Numa ação orquestrada, sob
o olhar cúmplice de seus pares, age na disputa pela terceira
cadeira mais importante do País uma instituição
presente nos livros de história, mas ausente do noticiário
atual: a Maçonaria. Em suas mãos figuram nada menos
que 56 deputados, oito senadores e ao que se sabe (outros podem estar
ocultos) dois candidatos à presidência da Câmara:
os deputados Michel Temer (PMDB-SP) e Francisco Dornelles (PP-SP).
Juntos, os maçons militam em favor de um projeto de poder:
garantir que ‘líderes de fato’ – preparados
pela instituição e comprometidos com seus próprios
valores e virtudes possam ocupar os mais altos cargos da administração
pública e privada. Reunidos em uma sociedade restrita, onde
o ingresso de um novo membro depende da indicação de
outro, eles se fortalecem e se expandem sob o anonimato.
Ernesto
Rodrigues/AE
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Beto Barata/AE/15-09-05  |
| Michel
Temer (com Orestes Quércia), em encontro do PMDB
em São Paulo, na última sexta-feira (topo):
uma disputa entre 'irmãos' com Francisco Dornelles
(acima, com o também candidato Thomaz Nonô). |
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Força – A força desta instituição
milenar – que em sua lista de expoentes traz Mozart e Voltaire,
entre outros – foi responsável por colocar no poder
pelo menos 13 presidentes da República (o último teria
sido Jânio Quadros), inúmeros vice-presidentes e presidentes
de Câmara, e poderá determinar o desfecho de mais um
governo – no caso o do próprio presidente Lula, que
diante da ameaça entrou pessoalmente na articulação
da candidatura de Aldo Rebelo (PCdoB-AL).
Os representantes da Maçonaria têm, por juramento,
a obrigação de investigar a verdade até as
últimas conseqüências (objetivo primordial da
ordem), mesmo que isso implique em admitir o erro e cortar 'na própria
carne'. "Temos irmãos em postos-chave. Podemos acompanhar
tudo o que acontece. Há membros em todas as CPMIs, na Câmara
e no Senado... eles estão alertas para que os nossos mandamentos
não sejam transgredidos", afirma Durval de Oliveira,
Grão-Mestre do Grande Oriente Paulista .
Expoentes políticos que já sentiram o peso do martelo
maçônico foram o ex-vereador de São Paulo Hannah
Garib e o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia
(afastado). Os maçons evitam falar sobre o assunto mas punem
com rigor qualquer tipo de transgressão comprovada entre
seus pares. Desvios de conduta são investigados internamente
e ajuizados por um tribunal especial– o que pode acabar em
expulsão e total boicote social.
Bastião da ética – Guardiã
da moral e da independência, a Maçonaria age com desenvoltura
no Congresso Nacional e expande seus tentáculos toda vez
que a credibilidade dos partidos é colocada em xeque. "Onde
está um maçom há uma confiabilidade maior,
pela instrução que ele recebe", explica Durval
de Oliveira. Toda a estrutura interna da irmandade é constituída
para que nenhum tipo de desordem passe despercebido. "Funcionamos
como uma escola de líderes em várias etapas. Do zero
ao grau 33 são necessários pelo menos 12 anos, formação
equivalente a duas faculdades", explica.
Comenta-se, à boca pequena, que estaria em curso dentro da
irmandade os primeiros trâmites para levar à julgamento
o ministro da Fazenda Antonio Palocci. Há, porém,
uma grande controvérsia entre seus pares. Muitos maçons
afirmam desconhecer a participação do ministro. Outros
defendem que o único vínculo de Palocci com a ordem
estaria nos três pontinhos acompanhados em sua assinatura.
Eminência parda – Longe dos holofotes,
um estado paralelo trabalha à parte, silenciosamente, com
seu respectivo Executivo, Legislativo e Judiciário. No Brasil
é formado por 180 mil maçons ativos – aqueles
que têm pelo menos 70% de freqüência nas reuniões.
