| Newton
Santos/Hype |
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Renato
Pompeu
É jornalista e escritor, autor do romance-ensaio 'O mundo como obra de
arte criada pelo Brasil', Editora Casa Amarela.
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A
história mundial do trabalho só começa
com o surgimento do trabalho livre, remunerado,
na Europa Ocidental, na passagem da Alta para
a Baixa Idade Média, diz o juiz Gerson
Lacerda Pistori, juiz titular do Tribunal Regional
do Trabalho da 15ª Região, com
sede em Campinas e que abrange todo o Estado
de São Paulo, com exceção
da capital e da Baixada Santista. Pistori é autor
do livro História do direito do trabalho – um
breve olhar sobre a Idade Média, recém-lançado
pela LTr.
Podemos presumir que antes, com a escravidão
e a servidão, o que havia era a pré-história
do trabalho. Antes ainda disso, nas primeiras
comunidades humanas, havia o trabalho de caça
e coleta, e depois as primeiras aldeias agrícolas,
em que o trabalho e os produtos do trabalho
eram compartilhados enre todos os habitantes.
Esse trabalho era livre, mas não remunerado.
Na medida em que se foram organizando federações
de aldeias, para fins de evitar conflitos referentes à irrigação
e a ataques de aldeias vizinhas, foi surgindo
o Estado, na forma de reinos ou impérios,
arrecadando impostos para em troca administrar
e proteger os habitantes.
Na maior parte do mundo, o Estado, na figura
do rei ou do imperador, era o proprietário
de tudo, outorgando a posse de terras e de
empresas nas cidades a verdadeiros funcionários
públicos, que tinham de produzir segundo
cotas estabelecidas pelas autoridades, as quais
arrecadavam parte da produção.
Só havia escravos domésticos,
no Exército e na construção
civil, mas os pequenos produtores agrícolas
e grandes comerciantes não eram livres,
pois tinham de cumprir as cotas, em particular
as cotas destinadas aos tributos ao Estado,
e só um pequeno excedente circulava
pelo mercado.
No Ocidente, no entanto, em Grécia e
Roma, surgiram as propriedades privadas baseadas
na escravidão agrícola, cuja
produção era na sua maior parte
destinada à subsistência e ao
luxo dos senhores e suas famílias e
agregados, com apenas um pequeno excedente
destinado ao limitado mercado de então.
Em todo o mundo, o trabalho praticamente não
tinha história, pois o desenvolvimento
tecnológico era lento e as formas de
contrapartida, a garantia da posse na maior
parte do mundo, e a garantia de abrigo, roupas
e alimentação para os escravos,
na Grécia e Roma, não mudavam.
Na maior parte do mundo, ocorriam periodicamente
revoltas dos pequenos produtores quando os
impostos aumentavam muito, e a revolta continuava
até que, com ou sem mudança dos
governantes, os impostos baixavam. No Ocidente
greco-romano, houve revoltas de escravos, mas
na melhor das hipóteses os escravos
revoltosos vitoriosos só conseguiam
se tornar eles próprios senhores de
escravos, mas a história do trabalho
não mudava.
Com a dissolução do Império
Romano Ocidental, a partir do século
5º, cidadãos romanos fugiram
das cidades devastadas para se estabelecerem
como
agricultores nos confins da Europa Ocidental.
Não podiam ser escravos, porque
eram cidadãos. Foi surgindo o feudalismo.
Diz o juiz Pistori: "O homem não é livre,
mas não pertence a um senhor e sim à terra;
deve vassalagem ao senhor da terra, em
troca de proteção militar.
A parentela do servo tem título
de posse sobre a casa e uma porção
de terra; trabalha durante a semana três
dias para o senhor, três dias para
si, e folga no domingo, além de
nos feriados, de modo que não
trabalha durante 150 dias ao ano".
Quanto às cidades na Europa Ocidental,
foram esvaziadas, do século 5º ao
9º; seus poucos habitantes, os vilões,
viviam ao deus-dará; trabalhavam como
lavradores "soltos", ou como artesãos,
mas não recebiam pagamento em dinheiro
e sim víveres e outros bens. Só havia
trabalho mais organizado nos mosteiros e em
seus arredores; a partir do século 9º os
mosteiros lançam novidades como o aperfeiçoamento
dos vinhos e das castas de uva e os moinhos
que produziam cerveja em grande quantidade.
