, seus resultados finais
foram mais favoráveis.
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O
Brasil, teoricamente pelo
menos, poderia ter alcançado níveis
similares (ou semelhantes) de renda
per capita, aos
da Coréia do Sul ou de Taiwan, se tivesse
conseguido manter taxas de crescimento
razoáveis - não
necessariamente as da época do "milagre",
nos anos eufóricos da ditadura militar,
em torno de 5 ou 7% ao ano, mas pelo
menos em
torno de 3,5 a 4% ao ano, o que seria
suficiente para nos colocar naquele
patamar - o que
nada nos diz, entretanto, sobre os
aspectos sociais, ou distributivos,
de uma renda
entre US$ 18 e 20 mil. O mais provável é que, à falta
de investimentos sólidos em educação,
o volume de riqueza total alcançado - seríamos,
provavelmente, a quinta ou a sexta
economia mundial, com
base numa industrialização pesada como
aquela conduzida nos anos militares,
uma espécie
de stalinismo para os ricos - não estaria
bem distribuído entre a população,
gerando, portanto, um grande PIB, mas
dotado de
fundamentos frágeis, com pouca inovação
e desenvolvimento autônomos.
O progresso
diferenciado tem a ver, obviamente,
com uma série complexa de
fatores estruturais e conjunturais.
Mas muitas das políticas (macroeconômicas
e setoriais) envolvidas em cada um
dos países,
Brasil e Coréia do Sul, seriam incompreensíveis,
em sua dimensão própria, se não se
leva em conta o que verdadeiramente
diferencia
um
do outro (assim como no caso do Japão):
a qualidade da educação. Este é, de
fato, o elemento crucial e efetivamente
determinante
do progresso social, o responsável
essencial pela produtividade e inovação
na economia. Nesse aspecto, o legado
português foi propriamente
catastrófico, mas, lá se vão 200 anos,
e nós não precisaríamos ter esperado
tanto (ainda hoje) para descobrir isso.
Feita
esta digressão de história econômica
sobre o que nos separa, infelizmente,
de países
avançados - falta
de crescimento, sem dúvida, em especial
nas últimas
duas décadas, mas também investimentos
e estímulos errados ao longo do tempo - seria útil
voltar às razões de por que não crescemos
tanto quanto poderíamos, ou por que
nossa transformação estrutural foi
tão incompleta
e deficiente, a ponto de sermos mais
parecidos com os demais países da região,
do que com outros países que conseguiram "saltar
a barreira" do
crescimento endógeno e sustentável
(ou sustentado, para não parecer "politicamente
correto").
Em outras palavras, seria preciso ver
quais aqueles fatores históricos que
nos foram legados na origem de nossa
formação enquanto
nação, para avaliar o que poderíamos,
ou deveríamos, ter feito, na perspectiva
da história, para ter logrado, atualmente,
resultados bem melhores do que os que
são
efetivamente exibidos pela sociedade
e pela economia.
Gostaria, em primeiro
lugar, de registrar os elementos que
me parecem positivos
no legado português, para depois me
concentrar nos fatores que julgo responsáveis
pelo nosso atraso, sempre tendo em
conta o fato
de termos
assumido a responsabilidade efetiva
pelos nossos negócios desde setembro
de 1822, ou pelo menos desde 1831,
segundo alguns,
quando
um governo verdadeiramente "brasileiro" assume
as rédeas da nação. Trata-se de uma
livre digressão, isto é, não apoiada
em notas bibliográficas
ou remissões documentais, mas ainda
assim amparada em muitas leituras históricas
e econômicas ao longo das últimas décadas.
3.
A boa herança de Portugal e o que
fizemos dela
O primeiro,
e melhor, legado da formação
portuguesa do nosso povo está, justamente,
no fato de ser um povo aberto à miscigenação,
o que nos distingue e nos qualifica
no plano mundial como nenhum outro
povo, provavelmente.
Por mais que isto seja um processo
involuntário - que
não nos torna nem melhores, nem mais "astutos" do
que qualquer outro povo -, trata-se,
sem dúvida alguma, de uma condição
eminentemente positiva no plano das
relações humanas
(para os que valorizam esse tipo de "mistura",
obviamente).
