No ano do cinqüentenário da Associação
Comercial,
o fim do regime ditatorial de Getúlio
Por Lúcia Helena de Camargo

Boa Vista, 51: lançamento da pedra
fundamental da sede da ACSP, 1934. |
Brasil voltou a ter uma Constituição e 1934 teve um sabor
de vitória para os paulistas. Getúlio Vargas garantiu sua
reeleição manobrando a maioria da assembléia constituinte
e como se viu depois, já sedimentando o caminho que desembocaria
no Estado Novo, os sete anos de ditadura inaugurados em 1937. A política
de intervenção estatal, característica do período
ditatorial de Vargas, tentaria afastar a economia brasileira do liberalismo
defendido pela classe empresarial.
Em 1934, o governo estadual concedeu um local para a construção
da sede própria da ACSP, que assim tornava-se dona do terreno na
rua Boa Vista, em frente ao pátio do Colégio, onde até
hoje funciona sua sede.
O complicado quadro político nacional era compensado pelo acelerado
índice de produção. A média de 1% de crescimento
anual saltou para 11,2% entre 1933 e 1939. No início da década
de 40, São Paulo era a cidade que mais crescia no mundo. Com 1,4
milhão de habitantes, possuía 4.000 fábricas, o maior
parque industrial da América Latina.
A Associação Comercial, presidida por Mário Azevedo,
apoiou para presidência a candidatura de Armando Salles de Oliveira,
então governador paulista. As eleições marcadas para
1938, porém, jamais aconteceram. Foram dissolvidas todas as instituições
do legislativo federal, estadual e municipal, e Getúlio Vargas
manteve seu governo ditatorial até 1945.
A Segunda Guerra Mundial trouxe, como a primeira, vantagens e desvantagens.
A dificuldade em importar insumos industriais fez cair o PIB, mas as receitas
de exportação aumentavam o preço do café quase
duplicou. Esses fatores melhoraram as relações de troca
do Brasil com o resto do mundo, que aumentaram 42%. O empresariado paulista
incrementou suas exportações, colocando mais café
e algodão no mercado norte-americano.
A Associação Comercial ajudou o governo brasileiro a enfrentar
o problema da retenção prolongada de mercadorias no Porto
de Santos, causada pelos afundamento de 36 navios mercantes brasileiros
e da dificuldade imposta à navegação de cabotagem.
Auxiliou ainda no combate ao mercado negro e no abastecimento de São
Paulo, nos anos mais difíceis da guerra. Nos anos 40, a ACSP registra
o maior número de associados de sua história, chegando a
1811 membros em 1943. Nesse ano, sob o comando de Lauro Cardoso de Almeida,
passou a circular o Boletim Semanal, que evoluiria no ano seguinte para
o Digesto Econômico, até hoje uma das principais publicações
da Associação Comercial de São Paulo.
Em dia com a democracia - O Brasil que enviara soldados para lutar pela
democracia na Europa já não aceitava viver sob a ditadura.
Esse era o tom nas ruas e a Associação Comercial, presidida
então por Basílio Machado, deu exemplos de que se preparava
para defender a restabelecimento de um regime que tivesse aprovação
popular. Nas ruas, sucediam-se as passeatas, e Vargas prometia normalizar
a política depois do fim da guerra.
O ano do cinqüentenário da Associação Comercial
marcou o começo do fim do Estado Novo. Surgiram os partidos União
Democrática Nacional (UDN), que reunia grande parte das oposições;
o Partido Social Democrático (PSD), beneficiário da máquina
política do Estado Novo, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
formado a partir da base sindical controlada por Vargas.
Mas o ditador não resistiu e foi deposto no dia 29 de outubro de
1945, pelo Alto Comando do Exército. No dia seguinte, José
Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu a presidência,
para transmiti-la, em janeiro de 1946, ao candidato vitorioso nas eleições,
Eurico Gaspar Dutra. Em fevereiro, começavam os trabalhos da Assembléia
Constituinte. Naquele ano Basílio Machado foi reeleito presidente
da ACSP, que colaborava com o congresso constituinte, encaminhando textos
e sugestões. A economia, porém, permanecia fragilizada pelos
anos de guerra. O pós guerra foi uma época de crises no
abastecimento de gêneros de primeira necessidade, racionamento de
trigo, inflação e propagação do câmbio
negro.
A ACSP se mantinha como interlocutora entre os empresários paulistas
e o governo federal e aumentava sua atuação. Com 2004 associados
em 1944, chegaram a 5.339 em 1947, ano em que enviou representantes à
reunião da Câmara Mundial de Comércio em Montreaux,
na Suíça, que visava restabelecer o comércio entre
os países, interrompido durante a guerra.
O presidente da entidade no período de 1948 a 1949, Décio
Ferraz Novaes, enfrentou os embargos impostos à economia e lutou
pela reforma bancária. As publicações da ACSP seriam
enriquecidas pela transformação do Boletim Diário
e da Carta Semanal no jornal Diário do Comércio.
Em 1948, Vargas foi eleito, e seu governo procurou conciliar interesses.
Assim, alguns antigos dirigentes da ACSP ocuparam cargos importantes no
governo. O presidente da casa no biênio 1950-52, Henrique Bastos
Filho, descentralizou serviços, criando delegacias regionais nos
bairros. Ele participou ainda da Comissão de Salário Mínimo
do Estado e ocupou-se com problemas relacionados ao congelamento de preços,
escassez de produtos alimentícios, financiamento à produção,
licenças de importação e reforma aduaneira. (LHC)
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