Também desde o século 9º ocorrem
melhoras por causa das mudanças do clima,
contato com outras civilizações,
como a muçulmana – de onde chegam
a ervilha, a lentilha, a cevada e outros cultivos;
se intensificam a circulação
de moeda e a concentração
de riquezas entre os comerciantes das
cidades.
Com dinheiro na mão, os mercadores e
a Igreja passam a construir prédios
maiores, como igrejas (passa-se da pequena
igreja românica para a grande igreja
gótica), e surge nas cidades o trabalho
livre, remunerado, para essa construção,
e vão se desenvolvendo outras especializações.
Surgem as corporações de cada
ofício, em que o mestre, detentor dos
conhecimentos artesanais, compra as matérias-primas,
as entrega para o trabalho dos oficiais, ou
companheiros, ou jornaleiros (que recebem por
dia de trabalho), vende as peças e paga
os oficiais; havia ainda os aprendizes, não
remunerados, mas sustentados pelo mestre. Um
oficial, que provasse num exame ter a habilidade
de mestre, podia ser promovido a mestre e iniciar
o seu próprio negócio.
A partir do século 13, no entanto, os
mestres passam a bloquear a ascensão
de oficiais que não fossem seus filhos
ou parentes, enquanto proíbem os oficiais
de continuar na mesma corporação
por mais de dez anos. Por outro lado, os comerciantes
são autônomos, mas tanto mestres
como comerciantes enriquecem muito e se tornam
verdadeiros burgueses, chegando a arrendar
extensas terras dos senhores feudais, mantendo
porém no campo as relações
de servidão, que resistirão até os
séculos 17 e 18.
Burguesia
em ascensão
Nas cidades, porém, há mudanças.
A partir do século 15, o predomínio
dos burgueses, ou empresários, e as
tentativas da Igreja de impor seu poder temporal,
levam à retomada do Direito Romano,
com sua contratualidade e leis por escrito.
Surgem contratos entre as cidades e as corporações
de ofício, com normas sobre a qualidade
e os preços dos produtos e termos de
adesão dos membros. A burguesia se alia
aos reis, os quais lançam éditos
sobre a remuneração máxima
dos oficiais.
Surgem em volta das cidades e das corporações
de ofício bolsões de mão-de-obra
remunerada abaixo dos padrões das corporações.
Nesses bolsões prevalecem condições
semelhantes às atuais periferias das
grandes cidades, ou aos atuais "bóias
frias". Esse "esquema corporativo
com periferia" se mantém nas cidades
até fins do século 17, na Inglaterra,
e até a Revolução de 1789,
na França, quando então são
proibidas as corporações e o
associativismo entre os trabalhadores, para
flexibilizar a contratação de
mão-de-obra em massa necessária
para a Revolução Industrial.
Ao mesmo tempo, é abolida a servidão
no campo, com a introdução das
pequenas propriedades autônomas, com
a maior parte da produção para
subsistência, e das propriedades empresariais
com assalariados agrícolas, com a produção
destinada ao mercado. Nas colônias americanas,
se estabelece a escravidão, mas, ao
contrário da escravidão antiga,
a quase totalidade da produção
visa o mercado e o lucro.
É
que nesse período os empresários
das cidades foram obtendo mais ganhos, inclusive
dos lucros coloniais, e tendo mais condições
de investir na utilização do
trabalho manual e na alteração
das tecnologias. O desenvolvimento da tecnologia
agrícola nas propriedades arrendadas
pelos burgueses leva ao êxodo rural,
tornando disponível mão-de-obra
em massa para os empreendimentos nas cidades
que já são industriais e com
máquinas, surgindo, pela primeira vez
na história, o desemprego em
massa.
Em 1780, na Inglaterra, um cidadão chamado
Ludd, desesperado com as condições
de trabalho, que chegam à jornada de
20 horas por dia, se põe a martelar
as máquinas. No início do século
19, surgem "luddistas" em grande
número, que destroem as máquinas
a seu alcance, com o fim de reduzir o desemprego,
pois sem máquinas haveria necessidade
de mais mão-de-obra. Uma lei inglesa
de 1810 impõe a pena de morte não
só para o luddismo, como também
para o associativismo entre os trabalhadores;
na Inglaterra o associativismo só foi
liberado e regulamentado em 1868; na França,
em 1884.