O
primeiro, e
melhor, legado da
formação
portuguesa do nosso
povo está,
justamente, no fato
de ser um povo
aberto à miscigenação, o que nos distingue e nos qualifica no plano mundial como
nenhum outro povo,
provavelmente.
|
A humanidade
viveu, nos últimos
dez mil anos, processos terríveis de
lutas tribais, conflitos étnicos, disputas
territoriais e enfrentamentos raciais
e religiosos,
todos com base na velha e terrível
intolerância
em relação à alteridade. O principal
fator desses enfrentamentos se encontra,
precisamente,
no ato de julgar o seu semelhante como
diferente, inferior ou não, mas em
todo caso potencialmente ameaçador
de sua própria
segurança. O principal
fator de diferenciação encontra-se
no fenótipo,
por ele ser imediatamente visível.
Obviamente, resultam daí as políticas
de separação,
de apartheid e de dominação de uma
comunidade por outra. A melhor garantia
de que isto
não ocorra encontra-se, também obviamente,
na completa ausência de fatores de
diferenciação,
o que só pode ser conseguido através
da miscigenação
racial, que supõe, ipso facto, a diminuição
das distâncias cultural e psicológica,
também.
Mesmo quando essa mistura racial
adquire características assimétricas,
isto é,
quando é o
resultado da dominação - como são todas
as situações derivadas dos fenômenos
históricos
da colonização e da escravidão -, ainda
assim trata-se de fator essencialmente
positivo
para a formação de um povo aberto e
acolhedor das diferenças raciais, culturais
e religiosas. Nem sempre essas coisas
andam juntas, como
a própria história de Portugal nos
confirma. O país se fez na luta de
reconquista contra os mouros, quando
a guerra contra o infiel
era literal: os homens eram simplesmente
eliminados ou convertidos em escravos
e as mulheres e crianças submetidas
aos novos senhores da terra. Portugal
se lançou,
logo depois, à conquista de novas terras
e esses empreendimentos guerreiros
supunham altas
doses de violência pura contra os nativos
e a exploração sexual do seu componente
feminino.
Assim ocorreu durante o processo
de colonização
do Brasil (e de outros povos), mas
o resultado, inegavelmente, foi um
povo de mestiços
(e indiferente ao fato de sê-lo, isto
também é importante).
A classe dominante no Império era,
provavelmente, mais mestiça do que
jamais o foi na seqüência
histórica do sistema político brasileiro,
com um gradual retorno a um padrão
mais mestiço
em tempos recentes. Devemos essa plasticidade,
originalmente, aos portugueses, que
por razões
próprias à formação histórica do povo,
souberam conviver e aceitar todos os
tipos de misturas
possíveis, em quatro ou cinco continentes.
Ela foi por certo "aperfeiçoada" - as
aspas se devem ao seu caráter involuntário - pelo
próprio povo brasileiro, que parece
desprovido de maiores sentimentos racistas
também
em função de sua conformação básica.
Quando digo "parece", isto se deve
a que o racismo tende a se manifestar
em vários casos de "desconforto" - presumido
ou real - a partir de uma situação
de alteridade, e esta passou inclusive
a ser maior com
as grandes levas de imigração européia,
entre o final do século 19 e meados
do 20. O pensamento "científico" dominante
nessa época aceitava a determinação
racial das "hierarquias" humanas e,
portanto, um forte componente racista,
valorizando
a eugenia
e a purificação racial, no sentido "loiro
dolicocéfalo", obviamente. Mas, essa
situação
tende a se diluir, novamente, com a
grande mistura observada desde então.
Um
outro componente menos nobre dos comportamentos
sociais portugueses
foi o sentimento anti-judeu - antes
mesmo que o anti-semitismo estivesse "formalizado" no
plano político - mas isto se deve inteiramente
ao integrismo de certas correntes católicas
que, desde a Idade Média, passaram
a ver nos judeus o bode expiatório
de tantas misérias
naturais que assolavam sociedades pouco
equipadas para enfrentar calamidades
de diversos tipos.
O fundo religioso da perseguição aos
judeus - exacerbada
por essa instituição central da contra-Reforma
que foi a Inquisição - não foi apenas
intolerável
no âmbito dos valores cristãos; ele
também
foi catastrófico para o desenvolvimento
de Portugal enquanto economia e sociedade.
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O
sentimento anti-judeu foi catastrófico
para o desenvolvimento de Portugal
enquanto economia e sociedade.
