Partícipe da história

Por Guilherme Afif Domingos

Associação Comercial de São Paulo – ACSP – completa 110 anos de lutas em defesa da livre iniciativa e pelo desenvolvimento político, econômico e social do Brasil. Nessa longa trajetória, iniciada em 7 de dezembro de 1894 pelo coronel Antônio Proost Rodovalho e um grupo de empresários paulistanos, a entidade teve participação ativa em todos os episódios importantes da vida da cidade de São Paulo, do Estado e do País.

Sua atuação não se limitou a posicionamentos, críticas e sugestões aos governantes, pautando-se também por ações que marcaram sua caminhada não apenas em defesa dos interesses da classe empresarial e do desenvolvimento da economia, mas, também, por ações concretas em prol da coletividade.

Muitos episódios poderiam ser mencionados para ilustrar a atuação da Associação desde sua fundação, como a luta pela instalação de uma "alfândega seca" em São Paulo, a campanha contra as falências fraudulentas que ameaçavam o comércio, as sugestões para a criação das "letras assinadas", as conhecidas duplicatas, a instalação de um hospital e a assistência às vítimas da "gripe espanhola" em 1918. Ressalta-se, ainda, sua contribuição para o fim da grande greve operária de 1919, quando apresentou propostas avançadas no plano social, a organização da vida da cidade, ocupada pelos revoltosos em 1924, procurando evitar o bombardeio de São Paulo ( o que acabou ocorrendo), e o envolvimento efetivo na Revolução Constitucionalista de 1932, quando foi responsável por todo o apoio logístico às tropas paulistas.

A atuação da Associação Comercial de São Paulo em 1924 e 1932 custou a seus presidentes José Carlos Macedo Soares e Carlos de Souza Nazareth a prisão e o exílio, mas não a desviou de sua trajetória em defesa dos interesses nacionais Ao longo dos anos a entidade apresentou importantes contribuições para o aprimoramento institucional do País – seja para a Constituição de 1945, para a modernização da legislação econômica de 1964 a 1967, para a Constituinte de 1988 e a revisão constitucional de 1993, além de uma luta permanente contra a burocracia, a tributação excessiva, a malversação de recursos públicos e a intervenção estatal na economia.

Para desempenhar suas funções a ACSP procurou sempre ajustar sua estrutura de maneira a atender às necessidades de seus associados e às dos empresários em geral.

A partir da constatação de Oliveira Viana, de que era baixo o espírito associativo do povo brasileiro, entendeu a diretoria da entidade, conforme expresso no Relatório de 1924, que "era necessário procurar atrair os empresários pelos seus interesses para poder defender seus ideais". Isso a levou a criar, naquele ano, um Boletim Informativo, (que tornou-se o Diário do Comércio), porta voz da classe empresarial e que deu origem ao departamento de informações comerciais, destinado a dar mais segurança aos negócios.

Em 1944 foi criado o Instituto de Economia, que leva o nome de Gastão Vidigal, ex-presidente da Associação, com o objetivo de estimular o "estudo sistemático da economia e pesquisar os fatores que podem conduzir o País ao desenvolvimento" . No ano seguinte, foi lançada a revista Digesto Econômico, que se constituiu por muitos anos no principal veículo para debate dos principais temas políticos, econômicos e sociais do Brasil.

Em 1951, ao constatar que a expansão da cidade exigia a descentralização de suas atividades, a Associação Comercial de São Paulo criou as primeiras Sedes Distritais – Pinheiros, Penha e Lapa –, atualmente em número de 15, antecipando-se ao Poder Público municipal, fixando sua presença em todas as regiões da capital. Em 1955 surgia o Serviço Central de Proteção ao Crédito, o SCPC, que foi, e ainda é, ferramenta fundamental para a expansão e a consolidação do crédito ao consumidor, agora integrado à Rede de Informações e Proteção ao Crédito, com cobertura nacional das informações.

A prestação de serviços exige grandes investimentos, a fim de mantê-la sempre atualizada para acompanhar as crescentes necessidades de seus associados em uma economia cada vez mais competitiva. Tudo isso, porém, sem descurar de sua função principal, que é a defesa da livre iniciativa e da economia de mercado, não como privilégio para poucos, mas como o instrumento mais eficiente para levar os benefícios do progresso para todos.

Não limita a Associação sua atividade apenas aos aspectos econômicos da vida nacional, sendo um fórum permanente de debate político e atuando ainda no plano social, através do Movimento Degrau, cujo primeiro projeto, o de Convivência e Aprendizado, busca colocar cerca de 120 mil adolescentes para estágio assistido nas empresas, oferecendo perspectivas de futuro à juventude e representando um amplo programa de distribuição de renda promovido pelo setor privado. Dentro dessa meta, 59 mil adolescentes já estão colocados.

Para comemorar os 450 anos de São Paulo e os seus 110 anos, a Associação desenvolveu em 2004 uma intensa programação, com a intenção de resgatar os valores cívicos e a história de São Paulo, incrementar a participação dos Jovens Empresários à vida da entidade e conscientizar os consumidores de sua condição de contribuintes cidadãos. Para tanto, trouxe a São Paulo os originais das Cartas de Anchieta, que ficaram expostos na Pátio do Colégio, berço da cidade. Ali também montamos o "Auto do Empreendedor", que conta a história empreendedora paulista "de Anchieta aos novos tempos", quando homenageamos sete empreendedores que deram grande contribuição ao desenvolvimento da capital paulista: Antônio Ermírio de Morais, Olavo Setúbal, Dorina, Samuel Klein e Valentim Diniz, Adib Jatene e José Martins Pinheiro Neto.

Realizamos, juntamente com o Tribunal de Justiça, cerimônia em comemoração à Revolução Constitucionalista de 1932, na sede do TJ, e solenidade no Palácio dos Bandeirantes no "Dia do Comerciante".

Promovemos o Congresso Brasileiro dos Jovens Empreendedores, que contou com mais de 1.400 participantes e se constituiu em um marco na história desse fórum. Realizamos em São Paulo o Feirão do Imposto, uma iniciativa dos Jovens Empreendedores da Associação Comercial de Joinville, e demos dimensão nacional ao evento, que continua a repercutir por diversas cidades de todas regiões do País. Elaboramos, em parceria com o IBPT, a Calculadora do Imposto, que permite ao cidadão, qualquer que seja sua fonte de renda, saber quanto paga de tributos e quantos dias do ano trabalha para sustentar os governos em seus vários níveis e esferas. Com isso, estamos mostrando à população sua condição de contribuinte, que lhe dá o direito de exigir a contrapartida, pelo muito que paga de impostos.
O grande desafio que a Associação Comercial de São Paulo enfrenta, ao completar 110 anos de existência, é o de se preparar para manter, no futuro, sua trajetória de partícipe da história de São Paulo, do Estado e do Brasil.