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Fundada
em 1864 a Associação Internacional
dos Trabalhadores, cuja principal
figura era Karl Marx. Em 1889
foi estabelecido o 1º de maio
como Dia Mundial dos Trabalhadores.
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Para esse reconhecimento dos direitos
dos trabalhadores contribuíram duas situações:
de um lado, a preocupação dos
próprios empresários com a situação
de seus empregados, de outro lado a crescente
mobilização dos operários,
com greves de massa e conflitos sangrentos,
que culminou com a fundação em
1864 da Associação Internacional
dos Trabalhadores, em que teve papel relevante
o teórico comunista Karl Marx. Desde
1844, na Inglaterra, na localidade de Rochdale,
surgiram as primeiras cooperativas de trabalhadores,
no ramo de tecelagem. Em 1886, em Chicago,
nos Estados Unidos, a partir de 1º de
maio, houve manifestações para
reduzir a jornada de trabalho de treze para
oito horas, e houve confrontos entre manifestantes
e policiais, com mortes em ambos os lados.
Alguns manifestantes foram julgados responsáveis
pelos distúrbios e condenados ao enforcamento.
Em 1889, a Associação Internacional
dos Trabalhadores estabeleceu o 1° de maio
como Dia Mundial dos Trabalhadores, e a data
só não é reconhecida nos
próprios Estados Unidos, onde só tem
sido comemorada por imigrantes.
Diante do descontentamento dos trabalhadores,
em 1890, na Alemanha, surge a primeira
conferência
internacional sobre Direito do Trabalho; no
ano seguinte, o papa Leão 13 lança
a encíclica Rerum Novarum, importante
marco na instituição das leis
trabalhistas. Em 1890, também havia
surgido em Berna, na Suíça, a
Associação de Defesa do Trabalho,
origem remota da Organização
Internacional do Trabalho, prevista no artigo
13 do Tratado de Versalhes em 1919, resultado
da Primeira Guerra Mundial e da Revolução
Russa.
Nessa época, nos inícios do século
20, após greves de massa, muitas vezes
com violência (a situação
no comércio foi sempre mais amena do
que na indústria), surgem os modernos
direitos trabalhistas em geral, como férias
remuneradas, aposentadoria, assistência
médica, normalmente regulamentadas pelo
Estado, e a limitação das horas
de trabalho em particular – o juiz Pistori
nota que já em 1600, em Portugal e no
Brasil, as Ordenações Filipinas
limitavam a oito horas as jornadas diárias
nas fortalezas e nas casas de pólvora;
enquanto nas Missões jesuíticas
do Sul do Brasil o trabalho dos índios
guaranis era limitado a seis horas
por dia.
Nos fins do século 20 surgem tendências
para a flexibilização e a desregulamentação
pelo Estado das condições de
trabalho e para a sua regulação
pelo mercado, por meio de contratos entre as
partes e de esquemas privados de previdência,
aposentadoria e assistência médica.
O emprego assalariado por tempo indeterminado é em
grande parte substituído por contratos
de trabalho específicos, por
tempo determinado.
Também, na visão do juiz Pistori,
ressurgem condições semelhantes
ao regime corporativo medieval, através
do controle do trabalho não mais só por
relações hierárquicas
entre empresários, gerentes e trabalhadores,
mas por equipes de trabalhadores, regime introduzido
pela empresa japonesa Toyota. São os
próprios trabalhadores que recebem em
conjunto uma tarefa e decidem livremente como
cumpri-la, respondendo cada um deles perante
o seu próprio coletivo.
Ao mesmo tempo, surgem formas de trabalho
domiciliar (com o computador) e em
tempo parcial, exatamente
como as mulheres trabalhavam na Idade
Média,
por não poderem ser integrantes das
corporações. Do mesmo modo, finaliza
o juiz Pistori, surge agora em volta dos aglomerados
urbanos de empregados regulares uma periferia
de gente com condições mais irregulares
de empregabilidade, tal como acontecia na Idade
Média, repetindo-se o "esquema
corporativo com periferia".
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