Eduardo Knapp/Folha Imagem Eduardo Knapp/Folha Imagem
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Evangélicos reúnem cerca de 2 milhões de pessoas na avenida Paulista para a 13ª Marcha para Jesus, em maio passado: força eleitoral.
 

Aliança só se for com outra política

Aberto a negociações, o senador e bispo da Universal Marcelo Crivella (PRB-RJ) adianta o que há de ser o novo Partido Republicano Brasileiro (PRB). "Nascemos para ser um peão de alianças e receber apoio federal", define. Para fechar com o PT, como quer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele apresenta suas demandas: mudar a política econômica de modo a favorecer o setor produtivo e garantir emprego e serviços públicos aos mais pobres.
Segundo Crivella, o projeto político do PRB é para 2006. Mas ele não descarta uma eventual candidatura de José Alencar à presidência. "Achamos que ele poderia unir o País em torno de um projeto progressista republicano para combater o neoliberalismo implacável hoje no Brasil", diz. "Viabilizando uma candidatura própria poderíamos apoiar candidatos nos estados".
Ele revela que procurou líderes das igrejas Sara a Nossa Terra, Igreja da Graça, Universal e Assembléia de Deus para apresentar Alencar. Ao mesmo tempo, Crivella minimiza a possibilidade de se candidatar ao governo do Estado do Rio – como o vem incentivando o presidente Lula. "Não tenho a menor intenção. Gostaria de decidir a vida nacional", afirma. "Se quisesse ser governador do Rio eu teria me filiado ao PSB ou PDT".
Crivella diz que o PRB tem uma proposta diferente e quer fugir do estigma evangélico. "A gente não quer ter um partido igual aos outros. Crescer para depois se sustentar nomeando um monte de gente, fazendo amizades, buscando o apoio de empresas, cargos em estatais... Achamos que podemos ter um partido com um programa de governo imbatível". Mesmo assim, ele não descarta uma aliança com o PMDB de Garotinho, de quem é irmão de fé. "Na política tudo pode", diz ele.
Trajetória – Evangélico desde criança, Marcelo Crivella viveu durante sete anos como missionário na África do Sul até ser chamado pelo bispo Edir Macedo para um novo projeto no Brasil. "Eu era o único pastor de 600 igrejas a falar zulu. Achava que não havia sentido sair de lá", conta. A nova missão era inédita: coordenar a implantação de um kibutz no Nordeste brasileiro.
Assim nasceu a Fazenda Canaã, em Irecê (BA), um assentamento popular, mas com alta tecnologia agrícola e onde todos plantam e vivem da terra. "Não existem pobres nem ricos e o lucro é reinvestido lá", explica. Além das famílias, 500 crianças da região estudam na escola do kibutz. "Quando o João Pedro Stédile, líder do MST, conheceu o projeto de perto, chorou", conta o bispo.
(TN)

Crivella nega a intenção de concorrer ao governo do Rio

O PODER VEM DA MÍDIA

Por trás do eleitorado evangélico existe um poder de mídia que não deve ser desprezado, sustentado por um preceito religioso que só incentiva as igrejas a ampliarem seus espaços nos meios de comunicação de massa. Está escrito no livro de Marcos 16:5: ide ao mundo e pregai o Evangelho.
O preceito é seguido à risca. Por isso os evangélicos não resistem em contribuir com dinheiro para que suas lideranças expandam a fé cristã e em alguns casos até assumam a direção de redes de TV, como o caso da Record ou sustentem espaços milionários no horário nobre, caso do missionário RR.Soraes na Band.
De acordo com o pastor Ronaldo Didini – que foi o coordenador político da Igreja Universal por dez anos (antes de deixar a denominação e ser substituído pelo ex-deputado e bispo Carlos Rodrigues, PL-RJ) – toda aliança política alinhavada com os evangélicos leva em conta o poder de mídia. "Além disso a Universal tem militância. Muito mais disciplinada e coesa do que a do PT."
O presbiteriano Anthony Garotinho vem usufruindo bem desses espaços. Desde o ano passado, com o respaldo financeiro da Assembléia de Deus da Penha (RJ), igreja que conta com 8 mil membros, ele apresenta um programa de três minutos exibido de segunda a sexta na Band e reproduzido em rede nacional por outras emissoras.
O pré-candidato pelo PMDB também está diariamente na Rádio Melodia, a primeira evangélica em audiência no Rio, segundo o Ibope– cujo proprietário é o irmão e ex-deputado federal Francisco Silva (PL-RJ). O programa é reproduzido por 181 retransmissoras AM e FM. E recebe de bom grado doações de igrejas como passagens aéreas para fazer campanha pelo país e hospedagem em hotéis.
(TN)