Nesse contingente destacam-se sobretudo políticos, empresários,
advogados, líderes religiosos e comunitários sob a
égide do Grande Oriente do Brasil, a Grande Loja e o Grande
Oriente Paulista. "Não somos quantitativos e sim qualitativos",
explica o Grão-Mestre do Grande Oriente Paulista, cargo equivalente
ao da presidência desta ordem no estado de São Paulo.
Do anonimato à ação,
contra a corrupção.
Neste mês de setembro, o Grande Oriente do Brasil, instância
superior dos Grandes Orientes estaduais, após ampla reunião
em Brasília, decidiu conclamar a sociedade brasileira
na luta contra a corrupção. "Devemos confiar
e cobrar para que tudo se esclareça nas CPMIs, afirmando
que, pelos fatos delituosos e a quebra de decoro parlamentar,
os culpados sejam exemplar-mente punidos". O Grande Oriente
Paulista foi além: "Conclamamos o povo brasileiro
a exigir, dos seus representantes, que não se envolvam
em manipulações, negociações e conchavos
cujo objetivo é, quase sempre, de preservação
pessoal em detrimento do povo e do país. Que os verdadeiros
responsá-veis sejam execrados". (TN) |
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'Bancada' de peso
A maçonaria
sempre atuou nos bastidores da vida pública. Se não
fosse apartidária, sua bancada teria a 4ª maior
representatividade na Câmara (56), atrás apenas
do PT, PMDB e PFL e seria a 5ª no Senado (8). Mas o que
justamente lhe confere força é sua capilaridade,
que se estende nas mais diversas esferas do poder municipal,
estadual e federal.
À frente até mesmo dos programas partidários,
se interpõem no cotidiano de um político maçom
o compromisso com a investigação da verdade,
o exame da moral e a prática das virtudes. Tarefa que
o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) vem executando com
maestria na CPMI dos Correios, apoiado direta ou indiretamente
por 'irmãos' senadores como Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR),
Tião Vianna (PT-AC) e Valdir Raupp (PMDB-RO).
Voto
alinhado – Recentemente, os deputados maçons
votaram em bloco pela cassação de Roberto Jefferson
– por compromisso com a ética exigida nas regras
do decoro, num dos raros momentos em que alinharam o voto.
Ao contrário da bancada evangélica – maior
em número de deputados (59) mas menor em senadores
(4) – a maçônica não se une em torno
de projetos mas sim de valores compartilhados. Mas apóiam
governos considerados 'fortes e progressistas' – principalmente
quando ostentam irmãos em seu comando – a exemplo
dos ex-governadores Mário Covas (PSDB-SP), Espiridião
Amin (PPB-SC) e Newton Cardoso (PMDB-MG). (TN) |
Maçonaria sempre presente
Maçons marcaram presença nos principais
momentos da história do país
Por Tsuli Narimatsu
Arquivo
AE/DC
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Jânio Quadros (1961), o último presidente
da República maçom |
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Tela em óleo de Edward Savage retrata a família
Washington em símbolos maçônicos:
criança segura um compasso e os adultos apontam
para o mapa da cidade formando
um triângulo. |
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D. Pedro I e José Bonifácio expoentes. |
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A participação da Maçonaria nos movimentos
de emancipação dos povos de todos os continentes está
amplamente registrada nos livros. O mesmo ocorreu no Brasil, onde
a história do País confunde-se com a história
desta irmandade. Os maçons foram a vanguarda dos movimentos
pela independência, pela abolição da escravatura
e pela proclamação da República.
Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade (qualquer
semelhança com a Revolução Francesa não
é mera coincidência) nortearam os principais movimentos
políticos desde o Brasil Colônia. José Bonifácio
de Andrada e Silva e D. Pedro I (que ingressou na Maçonaria
como príncipe regente e ao se declarar imperador proibiu
as atividades maçônicas, por julgar que deveria ser
tratado com reverência por seus irmãos maçons)
deram impulso ao que futuramente deflagrou as principais revoluções
no País.
