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Aliança
só se for com outra política
Aberto a negociações,
o senador e bispo da Universal Marcelo Crivella
(PRB-RJ) adianta o que há de ser o novo
Partido Republicano Brasileiro (PRB). "Nascemos
para ser um peão de alianças
e receber apoio federal", define. Para
fechar com o PT, como quer o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, ele apresenta
suas demandas: mudar a política econômica
de modo a favorecer o setor produtivo e garantir
emprego e serviços públicos aos
mais pobres.
Segundo Crivella, o projeto político
do PRB é para 2006. Mas ele não
descarta uma eventual candidatura de José Alencar à presidência. "Achamos
que ele poderia unir o País em torno
de um projeto progressista republicano para
combater o neoliberalismo implacável
hoje no Brasil", diz. "Viabilizando
uma candidatura própria poderíamos
apoiar candidatos nos estados".
Ele revela que procurou líderes das
igrejas Sara a Nossa Terra, Igreja da Graça,
Universal e Assembléia de Deus para
apresentar Alencar. Ao mesmo tempo, Crivella
minimiza a possibilidade de se candidatar ao
governo do Estado do Rio – como o vem
incentivando o presidente Lula. "Não
tenho a menor intenção. Gostaria
de decidir a vida nacional", afirma. "Se
quisesse ser governador do Rio eu teria me
filiado ao PSB ou PDT".
Crivella diz que o PRB tem uma proposta diferente
e quer fugir do estigma evangélico. "A
gente não quer ter um partido igual
aos outros. Crescer para depois se sustentar
nomeando um monte de gente, fazendo amizades,
buscando o apoio de empresas, cargos em estatais...
Achamos que podemos ter um partido com um programa
de governo imbatível". Mesmo assim,
ele não descarta uma aliança
com o PMDB de Garotinho, de quem é irmão
de fé. "Na política tudo
pode", diz ele.
Trajetória – Evangélico
desde criança, Marcelo Crivella viveu
durante sete anos como missionário na África
do Sul até ser chamado pelo bispo Edir
Macedo para um novo projeto no Brasil. "Eu
era o único pastor de 600 igrejas a
falar zulu. Achava que não havia sentido
sair de lá", conta. A nova missão
era inédita: coordenar a implantação
de um kibutz no Nordeste brasileiro.
Assim nasceu a Fazenda Canaã, em Irecê (BA),
um assentamento popular, mas com alta tecnologia
agrícola e onde todos plantam e vivem
da terra. "Não existem pobres nem
ricos e o lucro é reinvestido lá",
explica. Além das famílias, 500
crianças da região estudam na
escola do kibutz. "Quando o João
Pedro Stédile, líder do MST,
conheceu o projeto de perto, chorou",
conta o bispo. (TN)
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| Crivella nega a intenção
de concorrer ao governo do Rio |
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O PODER VEM DA MÍDIA
Por trás do eleitorado evangélico existe um poder
de mídia que não deve ser desprezado, sustentado
por um preceito religioso que só incentiva as igrejas
a ampliarem seus espaços nos meios de comunicação
de massa. Está escrito no livro de Marcos 16:5: ide ao
mundo e pregai o Evangelho.
O preceito é seguido à risca. Por isso os evangélicos
não resistem em contribuir com dinheiro para que suas
lideranças expandam a fé cristã e em alguns
casos até assumam a direção de redes de
TV, como o caso da Record ou sustentem espaços milionários
no horário nobre, caso do missionário RR.Soraes
na Band.
De acordo com o pastor Ronaldo Didini – que foi o coordenador
político da Igreja Universal por dez anos (antes de deixar
a denominação e ser substituído pelo ex-deputado
e bispo Carlos Rodrigues, PL-RJ) – toda aliança
política alinhavada com os evangélicos leva em
conta o poder de mídia. "Além disso a Universal
tem militância. Muito mais disciplinada e coesa do que
a do PT."
O presbiteriano Anthony Garotinho vem usufruindo bem desses espaços.