ORIGEM PROTESTANTE
Se hoje parte dos evangélicos brasileiros ficou vulgarmente conhecida pelo comércio da fé e a tentativa de esta-belecer cada vez mais influência política e econô-mica, no passado, foi exatamente por essas questões que o monge alemão Martinho Lutero rompeu com a Igreja Católica e deu início à reforma protestante.
Evangélicos ou protestantes (sinônimos) são tão cristãos quanto os católicos – com algumas diferenças importantes: não reconhecem a autoridade do papa para decidir quem entra ou não no reino dos céus (excomunhão) e nem para eleger mortais à condição de santos. Por isso suas igrejas não possuem imagens e nem Maria, mãe de Jesus, é considerada santa.
Minada pela política e o materialismo, a Igreja Católica vivia uma grave crise no século XVI, quando eclodiu a reforma protestante. Lutero ousou expressar suas críticas à venda de indulgências e ao celibato, entre outros assuntos. Defendeu que o evangelho de Cristo pregava o amor e a graça de Deus. Foi excomungado. Na França, João Calvino pregava que a salvação do homem dependeria dos atos praticados em vida.
Para contra-atacar esses argumentos religiosos, a Igreja Católica aprovou o acréscimo à Bíblia de alguns livros que até então não tinham sua autenticidade comprovada – os chamados apócrifos. Os protestantes não aceitaram, por isso sua Bíblia têm menos livros.
Na visão do sociólogo Max Weber (1864-1920) a difusão protestante esteve associada ao desenvolvimento da cultura capitalista, ao tornar o acúmulo de riquezas lícito.


   
Tsuli Narimatsu

Esvaziar a candidatura do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, já virou palavra de ordem no Palácio do Planalto. A tarefa, entretanto, passa pela conquista do eleitorado evangélico – que apesar de não ter um projeto político comum, sonha em eleger um presidente da República com a mesma visão religiosa. Trata-se de um grupo numeroso, formado por 26 milhões de pessoas – segundo o IBGE – e equivalente a 15% da população brasileira.

Manobras nesse sentido já se tornaram claras. Na semana passada o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Porto Alegre para participar da 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), onde discursou para líderes de 350 igrejas anglicanas, ortodoxas e protestantes (entre presbiterianas, metodistas, batistas) – uma fatia do eleitorado evangélico que segundo pesquisas preferiu Garotinho (48%) e Serra (30%) em 2002 (ver tabela).

A aproximação com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo da Universal, é outro indicador de que o presidente, apesar de esconder suas pretensões à reeleição, está empenhado em dividir o voto evangélico. Lula tenta convencer Crivella a disputar o governo do estado do Rio pela nova legenda (o Partido Republicano Brasileiro - PRB) tendo o aval presidencial em troca de uma aliança nacional. As negociações têm sido tão intensas que o bispo já se tornou freqüentador assíduo do Planalto e virou até motivo de piada. "Pô Crivella, o Lula está tão interessado no seu apoio que até parou de beber", disse o senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) – cotado para se candidatar ao governo do Rio com o apoio da governadora Rosinha Matheus, mulher de Garotinho.


Lula discursa na 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas
Em setembro passado o vice-presidente José Alencar deixou o PL na companhia de outros deputados rumo ao recém-criado PRB, aberto com a assinatura de 612 mil fiéis da Igreja Universal. Muita gente estranhou. Alencar contou que foi convidado pelo PMDB, PTB e PSB, mas preferiu a nova legenda. "Eu tenho mania de começar da estaca zero", justificou à época. O que poucos sabem é que a escolha foi feita com o aval de Lula – que não desejava ver o vice engrossando as fileiras do PMDB. "Antes de mudar, consultei o presidente Lula sobre a minha ida ao Partido Republicano", reconhece Alencar, hoje cotado para ser o vice de Lula .

Ao colocar um aliado no PRB e atrair o partido, Lula traria para si os votos de uma das maiores e mais bem articuladas denominações evangélicas, a Igreja Universal do Reino de Deus. São cerca de 10 milhões de membros, milhares de templos e um poder de comunicação incomparável, tendo sob seu controle as redes de TV Record e Mulher e jornais como a Folha Universal – com tiragem de 1,5 milhão de exemplares por semana –, centenas de rádios e retransmissoras espalhadas pelo País.