Antes de D. Pedro I declarar às margens do Ipiranga "Independência
ou Morte!", a independência política já
havia sido proclamada dentro de uma loja maçônica (templo)
na sessão de 20 de agosto de 1822, em assembléia geral
da instituição, sob a presidência de Gonçalves
Ledo. Não é à toa que a data tenha sido escolhida
para homenagear a irmandade.
Conspiração – No interior das
lojas maçônicas precederam todas as ‘conspirações’
em favor de movimentos como a Inconfidência Mineira (1788),
as revoluções Pernambucanas (1817), a Confederação
do Equador (1824), a Sabinada (1837) e a Revolução
Farroupilha (1835-1845).
Escravisão – A Lei Áurea (1888),
assinada pela princesa Isabel, foi o resultado de um longo empreendimento
maçônico – que por princípios próprios
defende a igualdade entre os homens ao lado da Ciência, Justiça
e Trabalho. Ciência, à luz da Maçonaria, para
esclarecer os espíritos e elevá-los; Justiça
para equilibrar e enaltecer as relações humanas e
Trabalho por meio do qual os homens se dignificam e se tornam independentes
economicamente.
O próximo desafio foi a implantação de um Estado
Republicano o que, sem dúvida, pode ser considerado o fato
histórico mais importante para a Maçonaria no Brasil
graças à presença de ilustres 'irmãos'
como Marechal Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant, Ruy Barbosa,
Campos Salles, Quintino Bocaiúva, Prudente de Morais, Silva
Jardim e outros mais.
Presidentes – O Brasil já teve 13
presidentes da República – tais como Floriano Peixoto,
Prudente de Morais, Campos Salles, Nilo Peçanha, Wenceslau
Brás, Washington Luis, Nereu Ramos... sendo o último
deles Jânio Quadros. Outras personalidades de expressão
na vida pública foram Américo Brasiliense, Benjamin
Constant, Bento Gonçalves, Casemiro de Abreu, Cipriano Barata,
Frei Caneca, Padre Diogo Antônio Feijó, Eusébio
de Queiroz, Rangel Pestana, Francisco Gê de Acaiaba Montezuma,
Hipólito da Costa, José da Silva Lisboa (Visconde
de Cayru), José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, José
Maria da Silva Paranhos (Juca Paranhos, Visconde do Rio Branco),
Lauro Sodré, Luiz Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias),
Nilo Peçanha, Nunes Machado, Quintino Bocaiúva, Giuseppe
Garibaldi, Silva Jardim, Rangel Pestana, Rui Barbosa, Carlos Gomes
e muitos outros
EUA, o imprério maçônico
Arquivo/DC
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A sede do poder maçônico localiza-se
nos Estados Unidos. Nenhuma nação foi tão
fortemente comandada por ela nem ostenta uma irmandade tão
numerosa. Foram maçons George Washigton, Lyndon B. Johnson,
Gerald Ford e George Bush (pai do atual presidente). Bill Clinton
pertenceu à "Ordem De Molay", para filhos de
maçons. A maçonaria americana atualmente conta
com mais de 15 mil lojas (templos) e um total de 4 milhões
de filiados, ao que se somam um número idêntico
de afiliados em organizações paramaçônicas
(a Ordem da Estrela do Oriente para Mulheres de Maçons,
a Ordem De Molay, a Ordem do Arco Íris e a Ordem de Job).
O enorme contingente de associados pressupõe um peso
social e político decisivo e uma rede de ajuda mútua
que alcança todos os quadrantes da vida norte-americana.
Um presidente norte-americano pode até não ser
maçom mas jamais irá contra os interesses da instituição.
O período mais ativo da ordem ocorreu durante a independência.
Benjamin Franklin, um dos principais articuladores, recebeu
apoio das maçonarias inglesa e francesa para a causa.
Após a conquista, George Washington (1789-1797), desfilou
o avental maçônico no lançamento da pedra
fundamental da cidade que leva seu nome. A pintura em óleo
de Edward Savage, The Washignton Family, retrata seu comprometimento.
Os familiares sentados à mesa apontam os dedos para uma
área triangular. No canto da imagem, o neto de Washington
segura um compasso. (TN) |
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