Desde o ano passado, com o respaldo financeiro da Assembléia
de Deus da Penha (RJ), igreja que conta com 8 mil membros, ele
apresenta um programa de três minutos exibido de segunda
a sexta na Band e reproduzido em rede nacional por outras emissoras.
O pré-candidato pelo PMDB também está diariamente
na Rádio Melodia, a primeira evangélica em audiência
no Rio, segundo o Ibope– cujo proprietário é o
irmão e ex-deputado federal Francisco Silva (PL-RJ). O
programa é reproduzido por 181 retransmissoras AM e FM.
E recebe de bom grado doações de igrejas como passagens
aéreas para fazer campanha pelo país e hospedagem
em hotéis. (TN)
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ORIGEM PROTESTANTE
Se hoje parte dos evangélicos brasileiros ficou vulgarmente
conhecida pelo comércio da fé e a tentativa de
esta-belecer cada vez mais influência política e
econô-mica, no passado, foi exatamente por essas questões
que o monge alemão Martinho Lutero rompeu com a Igreja
Católica e deu início à reforma protestante.
Evangélicos ou protestantes (sinônimos) são
tão cristãos quanto os católicos – com
algumas diferenças importantes: não reconhecem
a autoridade do papa para decidir quem entra ou não no
reino dos céus (excomunhão) e nem para eleger mortais à condição
de santos. Por isso suas igrejas não possuem imagens e
nem Maria, mãe de Jesus, é considerada santa.
Minada pela política e o materialismo, a Igreja Católica
vivia uma grave crise no século XVI, quando eclodiu a
reforma protestante. Lutero ousou expressar suas críticas à venda
de indulgências e ao celibato, entre outros assuntos. Defendeu
que o evangelho de Cristo pregava o amor e a graça de
Deus. Foi excomungado. Na França, João Calvino
pregava que a salvação do homem dependeria dos
atos praticados em vida.
Para contra-atacar esses argumentos religiosos, a Igreja Católica
aprovou o acréscimo à Bíblia de alguns livros
que até então não tinham sua autenticidade
comprovada – os chamados apócrifos. Os protestantes
não aceitaram, por isso sua Bíblia têm menos
livros.
Na visão do sociólogo Max Weber (1864-1920) a difusão protestante
esteve associada ao desenvolvimento da cultura capitalista, ao tornar o acúmulo
de riquezas lícito.
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Tsuli Narimatsu
Esvaziar a candidatura do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho,
já virou palavra de ordem no Palácio do Planalto.
A tarefa, entretanto, passa pela conquista do eleitorado evangélico – que
apesar de não ter um projeto político comum, sonha
em eleger um presidente da República com a mesma visão
religiosa. Trata-se de um grupo numeroso, formado por 26 milhões
de pessoas – segundo o IBGE – e equivalente a 15% da
população brasileira.
Manobras nesse sentido já se tornaram claras. Na semana passada
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Porto Alegre
para participar da 9ª Assembléia do Conselho Mundial
de Igrejas (CMI), onde discursou para líderes de 350 igrejas
anglicanas, ortodoxas e protestantes (entre presbiterianas, metodistas,
batistas) – uma fatia do eleitorado evangélico que segundo
pesquisas preferiu Garotinho (48%) e Serra (30%) em 2002 (ver tabela).
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A aproximação com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ),
bispo da Universal, é outro indicador de que o presidente,
apesar de esconder suas pretensões à reeleição,
está empenhado em dividir o voto evangélico. Lula tenta
convencer Crivella a disputar o governo do estado do Rio pela nova
legenda (o Partido Republicano Brasileiro - PRB) tendo o aval presidencial
em troca de uma aliança nacional. As negociações
têm sido tão intensas que o bispo já se tornou
freqüentador assíduo do Planalto e virou até motivo
de piada. "Pô Crivella, o Lula está tão
interessado no seu apoio que até parou de beber", disse
o senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) – cotado para se candidatar
ao governo do Rio com o apoio da governadora Rosinha Matheus, mulher
de Garotinho.