Medo – Lula tem se mostrado especialmente preocupado com o desempenho de Garotinho nas últimas pesquisas e seu poder de comunicação, garantem interlocutores próximos. O temor, na avaliação do cientista político Gaudêncio Torquato, é plenamente justificável. "Garotinho poderá tirar uma fatia maior do eleitorado de Lula no 1º turno, já que trabalha na mesma faixa de eleitores C, D e E do presidente e tem de 8% a 15% nas pesquisas de intenção de voto". Num ano em que os tucanos devem levar mais votos das classes média e alta, uma vez que a rejeição a Lula – que se tornou a maior de todos os pretendentes ao Planalto, segundo a última pesquisa Datafolha – se concentra nessa parcela de eleitores, não há como o presidente se dar ao luxo de perder votos nas camadas mais populares.

Em 2002, 15 milhões de brasileiros votaram em Garotinho – montante equivalente a 18% dos votos válidos. Nada mal se comparado ao desempenho de José Serra, com 20 milhões de votos (23%), e de Lula, que recebeu 39 milhões de votos (46%) no 1° turno. Um verdadeiro milagre da multiplicação para um candidato que contou apenas com um minuto de televisão e disputou a presidência pelo PSB.

Apoio de irmão – Na época, Garotinho contou com o apoio de praticamente todas as igrejas evangélicas, incluindo a Universal. Mas o desempenho, segundo o próprio candidato, não pode ser creditado apenas aos irmãos de fé. "Sou evangélico mas tenho eleitores de todas as religiões. As pessoas podem até se identificar com a minha fé mas não vão me eleger só por causa disso", reconhece o ex-governador do Rio. Garotinho minimizou os dados da pesquisa Datafolha, que apontou sua queda de 10% para 8% e o aumento das intenções de voto para Lula, de 33% para 39%. Disse que está concentrado na campanha interna do PMDB, cuja prévia acontecerá no próximo dia 19.

De acordo com o Estudo Eleitoral Brasileiro de 2002 que mapeou o avanço das religiões sobre os domínios da política, o que diferencia o eleitor evangélico de outros, como católicos e espíritas, é a mobilização das autoridades religiosas na indicação de candidatos. "Os evangélicos compõem um público que potencialmente pode se tornar clientela cativa de determinadas ofertas políticas, se suas lideranças religiosas optarem por mobilizá-las", alerta a cientista política Simone Bohn, da USP.


A TERCEIRA MAIOR BANCADA DA CÂMARA
A cada nova eleição as igrejas evangélicas expandem sua representação política.
Se fossem unidas sob um mesmo partido, teriam a terceira maior representatividade da Câmara dos Deputados, atrás apenas das duas maiores legendas: o PT (88) e o PMDB (87).

De 1998 a 2002, o número de deputados protestantes passou de 48 para 62.
Um crescimento de 25% entre uma eleição e outra. Segundo o levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), as novas cadeiras foram conquistadas com um acréscimo de cinco milhões de votos dos fiéis.

Na divisão de votos e representação por igrejas, a Assembléia de Deus dispara. Elegeu 23 deputados federais que são membros da igreja ou apoiados por ela. A Universal do Reino de Deus conseguiu 'eleger' 22 deputados federais, sendo que 18 são membros efetivos e participantes, enquanto outros quatro receberam apoio da igreja nos estados. A terceira força evangélica está nas mãos dos batistas, que levaram a Brasília oito representantes. Os demais deputados pertencem a outras denominações como Metodista, Quadrangular, Presbiteriana e igrejas pentecostais como a Deus É Amor e a Sara a Nossa Terra. (TN)

Candidatura? Alencar desconversa.

Fábio Motta/AE

" Eu não sou candidato a nada.
O que não significa que não possa vir a me candidatar."
José Alencar acumula aos 74 anos o cargo de vice-presidente da República e Ministro da Defesa. Em outubro passado, o político mineiro deixou o Partido Liberal (PL) – sigla envolvida no escândalo do mensalão e cujo presidente, Waldemar da Costa Neto renunciou para escapar da quase certa cassação – para o recém-criado Partido Republicano Brasileiro (PRB). Recentemente, pediu permissão para deixar o Ministério da Defesa até 31 de março, data máxima estabelecida pela legislação eleitoral para que possa concorrer nas próximas eleições. Hoje, Alencar está cotado como candidato à presidência por seu partido, ou como vice na chapa de Lula. Sobre o assunto ele apenas dá uma risadinha: "Tudo vai depender das articulações".

O senhor é candidato à Presidência, ao governo de Minas Gerais ou a uma cadeira no Senado?
Eu não sou candidato a nada. O que não significa que não possa vir a me candidatar (risos). Tudo vai depender das articulações.

