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Por Márcia Rodrigues
Jacques
Dermathon/AFP  |
| Mulher carrega sacolas
de compras no primeiro dia de liquidação
de verão das lojas francesas |
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O sistema de proteção ao crédito em outros
países tem uma finalidade mais de controle social do que
punição aos maus pagadores. Nos Estados Unidos, por
exemplo, onde as compras a crédito representam praticamente
100% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, o sistema segue
os princípios que a lei de falências do Brasil aplica
no caso da quebra de empresas.
Aqui, um empresário endividado pode pedir a chamada recuperação
judicial (antiga concordata) e pede prazos maiores para quitar
suas contas com os credores. Só que o consumidor não
dispõe desta mesma facilidade. "No Brasil, o sistema
de proteção ao crédito é mais para
punir os maus pagadores do que recuperar a dívida e a estabilidade
financeira do consumidor", comenta Brunno Pandori Giancoli,
advogado do Instituto Jurídico da Associação
Comercial de São Paulo (ACSP), que fez um trabalho sobre
o super endividamento e a forma como os países atuam na
recuperação e proteção ao crédito.
Newton
Santos/Digna Imagem  |
| Marcel Solimeo, economista e diretor do Instituto Gastão Vidigal |
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Refinanciamento
O super endividamento é constatado quando o consumidor adquiriu
um volume de dívidas insuportável para pagar e somente
o refinanciamento com todos os credores propiciará a quitação
das contas, mesmo que a longo prazo. Segundo o advogado, este princípio
é utilizado em vários países, principalmente
na França, Bélgica e Finlândia. Portugal já
tem um projeto de lei sobre o tema em análise para aprovação.
Na França, por exemplo, o negócio é mais consolidado.
"Lá, se pressupõe que a mídia fez o consumidor
comprar, embutindo nele a necessidade de adquirir o produto. Portanto,
os fornecedores devem facilitar a vida do consumidor para a reabilitação
de seu crédito no mercado. A idéia é que se
a pessoa está se sentindo prejudicada, os credores terão
que cooperar para que ele consiga recuperar a sua capacidade de
consumo", afirma Giancoli.
O grau máximo de endividamento de um cidadão na França
é medido por um órgão administrativo chamado
de Comissão de Super Endividamento. Seria o Procon do Brasil,
mas com outras funções muito mais elaboradas. Este
órgão reúne todos os fornecedores para quem
o consumidor deve e negocia a dívida. "É feita
uma análise de crédito para mensurar o tamanho da
dívida e uma perícia para avaliar a renda do cidadão",
explica o advogado. No Brasil, este tipo de negociação
somente é possível com medida judicial contra cada
credor.
Uma vez inscrito neste órgão, o cidadão francês
sofre muito mais restrições para adquirir crédito
no mercado do que um brasileiro quando seu nome é inscrito
no Sistema Central de Proteção ao Crédito (SCPC).
"Lá, o sistema tem uma função social.
Eles negociam a dívida, permitem que o cidadão mantenha
uma renda para sobreviver e buscam uma alternativa para que esta
pessoa não cometa os mesmos erros novamente. No Brasil é
cortado o acesso a crédito e o cidadão que se vire
para pagar", diz o advogado.
Direitos iguais
Apesar dos EUA não manter um sistema com função
social para reabilitação de crédito, o fato
de o cidadão poder negociar sua dívida da mesma forma
que uma empresa quando pede falência ou concordata, contribuiu,
e muito, para tanto fornecedores como consumidores reverem seus
créditos. Lá, além das dívidas serem
renegociadas, o sistema de crédito também dispõe
de um cadastro que avalia o perfil completo do consumidor. O sistema
é similar ao cadastro positivo, elaborado pela Associação
Comercial de São Paulo e outras entidades de classe, e o
qual está em processo de análise no Ministério
da Fazenda.
Com este perfil em mãos, mostrando o seu comportamento de
compra e pagamento de dívidas, o consumidor americano consegue
vantagens. "É o próprio consumidor que faz questão
de manter seu cadastro atualizado para conseguir vantagens na análise
de crédito. Se ele é um bom pagador, com certeza terá
juros menores do que os que não cumprem suas obrigações
em dia", comenta o diretor do Instituto de Economia Gastão
Vidigal da ACSP, Marcel Solimeo. |