Por Geraldo Mayrink


O sempre astucioso Steven Spielberg, um dos produtores de A Conquista da Honra, faz uma avaliação admirada sobre o trabalho do diretor Clint Eastwood: “Com grande variedade de temas e tipos de filmes, não tem comparação com o que se faz no cinema de hoje”. Como de hábito, sabe o que diz. Para ele, o “estranho sem nome”, título de um dos filmes de Eastwood, jamais proclamou o próprio talento nem se impressionou consigo mesmo diante da consagração mundial, permanecendo o que sempre foi, com seu rosto gelado de pistoleiro em tantos faroestes, quase um caipira se comparado à atual geração de cineastas não tão bons como ele mas muito mais pretensiosos e sofisticados. Tanto que não se surpreendeu com a franqueza de Eastwood quando este o abordou numa festa e simplesmente pediu que lhe desse os direitos para filmar o romance de James Bradley, comprados por Spielberg.

Talvez por estar recém saído da guerra de O Resgate do Soldado Ryan, ele topou na hora, para que Eastwood fizesse sua própria guerra, em troca de associar-se como produtor. Pelo que está na tela, os dois homens saíram ganhando, com a vantagem que A Conquista da Honra e O Resgate do Soldado Ryan são filmes incomparáveis.

Este tem um requinte mórbido e uma agudeza intelectual que não são estranhas ao veterano cowboy. Trata de um episódio histórico e de uma fotografia. O episódio é a sangrenta batalha de Iwo Jima, em fevereiro de 1945, quando milhares de americanos e japoneses se trucidaram pela posse de uma pequena ilha de areias negras e cheiro de enxofre. A fotografia, de Joe Rosenthal, mostra cinco soldados americanos cravando sua bandeira no monte Suribachi e se tornou uma das imagens mais famosas de todos os tempos, mais lembrada e reverenciada que a própria batalha. A magia da foto era tão grande que mães americanas imaginaram reconhecer seus filhos, que não estavam nela. O ministro da Marinha quis ficar com a bandeira como troféu, mas um coronel queria guardá-la em sua unidade e ordenou que se fincasse outra, maior, no lugar da original. Um repórter quis saber de Rosenthal se a foto era posada e ele, pensando que a pergunta se referia a uma outra fotografia, obviamente posada, confirmou. Este, segundo levantamento da bandeira, gerou enorme polêmica e o fotógrafo foi acusado de manipular uma imagem do que tinha visto mais cedo. Rosenthal, que morreu no ano passado, aos 94 anos, disse: “A foto triunfal, representando a primeira conquista de tropas americanas em território japonês, atingiu emocionalmente o front e ressoou profundamente na vida americana. De todos os elementos da fotografia, meu papel foi o menos importante. Que diferença faz quem tirou a foto? Fui eu, mas os fuzileiros é que tomaram Iwo Jima”.

Algumas cenas foram rodadas no próprio local, mas a parte mais pesada, provocando enorme devastação, se deu na remota penísula vulcânica de Reykjanes, na Islândia, com resultados previsíveis e horrivelmente espetaculares. Mas o filme não é só sobre isso. Uma outra missão aguardava os três sobreviventes da foto com a bandeira quando voltaram à pátria para desempenhar seus papéis de heróis, para os quais não estavam preparados, percorrendo o país como garotos-propaganda, vendendo bônus de guerra.

Fotos: Warner Bros/Divulgação

Tiveram o fim de todos os anônimos, como médico John “Doc” Bradley (Ryan Philippe) e o mensageiro do campo de batalha René Gagnon (Jesse Bradford) que preferia entregar recados a pegar em armas. O meio índio Ira Hayes (Adam Beach), tornou-se alcoólatra, caminhou a pé por dois mil quilômetros de estrada e morreu de frio. James Bradley, o autor do romance, filho do soldado John Bradley, um dos cinco eternizados pela foto de Rosenthal, quis restaurar a biografia do pai. Ele diz: “Nunca quis escrever um livro. Queria descobrir porque meu pai nada dizia. Decidi escrever quando percebi que todo mundo conhecia a foto, mas ninguém conhecia a história”. Eastwood comenta, com certa amargura: “Na maioria dos filmes de guerra com que cresci, havia os bandidos e os mocinhos. A vida não é assim, a guerra não é assim. Esses filmes não falam de ganhar e perder. Falam sobre os efeitos da guerra sobre os homens e sobre aqueles que deixam suas vidas muito antes da hora”. Ele fala “filmes” no plural porque a guerra continua e aqui se entende melhor o que Spielberg quis dizer ao mencionar que o trabalho de Eastwood não tem comparação com o que se faz hoje. Tanto que já está pronto e estréia daqui a duas semanas Cartas de Iwo Jima, que ele rodou quase simultâneamente com este, e que é o episódio de Iwo Jima do ponto de vista japonês. Aos 76 anos, o calejado "cowboy do espaço", título de outro filme seu, parece ter ainda um fôlego de dragão.

 
A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, EUA, 2006, 132 minutos). Direção: Clint Eastwood . Com Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, John Slattery, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker.


Clássicos de Clint. Para ver em casa.


ReproduçãoA Coleção Dirty Harry, em que Cllint aparece como o justiceiro implacável, é uma de suas melhores antologias. A caixa vem com cinco filmes, de 1971, 1973, 1976, 1983 e 1988. Direção de Don Siegel, Ted Post e James Fargo. Há muito livre do estigma de durão mal-encarado, Clint tem realizado filmes densos, em que os conflitos psicológicos e a fragilidade humana são chaves para reflexões sobre o destino. É o caso de As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County); Bird (idem); Os Imperdoáveis (Unforgiven); Cowboys do Espaço (Space Cowboys); Dívida de Sangue (Blood Work); e o oscarizado Menina de Ouro (Million Dollar Baby), drama em que a violência extrema em nenhum momento é mero exercício estético. É inesquecível o desempenho de Hillary Swank, Morgan Freeman e do próprio Clint. Mas a remissão ao Clint do faroeste feito fora dos EUA é obrigatória. Afinal, foi o diretor italiano Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares) que apostou em Clint para compor uma insuperável trilogia barroca e refinada do spaghetti-western. (MMJ)


VIOLêNCIA, JUSTIÇA E SOLIDÃO


O Cavaleiro Solitário (Pale Rider), de 1985, é um dos melhores faroestes de Clint. Em DVD, com áudio remasterizado e imagem melhor definida, realça o cenário, os closes, os efeitos e iluminação. No elenco, além de Clint, Michael Moriaty e Carrie Snidgrass. Vale a pena rever. (MMJ)
 
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