Conte um pouco sobre sua saída do Partido Liberal rumo ao Partido Republicano...
Saí do PL por causa dos escândalos para voltar para casa. Os partidos começaram a me fazer convites. Poderia ter ido para o PMDB, PTB ou PSB. Ingressei num partido novo que não tem fundo partidário (recursos) e nem horário de televisão. Nasce da estaca zero. E eu tenho mania de começar da estaca zero. Assim foi toda a minha vida.

Como será o Partido Republicano, visto que as 612 mil assinaturas de filiação para a obtenção do registro prévio vieram de fiéis da Igreja Universal?
Esse partido será um grande partido. É sério. Absolutamente laico. Não possui nenhum comprometimento clerical. O fato de ter apoio da Universal... gostaríamos que o partido tivesse todo o tipo de apoio. Quem segue o evangelho é evangélico. Evangelho é a doutrina cristã. Cristãos são a maioria brasileira.
Mesmo assim o partido tem portas abertas para os que não participam da nossa influência religiosa. Contamos com apoio, por exemplo, de gente do naipe do (Roberto) Mangabeira Unger, professor titular de direito da Universidade de Harvard (EUA). (TN)

CIENTISTAS POLÍTICOS JÁ CONSIDERAM O CLIENTELISMO RELIGIOSO COMO UM FATOR DE DECISÃO ELEITORAL

Rejeição influencia muito mais que apoio


Tsuli Narimatsu

Dida Sampaio/AE
Rosinha Matheus

Alaor Filho/AE

Anthony Garotinho

Clayton de Souza/AE

Multidão de fiéis mostra sua força em marcha pela cidade de São Paulo
Na política, poucos são os candidatos que conseguem transferir os votos de seus eleitores para seus sucessores nos cargos ou outros candidatos. Raros são os casos – como Maluf e Pitta para a prefeitura de São Paulo (1996), Anthony Garotinho e Rosinha Matheus para o governo do Rio (2002). E, também em 2004, o crescimento da candidatura José Serra à prefeitura de São Paulo depois que Alckmin entrou efetivamente em sua campanha. Os evangélicos já provaram esse tipo de influência. Mas trabalham ainda com uma outra arma, talvez até mais poderosa e decisiva: a rejeição.

" Não vote" – Segundo o bispo da Universal e senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) mais do que transformar o púlpito em palanque, a principal estratégia dos pastores investidos de 'cabos eleitorais' é difundir a rejeição. "Os pastores são mais efetivos para tirar votos. Quando eles dizem 'não vote nesse ou naquele' e deixa a indicação em aberto, o povo respeita a negativa".

Cientistas políticos que estudam a influência dos evangélicos nas urnas já identificam o populismo religioso como uma variável para analisar o cenário de uma eleição. "O populismo já predominava, à exemplo de Lula, mas Anthony Garotinho introduziu uma novidade. Aliou a religião, criando uma espécie de populismo religioso que demonstrou excelentes resultados eleitorais em 2002", afirma César Jacob Romero, da PUC-RJ.

Slogan – "Existe um slogan de que crente vota em crente mas isso nem sempre acontece", lembra David Fleischer, da Universidade de Brasília. Ele acredita que a transferência de votos seja muito mais mito do que realidade, salvo alguns "segmentos étnicos ou religiosos, independentemente de partido, tais como a comunidade japonesa, policiais militares ou evangélicos – que vez ou outra seguem e elegem candidatos indicados por políticos de sua comunidade".

" A transferência de votos de Garotinho ficou demonstrada na votação da mulher dele. Ele tem uma influência maior, principalmente sobre seus eleitores evangélicos”, diz Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Escalada – Ari Pedro Oro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estudou a fundo a incursão de parlamentares da Igreja Universal na política e diz que só a partir dela é que outras igrejas se mobilizaram politicamente. Segundo ele, em 1986, a Universal elegeu seu primeiro deputado federal; em 1990, foram três federais e seis estaduais. Em 1994, a igreja dobrou sua bancada na Câmara e ainda elegeu oito estaduais. A grande arrancada ocorreu em 1998, quando o contingente subiu para 17 federais e 26 estaduais. Em 2002, um pequeno recuo, com a eleição de 16 federais e 19 estaduais. O desempenho, segundo Oro, está relacionado ao carisma institucional da igreja e ao uso intensivo da mídia – o que acabou incentivando outras denominações a irem às urnas. "O sucesso político da Universal produziu um efeito mimético sobre outras igrejas e religiões, que também procuraram expressar o seu capital político e poder institucional", diz o cientista político.



