Com a palavra, a população
Para quem precisa do crediário para comprar, consultas ao SCPC não incomodam, ao contrário, ajudam a fechar negócio
Facilidade nas compras

Como muitos brasileiros, Maria Aparecida Barbalho da Silva, 67, diz que tudo que compra é parcelado porque o salário de aposentado é muito baixo. Neste mês, ela paga a quarta parcela de um carnê de oito prestações no valor de R$ 36, por ter adquirido um jogo de toalhas e um ferro de passar. "Termina um carnê e logo começo outro", conta.

Por ser boa pagadora e nunca atrasar suas prestações, a aposentada diz que sempre consegue o crédito rapidamente. Além disso, costuma ser fiel aos estabelecimentos onde compra "para facilitar o crediário".

Maria teve seu nome incluído na lista de devedores há alguns anos, mas, segundo ela, foi por culpa de um cheque roubado. "Como a culpa não era minha, em menos de três dias tiraram meu nome da lista. Fiquei aliviada porque sempre pago as contas em dia", diz, mostrando um leque de contas a vencer, já pagas.
 
Maria Aparecida: contas em dia

Tranqüilidade nas consultas

Fico super tranqüilo ao saber que meu nome será consultado no SCPC porque não tenho nada a temer já que não devo nada. Essa é a idéia do cobrador de ônibus Leonildo Soares dos Santos, 30 anos, e da maioria dos consumidores que nunca tiveram seus nomes na lista de inadimplentes. O cobrador afirma ter o costume de comprar vários produtos a prazo porque não tem condições de pagar a vista. "O salário não dá", justifica.
 
Leonildo: sem nome no SCPC

 

 


Por Fernanda Pressinott


Atrás de um empréstimo

Fotos: Leonardo Rodrigues/
Digna Imagem
Marilda Fernandes: na hora do sufoco, marido "dá um jeitinho"



Embora já tenha tido o nome incluído no cadastro do SCPC por ter "emprestado o nome" para um crediário do vizinho, parece que a dona de casa Cristina Regina Rocha Rodrigues, 41 anos, não teme novos problemas. Tanto que acaba de pedir um empréstimo pessoal no valor de R$ 300, não para ela mesma, mas para o sobrinho de 18 anos. "Ele vai pagar, tenho certeza", acredita, com a mesma confiança da maioria dos consumidores que emprestam seus nomes e depois os vêem incluídos no cadastro de maus pagadores.

A dificuldade para conseguir o crédito é normal para Cristina. "Eles (os estabelecimentos) têm que consultar tudo mesmo, não é? Se não, como vão saber se posso pagar?" Ela também "acha justo verificar se o nome da pessoa consta no SCPC".

No dia desta entrevista, a dona de casa ainda não havia conseguido o empréstimo para o sobrinho porque tinha muitas contas em atraso, mas afirmou que iria quitar algumas delas e voltar na loja para pedir novamente o dinheiro.







Colecionadora de cartões

Parece que faço coleção de cartões de loja de tantos que eu tenho. A revelação é de Anielle Oliveira Inocêncio, 20 anos, que mesmo desempregada, continua comprando no crediário. "Tento postergar as dívidas até arrumar outro emprego", conta.

Quanto ao seu nome ser consultado no sistema do SCPC no ato das compras, ela afirma que ainda não teve problema, mas, "se não arrumar emprego logo, já já pode acontecer (do nome estar entre os devedores)".

 




Apaixonada por carnês

Luzinete: 20 carnês simultâneos

A aposentada Luzinete Ana Milanez, 54, é o que se pode chamar de uma apaixonada por crediário. Ela tem, neste mês, 20 carnês diferentes para pagar, todos com mais de oito prestações. "Compro tudo a prazo, no máximo de prestações que a loja permitir", diz. Luzinete não se importa nem de pagar mais caro, já que nas prestações estão embutidos juros. "Vejo as matérias nos jornais sobre juros, mas não presto atenção, se não, não compro nada. Prefiro ter as prestações porque dou um jeito e pago."

Nas compras parceladas entram de comida até roupa para os filhos e eletrodomésticos. A aposentada tem mais de 15 cartões private label (com a bandeira das lojas) e afirma que, quando não consegue pagar tudo, quita o valor mínimo de cada fatura. "Vou deixando os juros correrem, uma hora a gente acerta tudo."

Mas o costume de comprar a prazo não fez de Luzinete uma especialista no assunto. Mais de uma vez, ela teve o nome na lista do SCPC. "Ficou lá um tempão, fazer o quê? Mas depois consigo tirar o nome e faço novas compras."

 



Vivendo na corda bamba


Não vejo problema na loja consultar o SCPC, fico até aliviada porque consigo crédito mais facilmente. A afirmação é da secretária Marilda Fernandes Pedroso, 50 anos, que nunca teve seu nome incluído na lista de maus pagadores. No entanto, ela diz que algumas vezes quase seu CPF foi incluído no cadastro e isso só não aconteceu porque o marido "a salvou".

"Meu marido compra tudo a vista, é mais esperto, eu sei, não paga juros, mas eu não consigo e, às vezes, quando perco o controle, sou obrigada a apelar para ele", afirma a secretária.

O costume do marido não faz com que ela acompanhe o comportamento. Além de cartões de bancos, Marilda mantém na carteira uma série de cartões de loja e ainda diz fazer compras com cheques pré-datados. "Só consigo comprar assim", justifica.

     
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