Lula discursa na 9ª Assembléia
do Conselho Mundial de Igrejas |
Em setembro passado o vice-presidente José Alencar deixou
o PL na companhia de outros deputados rumo ao recém-criado
PRB, aberto com a assinatura de 612 mil fiéis da Igreja Universal.
Muita gente estranhou. Alencar contou que foi convidado pelo PMDB,
PTB e PSB, mas preferiu a nova legenda. "Eu tenho mania de começar
da estaca zero", justificou à época. O que poucos
sabem é que a escolha foi feita com o aval de Lula – que
não desejava ver o vice engrossando as fileiras do PMDB. "Antes
de mudar, consultei o presidente Lula sobre a minha ida ao Partido
Republicano", reconhece Alencar, hoje cotado para ser o vice
de Lula .
Ao colocar um aliado no PRB e atrair o partido, Lula traria para
si os votos de uma das maiores e mais bem articuladas denominações
evangélicas, a Igreja Universal do Reino de Deus. São
cerca de 10 milhões de membros, milhares de templos e um poder
de comunicação incomparável, tendo sob seu controle
as redes de TV Record e Mulher e jornais como a Folha Universal – com
tiragem de 1,5 milhão de exemplares por semana –, centenas
de rádios e retransmissoras espalhadas pelo País.
Medo – Lula tem se mostrado especialmente preocupado com o
desempenho de Garotinho nas últimas pesquisas e seu poder
de comunicação, garantem interlocutores próximos.
O temor, na avaliação do cientista político
Gaudêncio Torquato, é plenamente justificável. "Garotinho
poderá tirar uma fatia maior do eleitorado de Lula no 1º turno,
já que trabalha na mesma faixa de eleitores C, D e E do presidente
e tem de 8% a 15% nas pesquisas de intenção de voto".
Num ano em que os tucanos devem levar mais votos das classes média
e alta, uma vez que a rejeição a Lula – que se
tornou a maior de todos os pretendentes ao Planalto, segundo a última
pesquisa Datafolha – se concentra nessa parcela de eleitores,
não há como o presidente se dar ao luxo de perder votos
nas camadas mais populares.
Em 2002, 15 milhões de brasileiros votaram em Garotinho – montante
equivalente a 18% dos votos válidos. Nada mal se comparado
ao desempenho de José Serra, com 20 milhões de votos
(23%), e de Lula, que recebeu 39 milhões de votos (46%) no
1° turno. Um verdadeiro milagre da multiplicação
para um candidato que contou apenas com um minuto de televisão
e disputou a presidência pelo PSB.
Apoio de irmão – Na época, Garotinho contou com
o apoio de praticamente todas as igrejas evangélicas, incluindo
a Universal. Mas o desempenho, segundo o próprio candidato,
não pode ser creditado apenas aos irmãos de fé. "Sou
evangélico mas tenho eleitores de todas as religiões.
As pessoas podem até se identificar com a minha fé mas
não vão me eleger só por causa disso",
reconhece o ex-governador do Rio. Garotinho minimizou os dados da
pesquisa Datafolha, que apontou sua queda de 10% para 8% e o aumento
das intenções de voto para Lula, de 33% para 39%. Disse
que está concentrado na campanha interna do PMDB, cuja prévia
acontecerá no próximo dia 19.
De acordo com o Estudo Eleitoral Brasileiro de 2002 que mapeou o
avanço das religiões sobre os domínios da política,
o que diferencia o eleitor evangélico de outros, como católicos
e espíritas, é a mobilização das autoridades
religiosas na indicação de candidatos. "Os evangélicos
compõem um público que potencialmente pode se tornar
clientela cativa de determinadas ofertas políticas, se suas
lideranças religiosas optarem por mobilizá-las",
alerta a cientista política Simone Bohn, da USP.
A TERCEIRA MAIOR BANCADA DA CÂMARA
A cada nova eleição as igrejas evangélicas expandem sua
representação política.