Um eleitorado dividido, mas fiel
Ao analisar o comportamento do eleitor evangélico nas eleições de 2002, por denominação, cientista política comprova a preferência por Garotinho

Alex Ribeiro/DC
Simone Bohn, da USP

O grupo evangélico, por suas características específicas– como menor exposição a jornais e revistas, elevada exposição a autoridades religiosas e escolha eleitoral influenciada por suas lideranças – constitui um segmento extremamente importante para qualquer candidato. A conclusão faz parte do trabalho de pós-doutorado da cientista política Simone Bohn, da USP, baseada na análise do comportamento dos evangélicos brasileiros nas urnas.

Se o PRB lançar candidato próprio à presidência ou fizer uma aliança com um não-evangélico, a candidatura Garotinho sofre um baque?
A viabilidade de uma eventual candidatura presidencial de Anthony Garotinho – caso ele realmente seja o escolhido no PMDB – depende muito do eleitorado evangélico. De acordo com os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro que eu analisei, na eleição de 2002, 51% dos evangélicos afirmaram ter votado nele. Se considerarmos que, em 2000, eles representavam cerca de 15% da população brasileira, o apoio deste segmento religioso se constitui extremamente importante para as candidaturas presidenciais. Se houver o apoio das lideranças a outro candidato, Garotinho pode ser enfraquecido.

Um dado instigante da sua pesquisa mostra que os fiéis da Assembléia de Deus votaram em Lula (54,9%) no 2º turno sendo que a igreja fechou com o Serra. Como analisar isso?
O que a minha pesquisa mostra é: em comparação com outros grupos religiosos, a maioria evangélica tem baixa exposição aos meios de comunicação, como jornais, telejornais e rádio. Por outro lado, em contraste com os membros de outros credos, eles estão extremamente expostos a suas autoridades religiosas. Cerca de 83% freqüentam os cultos mais de uma vez por semana. Entre os membros da Universal, essa porcentagem sobe para cerca de 92%. Além disso, para os evangélicos, um dos principais critérios na escolha de um candidato é o apoio dos pastores . Ou seja, eles compõem um público que potencialmente pode se tornar clientela cativa de determinadas ofertas políticas, se suas lideranças religiosas optarem por mobilizá-los. Isso não significa que todas se manifestem politicamente. Os líderes da Congregação Cristã no Brasil trabalham com a idéia de que religião e política não devem ser misturadas. No caso dos membros da Assembléia, eles foram os que mais apoiaram Garotinho no 1º turno (62%) – que ficou com Lula no 2º turno. Mas também foram um dos maiores apoiadores de Serra (42,9%), depois dos presbiterianos, metodistas e luteranos (50%).

Crente não vota em crente. Mas parece que para presidente isso muda completamente...
A lógica da disputa presidencial parece ser diferente da escolha eleitoral para outros cargos. Em virtude do menor número de opções, as características pessoais dos candidatos parecem importar para alguns eleitores tanto quanto suas propostas. Nas eleições para outros cargos, o mesmo processo é praticamente inviável. Em 2002, durante todo o processo de construção da candidatura Garotinho, desde a conquista do apoio de diversas denominações até seu marketing final, foi posta uma grande ênfase em sua identidade evangélica. E obviamente, isso lhe rendeu enorme quantidade de votos. No caso de outros pleitos, é mais difícil para o candidato conseguir veicular amplamente sua confissão religiosa, uma vez que o acesso aos eleitores é reduzido.

A bancada evangélica só parece se unir em projetos de cunho moral - não em torno de um projeto social. Seria pela relação entre os protestantes e o espírito do capitalismo?
O estudo mostra que os deputados federais e senadores – que na vida privada são evangélicos – na arena política estão filiados a partidos muito diferentes, que esposam ideologias distintas, se não conflitantes. Portanto, eles se comportam de uma maneira tal que a identidade evangélica só é mobilizada às vezes, diante de questões muito específicas como o aborto. A diversidade do seu comportamento legislativo não está diretamente relacionada aos rumos da reforma protestante ou ao igualitarismo à la Teologia da Libertação recém adotado por católicos. Pelo contrário, é fruto de diferentes opções partidárias.

Se os evangélicos se unissem numa plataforma política, poderiam "dominar" o Brasil?
As denominações evangélicas no Brasil são muitas e heterogêneas. Além das divergências teológicas eles também se subdividem na composição econômica, em termos de renda e escolaridade. Cada igreja e denominação costuma alinhavar sua própria aliança política, o que dificulta a criação de uma organização partidária com penetração nacional. É uma tarefa de longo prazo, que requer capital, um grande contigente de pessoas e, acima de tudo, um projeto político claro e unificador. Não acredito que esse projeto exista hoje.

 

 
     
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