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A
perseguição aos judeus antecede ao
descobrimento e colonização do Brasil
e, aqui como em Portugal, teve efeitos
deletérios em ambas
as nações,
fazendo a fortuna de outras, que souberam
acolhê-los com grande tolerância religiosa
e social (como a Holanda, por exemplo).
Traços
do anti-semitismo português - mas não
apenas dele, pois o fenômeno se desenvolve
extraordinariamente na Europa do século
19 e do início do 20 - tiveram
prolongamentos no Brasil até uma data
recente, o que novamente só pode ter
atuado em nosso completo desfavor,
inclusive no plano puramente
mental ou da psicologia "popular" (o
que explica, obviamente, certos racismos
ordinários
ainda hoje manifestados nesse plano).
Outro tipo de racismo ao inverso tende
a se desenvolver
atualmente, mas ele não deve nada à herança
portuguesa, e sim se trata de uma importação
equivocada de idéias mal concebidas
nos EUA sobre um suposto componente
afro-americano
do seu povo. A cultura do afro-brasileirismo,
se levada às últimas conseqüências,
só pode
desembocar no apartheid mental e, depois,
na separação racial de alguns elementos
do povo brasileiro, seduzidos por essa
defesa
equivocada de programas de "ação afirmativa".
Acredito, porém, que a maioria do povo
brasileiro, que na verdade é composta
de mestiços, saberá recusar
esse programa de segregação racial
e de divisão
da sociedade em categorias que não
existem naturalmente.
Uma outra boa
herança de
Portugal, no plano institucional, é a
sua diplomacia, base do competente
serviço
exterior formado diligentemente pelos
líderes
no Império e
desenvolvido sob a República, que conserva
alto grau de profissionalismo e qualidade
técnica. Como posso estar praticando
elogio em causa própria, dispenso-me
de sublinhar seus traços positivos,
agregando apenas que, como outras instituições
do Estado, ela também
pode ter exacerbado traços corporativos
que poderiam atuar no sentido de uma
indesejável
introversão.
Considero, por outro lado,
a herança da língua portuguesa como
um elemento neutro, embora a língua
sempre traduza uma cultura e seja um
instrumento
de saber e,
portanto, de poder. No caso de Portugal,
a despeito de seu expansionismo precoce - que
redundou em interessantes intercâmbios
lingüísticos
nos vários continentes onde o gênio
aventureiro esteve promovendo o comércio
e a conversão à fé cristã -,
a baixa qualificação educacional do
povo português por certo impediu uma
influência
maior dos povos lusófonos nos terrenos
da ciência e da cultura universal.
A disseminação,
hoje, pode ser dada pelo lado da música
e do esporte, assim como pela crescente
diáspora
de emigrados econômicos. Ainda assim,
se trata de uma base precária que se
reforçará paulatinamente
em bases regionais, a partir da expansão
de empresas brasileiras na América
do Sul. O esforço diplomático para
estimular a união
dos luso-parlantes, na Comunidade dos
Povos de Língua Portuguesa, pode ter
efeitos positivos, mas alguns dos seus
integrantes
também pertencem
a outras comunidades lingüísticas de
modo simultâneo. Acrescento que considero
inúteis
esforços para unificar ortograficamente
os diversos "dialetos" lusitanos: cada
língua é o
resultado de seu desenvolvimento natural
e deve ser deixada inteiramente livre
para desenvolver de todas as formas
possíveis.
Acredito que os recursos devem ser
mais bem empregados na qualificação
da população
nas línguas veiculares de comércio,
cultura e produção científica: já tivemos
o grego, o latim, talvez o francês;
agora é o inglês,
so be it...
Em todo caso, não considero
que o Português foi o responsável pela "união" do
povo ou o elemento motor da unidade
nacional, na formação da nação. A língua
geral, na colônia, estava mais próxima
do tupi-guarani, ao que parece, e não
foi a língua, mas
sim a força das armas, que preservou
a unidade nacional nos primeiros tempos.
A língua e
os vice-reinados não impediram a divisão
da América hispânica, da mesma forma
como o Brasil poderia ter sido separado
em unidades
distintas, desde as invasões estrangeiras - francesa
e holandesa, notadamente - e os impulsos
separatistas ou federalistas existentes
em diversas épocas. O peso da espada
e a férrea
vontade da casa dominante portuguesa
preservaram a unidade do País, quando
ele era constituído,
realmente, de um arquipélago de economias
distintas, que jamais se comunicavam
entre si, salvo nuns poucos intercâmbios. |