Se fossem unidas sob um mesmo partido, teriam a terceira maior representatividade
da Câmara dos Deputados, atrás apenas das duas maiores legendas:
o PT (88) e o PMDB (87).
De 1998 a 2002, o número de deputados protestantes passou de 48 para 62.
Um crescimento de 25% entre uma eleição e outra. Segundo o levantamento
do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), as novas cadeiras
foram conquistadas com um acréscimo de cinco milhões de votos dos
fiéis.
Na divisão de votos e representação por igrejas, a Assembléia
de Deus dispara. Elegeu 23 deputados federais que são membros da igreja
ou apoiados por ela. A Universal do Reino de Deus conseguiu 'eleger' 22 deputados
federais, sendo que 18 são membros efetivos e participantes, enquanto
outros quatro receberam apoio da igreja nos estados. A terceira força
evangélica está nas mãos dos batistas, que levaram a Brasília
oito representantes. Os demais deputados pertencem a outras denominações
como Metodista, Quadrangular, Presbiteriana e igrejas pentecostais como a Deus É Amor
e a Sara a Nossa Terra. (TN)
Candidatura?
Alencar desconversa.
Fábio
Motta/AE
" Eu
não sou candidato a nada.
O que não significa que não possa vir a me candidatar."
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José Alencar acumula
aos 74 anos o cargo de vice-presidente da República
e Ministro da Defesa. Em outubro passado, o político
mineiro deixou o Partido Liberal (PL) – sigla
envolvida no escândalo do mensalão
e cujo presidente, Waldemar da Costa Neto renunciou
para escapar da quase certa cassação – para
o recém-criado Partido Republicano Brasileiro
(PRB). Recentemente, pediu permissão para
deixar o Ministério da Defesa até 31
de março, data máxima estabelecida
pela legislação eleitoral para
que possa concorrer nas próximas eleições.
Hoje, Alencar está cotado como candidato à presidência
por seu partido, ou como vice na chapa de Lula.
Sobre o assunto ele apenas dá uma risadinha: "Tudo
vai depender das articulações".
O senhor é candidato à Presidência,
ao governo de Minas Gerais ou a uma cadeira no
Senado?
Eu não sou candidato a nada. O que não significa que
não possa vir a me candidatar (risos). Tudo vai depender das
articulações.
Conte um pouco sobre sua saída
do Partido Liberal rumo ao Partido Republicano...
Saí do PL por causa dos escândalos para voltar para casa.
Os partidos começaram a me fazer convites. Poderia ter ido para
o PMDB, PTB ou PSB. Ingressei num partido novo que não tem fundo
partidário (recursos) e nem horário de televisão.
Nasce da estaca zero. E eu tenho mania de começar da estaca
zero. Assim foi toda a minha vida.
Como será o Partido Republicano,
visto que as 612 mil assinaturas de filiação
para a obtenção do registro prévio
vieram de fiéis da Igreja Universal?
Esse partido será um grande partido. É sério.
Absolutamente laico. Não possui nenhum comprometimento clerical.
O fato de ter apoio da Universal... gostaríamos que o partido
tivesse todo o tipo de apoio. Quem segue o evangelho é evangélico.
Evangelho é a doutrina cristã. Cristãos são
a maioria brasileira.
Mesmo assim o partido tem portas abertas para os que não participam
da nossa influência religiosa. Contamos com apoio, por exemplo,
de gente do naipe do (Roberto) Mangabeira Unger, professor titular
de direito da Universidade de Harvard (EUA). (TN)
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CIENTISTAS
POLÍTICOS JÁ CONSIDERAM
O CLIENTELISMO RELIGIOSO COMO UM FATOR DE DECISÃO
ELEITORAL
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Rejeição
influencia muito mais que apoio
Tsuli Narimatsu
Dida
Sampaio/AE
Rosinha
Matheus
Alaor Filho/AE

Anthony Garotinho
Clayton de Souza/AE

Multidão de fiéis mostra sua força em marcha pela
cidade de São Paulo |
Na política, poucos são os candidatos que conseguem
transferir os votos de seus eleitores para seus sucessores
nos cargos ou outros candidatos. Raros são os casos – como
Maluf e Pitta para a prefeitura de São Paulo (1996),
Anthony Garotinho e Rosinha Matheus para o governo do Rio
(2002). E, também em 2004, o crescimento da candidatura
José Serra à prefeitura de São Paulo
depois que Alckmin entrou efetivamente em sua campanha. Os
evangélicos já provaram esse tipo de influência.
