Error processing SSI file
 
 

Que tal uma história bem contada? Tatiana Belinky é uma expert no assunto. Mas dessa vez o mundo da imaginação foi deixado de lado por ela. A escritora soltou o verbo para falar de si mesma e quem ouviu suas histórias foi o jornalista e dramaturgo Sérgio Roveri. É ele o autor da biografia ...e quem quiser que conte outra da Coleção Aplauso (Imprensa Oficial, 240 páginas, R$ 15).

O livro, escrito na primeira pessoa, traz fotos de diversas épocas e, assim como o jeito delicioso de Tatiana contar histórias, fala da carreira e trajetória da escritora. Estão lá a experiência com o teatro, as adaptações da obra de Monteiro Lobato para a televisão, a família, o aprendizado com as crianças, o marido que encontrou debaixo de uma mesa e muito mais.

O autor diz que levou pouco mais de dois meses de conversa para reunir material suficiente. Os encontros eram feitos sempre nas tardes de terça-feira, na casa dela, e duravam, no mínimo, duas horas. Nessa época, o fim das gravações não era sinônimo de fim de papo. "Depois que a segunda fita terminava, ainda ficávamos conversando um pouco, e eu anotando tudo. Nossos encontros sempre terminavam com um cálice de vinho do porto. Era nestas horas, sempre bem-humorada, que a Tatiana contava as histórias mais engraçadas".

O contato mais próximo com a autora deixou o jornalista impressionado. "Várias coisas me surpreenderam nas declarações de Tatiana, mas principalmente a clareza de raciocínio, a memória prodigiosa e seu grande respeito pela cultura nacional. Fiquei impressionado em ver como uma mulher nascida na Rússia, alfabetizada em russo e alemão, se apaixonou perdidamente pelo nosso idioma, pelo Brasil e pelo nosso estilo de vida, a ponto de se tornar uma referência na literatura infantil".

Roveri conta que as lembranças fluiram de maneira prazerosa, com exceção de dois acontecimentos muito dolorosos para ela: a morte do marido Júlio Gouveia e do filho André, ocorrida na França. Tristeza e saudade vieram à tona nesses momentos. "Mas depois, como uma boa e velha russa batalhadora, até nas entrevistas ela deu rapidamente a volta por cima".




Será que alguém vai se interessar pela minha história? Essa era a dúvida de Tatiana Belinky, revelada por Sérgio Roveri na introdução da biografia ...e quem quiser que conte outra. Hoje Tatiana garante que a dúvida desapareceu. "Estou sendo muito entrevistada, filmada, perguntada. As pessoas se interessam e compram o livro. Não posso me queixar. Até no Diário do Comércio eu fui parar!", brinca.

Para quem gosta de um bom bate-papo como ela, a reação do público é bem-vinda. E se a conversa for com alguma criança, melhor ainda. Mesmo que diante de um pequenino fã ela tenha que enfrentar uma saia justa. Durante uma palestra em uma escola, por exemplo, uma menina de nove anos perguntou se ela era a favor do aborto. "Na hora a professora quase desmaiou", conta, rindo. Mas dizer que não sabia era algo que Tatiana não poderia fazer. "Falei que eu era a favor de métodos anticoncepcionais. Ela me agradeceu e voltou a sentar". E explica. "Responder pergunta de criança é uma coisa muito séria. Não pode responder besteira nem gaguejar.

 
Fotos: Leonardo Rodrigues/e-SIM
 

Ou você responde honestamente o que acha sobre aquilo ou diz não sei. Elas são muito inteligentes. Nunca subestime uma criança".

Quem também pensava assim era Monteiro Lobato. "Ele foi um divisor de águas. Deu um jeito na literatura infantil e na atitude do adulto brasileiro em relação às crianças. Ele respeitava as exigências, a sensibilidade, a fragilidade e a força da criança". A obra do escritor também fascinou Tatiana. Ela revela que quando pequena sempre quis ser uma bruxa. O motivo? Elas tinham poder e eram bonitas. "Fada era muito chatinha, elas eram sempre boazinhas". Depois que conheceu Emília, criada por Lobato, o desejo de ser bruxa foi por água abaixo. "Quando cheguei ao Brasil e conheci a Emília pensei 'não quero mais ser bruxa, eu quero ser a Emília'", diz.

O contato de Tatiana com Monteiro Lobato não ficou somente por meio dos livros. Em 1952 ela fez a primeira adaptação da obra dele para a televisão. Hoje comenta sem encanto da versão atual de O Sítio do Picapau Amarelo. "Tenho visto uma vez ou outra e não é a mesma coisa. Aquilo não é Monteiro Lobato. Imagino que se o Lobato fosse vivo faria outras coisas. Ele sempre estava na atualidade, na contestação e no avanço. Ele faria diferente", diz.

 
Fotos: Reprodução
Tatiana Belinky: apaixonada por criança e literatura. Abaixo, entre
Emília e Visconde de Sabugosa em encarnações atuais. Em 1980,
com o marido Júlio Gouveia. E no cantinho especial de sua casa,
chamado por ela de sucursal de escritório.
 

Não foi só o escritor brasileiro que fascinou Tatiana com suas obras. Ela diz que desde cedo vivia rodeada de livros. "Na minha época eles tinham ilustrações bem interessantes, eram obras de arte". A opinião dela sobre o bruxo Harry Potter? "A melhor coisa dessa 'coisa' é que as crianças estão lendo texto, sem muita ilustração. Isso se aprende uma vez e para toda a vida". E completa. "As histórias são interessantes, sobre coisas antigas, bruxaria... Para mim é tudo déjà vu".

O que também parece coisa de bruxo e deixa a escritora encantada é o computador. "É uma maravilha!". Ela considera o contato dos pequenos com a tecnologia benéfico, mas até certo ponto. "Tem que ter um limite, como tudo na vida. Cada caso é um caso. Agora para eu lidar com o computador... só na próxima encarnação. Nessa não vai dar". (RA)

 
   
   
 
Fotos: Leonardo Rodrigues/e-SIM
Fotos: Leonardo Rodrigues/e-SIM
 
© Copyright 2008 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados