O futuro que Rodovalho tirou do papel


Na euforia do fim do século 19, Antônio Proost Rodovalho fez de tudo: fabricou cal e tijolos, administrou ferrovias, ocupou cargos públicos, criou a Melhoramentos e fundou a Associação Comercial

Por Heci Regina Candiani


Rodovalho (em pé), com a esposa e o filho. Coronel criou a Melhoramentos. Na foto, as primeiras máquinas.

No dia 25 de janeiro de 1895, a cidade de São Paulo completava 341 anos. Na rua da Quitanda, número 10, o movimento da elite paulistana era intenso. Estavam presentes embaixadores e cônsules de países vizinhos, banqueiros, políticos, agricultores, comerciantes e os arrojados investidores das primeiras indústrias brasileiras. Aquela era a melhor data para instalar a Associação Comercial e Agrícola de São Paulo, depois ACSP, fundada pouco mais de um mês antes, em 7 de dezembro de 1894.

Muitos dos personagens reunidos na ocasião tinham se esforçado por dez anos para chegar àquele momento, entre eles, o coronel Antônio Proost Rodovalho, que presidia o encontro. Rodovalho deu início à cerimônia às 13 horas, oferecendo sua direita ao presidente do estado de São Paulo, Bernardino de Campos, e sua esquerda ao secretário do Interior, Cesário Motta.

"São Paulo nunca deixará de crescer, de prosperar, de enriquecer. A sua sorte e o seu destino não dependem só de homens que trabalham, mas também dos elementos naturais de que dispõe e que apenas começam a ser explorados". Frases como essas faziam parte do discurso de Rodovalho.

Figura de destaque do cenário brasileiro do fim do século 19, Rodovalho era, ele próprio, o empreendedor paulistano que mais interesse tinha em ver o potencial produtivo da região prosperar e estava comprometido com o processo de industrialização do País. Como diz o historiador Hernani Donato, "não havia em São Paulo empreendimento que o dispensasse".

A São Paulo do fim do século 19 era uma próspera província com 121 estabelecimentos fabris com motores movidos a gás e petróleo, 5.670 operários e pouco mais de 100 mil habitantes. A economia local era quase totalmente ligada às crises e avanços da lavoura cafeeira. Na medida em que aumentavam as exportações, mais prosperavam o comércio e o setor financeiro. Os negócios atraíam as pessoas e havia grande necessidade de obras e investimentos públicos.

Atento a tudo isso, Rodovalho enxergava as oportunidades que esse crescimento representava. Nascido em 27 de janeiro de 1838, em São Paulo, Antônio Proost Rodovalho começou a trabalhar cedo. Aos 13 anos, já atuava no comércio. Aos 25, era sócio de companhias atacadistas de café, açúcar e sal em São Paulo, Santos e Campinas, e já fazia negócios de importação e exportação. O empresário também tinha investimentos na fábrica de tecidos Anhaia & Cia, na Serraria Sydow e na Companhia de Gás de São Paulo.

Em 1875, quando o problema de abastecimento de água da cidade já havia se tornado insustentável e era debatido nos jornais, o empresário investiu na Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, que daria origem à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

O primeiro presidente da Associação Comercial contava com um grande prestígio: foi vereador diversas vezes, tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia e alcançou o grau 33 na Loja Maçônica Capitular Amizade. Republicano convicto, alinhado ao Partido Republicano Paulista, o empresário também havia apoiado as investidas do Exército Brasileiro durante a Guerra do Paraguai (1864 - 1870), o que lhe rendeu, em 1868, o título de coronel.

Cal e cimento - – Um dos anos mais emblemáticos das atividades empresariais de Rodovalho foi o de 1877. Em terras de sua propriedade, às margens do rio Juquery, o coronel havia verificado a existência de minerais ricos em carbonato de cálcio. Foi neste ano que começou a construir os dois fornos da propriedade para produzir cal. A fazenda Caieiras também produzia cimento, louça e abrigava uma serraria. Imigrantes italianos, anteriormente empregados na agricultura, foram fixados no local e 180 casas foram erguidas para os futuros funcionários da indústria. Eram as primeiras moradias para trabalhadores livres no País. Mas a cal era distribuída por um processo arcaico. Os sacos eram levados em lombo de mula da fazenda para a estação Perus da São Paulo Railway (SPR), conhecida na época como "a Inglesa" e que foi a primeira estrada de ferro em solo paulista.

 

Empreender. Para ver o crescimento da cidade.


A fábrica de cal, em Caieiras.
E um time de funcionários da fábrica de papel, em pose de 1900.

Com esforço e lançando mão de seu prestígio como empreendedor, Rodovalho conseguiu fazer uma sociedade com os investidores ingleses da São Paulo Railway e fez construir uma parada para os trens em Caieiras, que começou a operar em 1883, agilizando a distribuição de cal. Enquanto buscava melhorias para a fazenda, em outras terras Rodovalho gerenciava uma cerâmica que, anos depois, em 1886, chegaria a produzir entre 6.000 e 7.000 tijolos e 5.000 telhas por dia.

Foi também em 1877 que as atividades da Companhia Cantareira começaram a dar resultados concretos e foi construído o primeiro sistema de abastecimento da cidade, com captação de águas da Serra da Cantareira. Em 1878, a companhia iniciava a construção do reservatório de água da Consolação. A pedra fundamental foi lançada com a presença de dom Pedro II que, alguns anos mais tarde, em 1886, seria recebido, junto com a imperatriz Leopoldina, no palacete de Rodovalho, na Penha.

Melhoramentos – Em 1887, com a Cantareira em operação, Rodovalho percebeu que São Paulo e os municípios vizinhos careciam não apenas de água, mas também de papel. Na época, existiam duas fábricas de papel no estado, em Salto e Osasco. A produção, entretanto, era insuficiente para atender a demanda que crescia, especialmente pelo desenvolvimento da imprensa e do comércio.

Em 1889, o coronel Rodovalho trouxe técnicos alemães para montar, na fazenda Caieiras, as máquinas que impulsionariam a produção de papel. No ano seguinte, o coronel adquiriu a Companhia Melhoramentos de São Paulo que, na época, atuava em vários setores industriais. A idéia de uma companhia engajada no processo de crescimento da cidade e voltada à produção de papel, material para construção e importação de equipamentos que trouxessem melhorias urbanísticas está relacionada não apenas ao nome escolhido para a empresa, mas também à filosofia de negócios defendida por Rodovalho. A Melhoramentos iniciou as atividades com 230 operários e produzia, nos primeiros anos, 40 metros de papel por minuto, seis toneladas por dia e uma variedade de tipos que ia do papel de seda ao papelão.

Trens – Em 1895, Rodovalho estava envolvido com a Primeira Exposição Industrial de São Paulo, que aconteceu na biblioteca da Faculdade de Direito do largo São Francisco. Estavam expostos círios, velas, ferragens, graxas, peneiras de arame, utensílios de ferro, couros da fábrica de curtume, um ventilador de ferro, a máquina lotérica Independência, malas de madeira, zinco e de sola, e as imitações de telhas francesas da fábrica gerenciada por Proost Rodovalho.

Com as indústrias em funcionamento, Rodovalho tinha ainda um desafio: transportar os produtos. A Melhoramentos operava em ritmo contínuo e era preciso encontrar um modo de escoar o papel. Na época, os trens era usados preferencialmente para o transporte de café e os exportadores do produto, na maioria europeus, tinham o apoio dos ingleses para dominar os fretes. Assim, por anos, a fábrica de papel teve dificuldades em embarcar o produto e só em 1897 definiu-se a construção de uma estação em Caieiras.

A participação acionária na São Paulo Railway abriu o caminho para que Rodovalho passasse a investir em transportes. Assim como acontecera com a Fazenda Caieiras, Antônio Proost Rodovalho havia sido surpreendido com o que encontrou em uma outra propriedade, a Fazenda Santo Antônio, nas proximidades de São Roque, onde hoje se localiza o município de Alumínio. As prospecções realizadas no terreno indicaram a existência de reservas de calcário, jazidas de mármore, pedra calcária, pedra de cimento e granito.

Rodovalho decidiu, então, instalar no lugar uma fábrica de cimento, com capacidade para 25.000 toneladas/ano. Sua iniciativa é considerada a primeira tentativa de fabricação do cimento portland no País, a partir da mistura de calcário e argila, calcinada em fornos. A Usina Rodovalho operou de 1888 a 1904, quando foi arrematada pela A. R. Pereira & Cia até que, em 1918, a Votorantim assumiu a produção.

O coronel sempre combinou a atuação como empresário com as atividades de homem público. Em 1889, ano da esperada proclamação da República, ele presidia a Caixa Econômica e Monte de Socorro de São Paulo. Em 1875, havia sido diretor da instituição. Na mesma época, dirigia a Companhia São Paulo-Rio de Estrada de Ferro e a Companhia de Estradas de Ferro Ituana.

Graças à atuação em instituições públicas, Rodovalho colecionava amigos e parceiros de negócios. Sua residência, na Penha, era ponto de encontro de empresários e da elite econômica da cidade. Ali foi gestada a idéia de uma associação comercial.

Desde 1892, a fábrica cimento da Fazenda Santo Antonio distribuía o cimento "Rodovalho". Mas as limitações para o negócio eram, mais uma vez, o transporte pouco eficiente. Com a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, a fábrica ganhou uma estação ferroviária, a Estação Rodovalho, que começou a operar em 1895.

Mas, se a produção de cimento ia bem, os negócios de Rodovalho entravam em declínio na Fazenda Caieiras. Em 1895, uma enchente arruinou 311 toneladas de papel produzido. Como todos os empresários paulistas, Rodovalho era também afetado pela crise do setor cafeeiro na última década do século. Seus empreendimentos contavam com acionistas do setor que, em dificuldades, pouco puderam contribuir para o desenvolvimento das indústrias que ele empreendera, especialmente a Companhia Melhoramentos que, embora moderna e produtiva, precisava de injeção de recursos. Com poucos recursos para manter a produção, Rodovalho recorreu ao Banco de Depósitos e Descontos do Rio em busca de um empréstimo.

Enquanto tentava administrar da melhor forma possível os negócios na fazenda, Rodovalho também se envolvia em serviços públicos na capital. Além das companhias de água e gás, ele entrara, em 1893, para o setor de transportes com a criação da empresa Rodovalho Júnior & Cia, em sociedade com seu filho, dedicada ao aluguel de carruagens, carros para noivas e serviços funerários. Com uma oficina própria na rua da Mooca, que oferecia serviços de mecânica, funilaria e pintura para automóveis, a empresa passou a importar carros franceses Renault, Berliet e Peugeot, italianos da Fiat, ingleses da Daimler e o modelo norte-americano Cunningham. A empresa obteve a concessão municipal para administrar o serviço funerário do município, por meio de contrato válido até 1931, prorrogado depois até 1941. Nessa fase, o serviço funerário foi modernizado.

Em 1897, Rodovalho era presidente da Câmara Municipal de São Paulo e foi o responsável por assinar o documento que, segundo historiadores, marca o início do sistema de transporte coletivo de São Paulo. O objetivo era regulamentar o transporte de passageiros e cargas "em carros apropriados, mediante tabela e preços previamente aprovados" pela intendência de Polícia e Higiene da cidade. O coronel foi um dos homens que mais vezes assumiu a presidência da Câmara, nos anos de 1873, 1896, 1897, 1898, 1899.

Prosperidade – Os anos de 1898 a 1900 foram particularmente difíceis para Rodovalho, especialmente porque o andamento dos negócios se chocava com seu caráter de empresário arrojado. Na Fazenda Caieiras, a produção de papel estava em uma fase ruim e, após os empréstimos obtidos junto ao Banco de Depósitos e Descontos do Rio, o empresário não teve outra alternativa a não ser vender o empreendimento.

Pouco depois, em abril de 1900, ele deixou a diretoria da Melhoramentos e decidiu concentrar seu esforços em outros negócios, como a Rodovalho Júnior & Cia até sua morte, em 30 de dezembro de 1913.

Apesar de não ter construído uma grande fortuna, Rodovalho movimentou uma quantidade enorme de recursos em todas as atividades que empreendeu e abriu o caminho para companhias que viriam a prosperar no século 20.

Um exemplo disso é a própria Melhoramentos que, em 1906, se juntou ao parque gráfico instalado pelos Irmãos Weiszflog, na rua Líbero Badaró. A partir daí, a companhia foi modernizada, passou a operar também no segmento editorial e se tornou uma das maiores empresas brasileiras dos dois setores. A fazenda Santo Antonio também se tornou um dos maiores negócios do País. Em 1921, foi adquirida pelo imigrante português Antônio Pereira Ignácio, que em 1936 passou a comercializar o "Cimento Votoran".