Mas trabalham ainda com uma outra arma, talvez até mais
poderosa e decisiva: a rejeição.
"
Não vote" – Segundo o bispo da Universal
e senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) mais do que transformar
o púlpito em palanque, a principal estratégia
dos pastores investidos de 'cabos eleitorais' é difundir
a rejeição. "Os pastores são mais
efetivos para tirar votos. Quando eles dizem 'não
vote nesse ou naquele' e deixa a indicação
em aberto, o povo respeita a negativa".
Cientistas políticos que estudam a influência
dos evangélicos nas urnas já identificam o
populismo religioso como uma variável para analisar
o cenário de uma eleição. "O populismo
já predominava, à exemplo de Lula, mas Anthony
Garotinho introduziu uma novidade. Aliou a religião,
criando uma espécie de populismo religioso que demonstrou
excelentes resultados eleitorais em 2002", afirma César
Jacob Romero, da PUC-RJ.
Slogan – "Existe um slogan de que crente vota
em crente mas isso nem sempre acontece", lembra David
Fleischer, da Universidade de Brasília. Ele acredita
que a transferência de votos seja muito mais mito do
que realidade, salvo alguns "segmentos étnicos
ou religiosos, independentemente de partido, tais como a
comunidade japonesa, policiais militares ou evangélicos – que
vez ou outra seguem e elegem candidatos indicados por políticos
de sua comunidade".
"
A transferência de votos de Garotinho ficou demonstrada
na votação da mulher dele. Ele tem uma influência
maior, principalmente sobre seus eleitores evangélicos”,
diz Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal
de Minas Gerais.
Escalada – Ari Pedro Oro, da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, estudou a fundo a incursão de parlamentares
da Igreja Universal na política e diz que só a
partir dela é que outras igrejas se mobilizaram politicamente.
Segundo ele, em 1986, a Universal elegeu seu primeiro deputado
federal; em 1990, foram três federais e seis estaduais.
Em 1994, a igreja dobrou sua bancada na Câmara e ainda
elegeu oito estaduais. A grande arrancada ocorreu em 1998,
quando o contingente subiu para 17 federais e 26 estaduais.
Em 2002, um pequeno recuo, com a eleição de
16 federais e 19 estaduais. O desempenho, segundo Oro, está relacionado
ao carisma institucional da igreja e ao uso intensivo da
mídia – o que acabou incentivando outras denominações
a irem às urnas. "O sucesso político da
Universal produziu um efeito mimético sobre outras
igrejas e religiões, que também procuraram
expressar o seu capital político e poder institucional",
diz o cientista político.
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Um
eleitorado dividido, mas fiel
Ao analisar o comportamento do eleitor
evangélico nas eleições de 2002,
por denominação, cientista política
comprova a preferência por Garotinho
Alex Ribeiro/DC
Simone
Bohn, da USP |
O grupo evangélico, por suas
características específicas– como
menor exposição a jornais e revistas, elevada
exposição a autoridades religiosas e escolha
eleitoral influenciada por suas lideranças – constitui
um segmento extremamente importante para qualquer candidato.
A conclusão faz parte do trabalho de pós-doutorado
da cientista política Simone Bohn, da USP, baseada
na análise do comportamento dos evangélicos
brasileiros nas urnas.
Se o PRB lançar candidato próprio à presidência
ou fizer uma aliança com um não-evangélico, a candidatura
Garotinho sofre um baque?
A viabilidade de uma eventual candidatura presidencial de Anthony Garotinho – caso
ele realmente seja o escolhido no PMDB – depende muito do eleitorado
evangélico. De acordo com os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro que
eu analisei, na eleição de 2002, 51% dos evangélicos afirmaram
ter votado nele. Se considerarmos que, em 2000, eles representavam cerca de
15% da população brasileira, o apoio deste segmento religioso
se constitui extremamente importante para as candidaturas presidenciais. Se
houver o apoio das lideranças a outro candidato, Garotinho pode ser
enfraquecido.
Um dado
instigante da sua pesquisa mostra que os fiéis da Assembléia de
Deus votaram em Lula (54,9%) no 2º turno sendo
que a igreja fechou com o Serra. Como analisar isso?
O que a minha pesquisa mostra é: em comparação com outros
grupos religiosos, a maioria evangélica tem baixa exposição
aos meios de comunicação, como jornais, telejornais e rádio.
Por outro lado, em contraste com os membros de outros credos, eles estão
extremamente expostos a suas autoridades religiosas. Cerca de 83% freqüentam
os cultos mais de uma vez por semana. Entre os membros da Universal, essa porcentagem
sobe para cerca de 92%. Além disso, para os evangélicos, um dos
principais critérios na escolha de um candidato é o apoio dos
pastores . Ou seja, eles compõem um público que potencialmente
pode se tornar clientela cativa de determinadas ofertas políticas, se
suas lideranças religiosas optarem por mobilizá-los. Isso não
significa que todas se manifestem politicamente. Os líderes da Congregação
Cristã no Brasil trabalham com a idéia de que religião
e política não devem ser misturadas. No caso dos membros da Assembléia,
eles foram os que mais apoiaram Garotinho no 1º turno (62%) – que
ficou com Lula no 2º turno. Mas também foram um dos maiores apoiadores
de Serra (42,9%), depois dos presbiterianos, metodistas e luteranos (50%).
Crente não vota em crente. Mas parece que para
presidente isso muda completamente...
A lógica da disputa presidencial parece ser diferente da escolha eleitoral
para outros cargos. Em virtude do menor número de opções,
as características pessoais dos candidatos parecem importar para alguns
eleitores tanto quanto suas propostas. Nas eleições para outros
cargos, o mesmo processo é praticamente inviável. Em 2002, durante
todo o processo de construção da candidatura Garotinho, desde
a conquista do apoio de diversas denominações até seu
marketing final, foi posta uma grande ênfase em sua identidade evangélica.
E obviamente, isso lhe rendeu enorme quantidade de votos. No caso de outros
pleitos, é mais difícil para o candidato conseguir veicular amplamente
sua confissão religiosa, uma vez que o acesso aos eleitores é reduzido.
A bancada evangélica só parece se unir
em projetos de cunho moral - não em torno de um projeto
social. Seria pela relação entre os protestantes
e o espírito do capitalismo?
O estudo mostra que os deputados federais e senadores – que na vida privada
são evangélicos – na arena política estão
filiados a partidos muito diferentes, que esposam ideologias distintas, se
não conflitantes. Portanto, eles se comportam de uma maneira tal que
a identidade evangélica só é mobilizada às vezes,
diante de questões muito específicas como o aborto. A diversidade
do seu comportamento legislativo não está diretamente relacionada
aos rumos da reforma protestante ou ao igualitarismo à la Teologia da
Libertação recém adotado por católicos. Pelo contrário, é fruto
de diferentes opções partidárias.
Se os evangélicos se
unissem numa plataforma política, poderiam "dominar" o
Brasil?
As denominações evangélicas no Brasil são muitas
e heterogêneas. Além das divergências teológicas
eles também se subdividem na composição econômica,
em termos de renda e escolaridade. Cada igreja e denominação
costuma alinhavar sua própria aliança política, o que
dificulta a criação de uma organização partidária
com penetração nacional. É uma tarefa de longo prazo,
que requer capital, um grande contigente de pessoas e, acima de tudo, um projeto
político claro e unificador. Não acredito que esse projeto exista
hoje.
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