Uma entidade cidadã. Desde 1894.


Ao completar 110 anos, ACSP mantém sua tradicional ousadia. Pioneira nas ações de responsabilidade social, agora lança a calculadora do imposto, que expõe as mazelas da tributação.

Por Lúcia Helena de Camargo


Expansão do café estimulou os negócios. Portinari pintou seu 'Café' em 25.

Um século e uma década se passaram desde que no dia 7 de dezembro de 1894 Antônio Proost Rodovalho fundou a Associação Comercial de São Paulo. Nesses 110 anos, a entidade pautou-se pela defesa constante da livre iniciativa e do empreendedorismo e foi inovadora na responsabilidade social. Em alguns episódios, a vocação ficou ainda mais demarcada. Começou com a ajuda aos doentes na epidemia de gripe espanhola e nas medidas destinadas a atenuar os efeitos da carestia entre a população carente logo após a Primeira Guerra Mundial, continuou com apoio às obras educacionais dirigidas por Anália Franco e adesão ao projeto de criação de escolas noturnas. E durante as Revoluções de 1924 e 1932, organizou serviços de assistência e procurou garantir a normalidade no abastecimento de alimentos.

Degrau - Nos dias atuais, um dos projetos menina-dos-olhos da Associação é o Movimento Degrau (Desenvolvimento e Geração de Redes), iniciativa conjunta da ACSP, Facesp e da Rede Brasileira de Entidades Assistenciais Filantrópicas (Rebraf), que já encaminhou para o trabalho mais de 100 mil jovens, antes sem oportunidades.

O empresário Guilherme Afif Domingos, que em 2003 assumiu pela segunda vez a presidência da ACSP, é também defensor intransigente da transparência da cobrança e uso dos tributos. E cunhou um slogan "Pago, logo exijo". No dia 1º de dezembro deste ano, Afif comandou o lançamento da calculadora do imposto, uma ferramenta na internet que permite ao cidadão estimar o total de tributos pagos (veja reportagem na página 15). Antes disso, em maio, reuniu-se no Planalto com o presidente Lula, para a entrega do projeto Empreendedor Urbano Pessoa Física.

Efervescência do café - A criação da ACSP foi favorecida pelo clima de efervescência do final do século 19. A expansão da lavoura cafeeira no interior do Estado, a proximidade com o porto de Santos e o crescente aumento das exportações estimularam o surgimento dos bancos, a multiplicação das indústrias e do comércio e das obras públicas. Os barões do café, com objetivo de investir em atividades urbanas, procuram se instalar em São Paulo. Por reunir considerável poder político, em uma conveniência recíproca, unem-se aos empresários paulistanos. A nobreza rural e os capitães da indústria alavancavam a economia da metrópole. Os conceitos republicanos ganhavam as mentes dos cidadãos e o império entrava no ocaso.

Encilhamento - Um ano depois de proclamada a República, em 1890 o surto industrial avançava e a lavoura de café prosperava, mas veio o Encilhamento: um arrocho governamental que durou de 1889 a 1892 e resultou em falências e inflação. As classes produtoras de São Paulo decidiram então se unir. No segundo semestre de 1894, Proost Rodovalho reuniu as lideranças empresariais na Rua da Quitanda, nº 10. Nascia a Associação Comercial. A ata inaugural registra mais de 300 sócios.

Malha ferroviária - Quando a primeira diretoria foi eleita, o território paulista contava com 2.961 quilômetros de estradas de ferro. Dez anos antes, eram apenas 1.541. O aumento da malha deve-se a empreendedores como Rodovalho, que teve papel decisivo na construção de estradas de ferro. A ampliação das linhas ferroviárias, porém, não refletia uma nova onda de dificuldades, que levou muitos dos primeiros associados a abandonarem a ACSP. A grande crise cafeeira atirou o Estado em um período de depressão econômica.
Em 1894 a cidade já reunia os componentes que a tornariam o eixo da economia nacional.

Com 150 mil habitantes, contava com um parque fabril de 121 estabelecimentos, que empregavam 5.670 operários. Ao longo daquele ano, porém, 11 fábricas fecharam suas portas.

Na esfera do poder federal, na época sediado no Rio, a ACSP travou sua primeira batalha ao solicitar a instalação de uma alfândega seca em São Paulo, destinada à liberação de documentos, antiga aspiração dos homens de comércio. Menos de um ano depois, seria inaugurada a alfândega paulista.

Em 1896, ocorreu a primeira troca de presidentes, saindo Proost Rodovalho e entrando Conde Prates, que encaminhou representação ao governo, protestando contra o projeto de pagamento em ouro dos direitos aduaneiros. Ao final de seu mandato, em 1898, começaria aquela que ficou conhecida como a Crise de 1900, causada por uma conjunção de fatores que incluíram a superprodução de café e a política deflacionária adotada pelo governo Campos Salles. A terceira diretoria da ACSP, sob presidência de Luís de Oliveira Lins de Vasconcelos, teve como principal missão tentar recuperar as finanças da instituição e ajudar os empresários. Mas a época era difícil. A recessão atingia diversos setores da economia.

Em São Paulo, 173 estabelecimentos da região central fecharam as portas e 16 firmas passaram por liqüidações forçadas. Entre 1890 e 1900, tramitavam 647 processos de falência no fórum da capital. O quadro de associados cai drasticamente. Ao final, sobrou uma sombria crônica de fugas e até suicídios de empresários. Em meio à avalanche, em 1901 foi eleito presidente da casa Francisco Nicolau Baruel. Sua principal missão seria sanar as contas da instituição.

 

Boas novas. Mercado de café 'online'.


Centro da cidade no início dos anos 20

Ao completar dez anos, a ACSP começava a se revigorar com a volta dos associados cujos negócios melhoravam e daqueles que buscavam orientação para en caminhar seus empreendimentos. A infra-estrutura também foi renovada, com a transferência da sede da rua do Comércio para instalações mais modernas, na rua 15 de Novembro.

Campanha de sócios - Com a inauguração da ligação telefônica com Santos, foi possível obter de imediato informações sobre o mercado de café e as oscilações do câmbio. O presidente à época, Augusto Carlos da Silva Telles, encaminhou uma campanha de sucesso para amealhar novos sócios.

Com nova superprodução de café em 1906, representantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro se reuniram, em 27 de fevereiro, e firmaram o Convênio de Taubaté, que estabelecia pontos básicos de uma política de valorização do produto. Além desse episódio, os empresários paulistas viram seu poder de associação resultar em proteção quando eclodiu a greve de 90 mil operários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. A paralisação acabou após a intervenção conciliadora da Associação Comercial de São Paulo.

Civis e paulistas - O Brasil atravessava período de calma. Ultrapassados os turbulentos anos da implantação da República, com a renúncia de Deodoro da Fonseca e o autoritarismo de seu vice e sucessor, Floriano Peixoto, seguiram-se três administrações civis e paulistas, com Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves.

A partir de 1906, sob a presidência do mineiro Afonso Pena, foram asseguradas liberdades democráticas, reorganizados Exército e Marinha, desenvolvida a rede telegráfica e construídas algumas novas estradas de ferro.

Em 1910, com o fluminense Nilo Peçanha na Presidência da República (Afonso Pena morrera no cargo, em 1909), os bons preços do café se estabilizaram. São Paulo voltava à prosperidade. A onda favorável se estendeu por todo o mandato do novo presidente, Hermes da Fonseca, que ficou no governo até 1914. E a ACSP tinha ainda mais um motivo para comemorar: Lins de Vasconcelos, que fora presidente da entidade, acaba de tomar posse como governador do Estado.

Assistência aos carentes - A Primeira Guerra Mundial fazia sentir seus efeitos no mundo todo. A Europa diminuía cada vez mais sua produção industrial e atividade comercial. Foi a chance do Brasil, acostumado a importar, mostrar ao mercado interno as qualidades do produto nacional. Assim, a indústria brasileira cresceu em um ritmo vertiginoso. No fim da guerra, em 1918, o índice da produção era o triplo do verificado em 1911, ano que marca o fim da longa crise.

Fiação - O presidente da Associação Comercial à época, Francisco Nicolau Baruel, defendeu a indústria de fiação e tecelagem, apoiou a indústria madeireira em sua disputa com o truste que dominava a Estrada de Ferro São Paulo-Rio e contribuiu para a propaganda dos produtos nacionais junto às câmaras de comércio estrangeiras.

Notas promissórias - Nessa época surgiu o Centro do Comércio e Indústria, cujo principal objetivo era pôr fim às falências forjadas e recobrar a chamuscada credibilidade dos empresários. Outro assunto que movimentou os homens de negócios na época foi o das contas assinadas. Antiga inspiração do comércio e da indústria, tratava-se da assinatura que o empresário deveria apor sobre selo das contas mercantis de vendas a prazo, equiparando-as a notas promissórias.

A administração de Baruel foi marcada ainda pela preocupação social. Baruel promoveu a aproximação de comerciantes estabelecidos em regiões afastadas do País e propôs medidas destinadas a atenuar os efeitos da carestia entre a população carente. A ACSP apoiou as obras educacionais dirigidas por Anália Franco e aderiu ao projeto de criação de escolas noturnas e levantou fundos para as famílias de marinheiros brasileiros envolvidos nas operações de guerra. (LHC)