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O lançamento da paródia Os vampiros que se mordam é o mais recente capítulo da onda sobre o assunto que parece longe ainda de mostrar cansaço. Neste ano, as salas de cinema já receberam Eclipse, terceira etapa da saga Crepúsculo. Na TV, as séries True Blood e The Vampire Diaries exploram com sucesso o sangrento filão: a primeira com uma abordagem mais erótica e crítica do lado conservador da sociedade norte-americana; a outra com ingredientes ainda mais românticos e sentimentais que os dos livros de Stephenie Meyer.

Mas que ninguém imagine haver alguma novidade na exploração cômica do tema. Um dos maiores sucessos do polonês Roman Polanski foi A dança dos vampiros, de 1967, em que a galhofa sobre o tema corria solta. No filme, Polanski contracenava com sua mulher Sharon Tate, que seria brutamente assassinada pela gangue de Charles Manson em 1969. Mel Brooks também investiu no tema com Drácula, morto mas feliz, um de seus filmes menos bem sucedidos, com Leslie Nielsen no papel-título.

Em 1909, pouco mais de dez anos após a publicação de Drácula, do irlandês Bram Stoker, e ainda na infância da sétima arte, os espectadores já podiam experimentar o medo e o fascínio pelas criaturas da noite projetados na sala escura com Vampire of the coast.

Ao longo da década seguinte, o termo vamp seria atribuído não a seres dotados de presas, sugadores de sangue, mas como sinônimo de mulheres fatais capazes de levar homens apaixonados à ruína, com seus caprichos e traições. A maior estrela do período, Theda Bara (à esquerda), com olheiras marcadas por pesada maquiagem, era qualificada como “The Vamp” nos créditos iniciais de O escravo de uma paixão (A fool there was, 1915), um de seus grandes sucessos.

Embora muitas produções de terror fossem realizadas na Europa e nos Estados Unidos até então, a figura do vampiro só voltaria a ser levada realmente a sério com Nosferatu, uma sinfonia do terror (Alemanha, 1922), obra-prima do diretor F.W. Murnau, cheia de atmosfera e com uma composição repulsiva do ator Max Schreck. A lenda de que o intérprete seria mesmo um ser sobrenatural foi recriada em 2000 com Willem Dafoe e John Malkovich em A sombra do vampiro. O cineasta Werner Herzog também se interessou pelo drama e o refilmou, quase cena por cena, mas em cores, com Klaus Kinski e Isabelle Adjani, em 1979.

O filme de Murnau foi alvo de uma ação da viúva de Bram Stoker, que alegou plágio e conseguiu que a justiça determinasse a destruição dos negativos. Algumas cópias foram preservadas, porém, e o clássico sobreviveu até os dias de hoje. Uma adaptação mais fiel do livro chegou à Broadway em 1930 e tornou um astro seu protagonista, o húngaro Bela Lugosi. Os estúdios da Universal compraram os direitos da peça e, com o mesmo Lugosi, iniciaram uma longa linhagem de filmes de terror que se tornaram sua marca registrada até o final da década seguinte.

O ator morreu em 1956, pobre e dependente de drogas, mas tornou-se um nome tão marcante na história do cinema que nos anos 80 virou música do grupo de rock gótico Bauhaus: Bela Lugosi’s Dead foi interpretada pela banda na sequência inicial de Fome de Viver (The hunger, 1983), estiloso filme sobre vampirismo com David Bowie e Catherine Deneuve. Ele também foi retratado em Ed Wood, de TIm Burton, em uma caracterização que deu o Oscar de coadjuvante a Martin Landau.

O simbolismo evocado pelo personagem também atraiu o interesse do austríaco Carl T. Dreyer, cineasta meticuloso e filosófico, cujo Vampyr, de 1932, recebeu status de obra de arte, figurando entre suas melhores criações. A marca do vampiro (1935) trazia Fay Wray, a mocinha de King Kong, novamente assediada.

A partir dos anos de 1940, o gênero entrou em declínio, e só o estúdio inglês Hammer lhe devolveu as forças: o rosto marcante e o porte imponente (1,96m) de Christopher Lee. Horror de Drácula (1958) ressuscitou o gênero, trazendo o vampiro em oposição ao brilhante Doutor Van Helsing de Peter Cushing. Os dois voltariam a se encontrar na continuação As noivas de Drácula (1960), e Lee faria ainda Drácula, o príncipe das trevas (1966).

O italiano Mario Bava fez suas incursões em Drácula, o vampiro (1963) e na ficção-cient[ifica O Planeta dos vampiros (1963), este com a brasileira Norma Bengell no elenco. O veterano do terror John Carpenter também investiria na mistura com Fantasmas de Marte (2001).

O terror não ficou imune à cultura pop e o próprio papa do movimento, o artista plástico Andy Warhol, criou um Drácula (1974) com muita cor e alta voltagem sexual. No nascedouro do movimento glam, o musical Rocky Horror Picture Show, de carreira espetacular na Broadway, foi levado ao cinema em 1975, com Tim Curry compondo um vampiro transexual. O fenômeno da blaxplotation (série de filmes de ação com elenco e diretores negros) inovou com seu vampiro afro-americano, Blácula (1972). Wesley Snipes teria mais êxito como vampiro negro em Blade, o caçador de vampiros (1998), início de uma franquia que até agora já rendeu três filmes.

Depois do sucesso de Os embalos de sábado à noite, o diretor John Badham realizou o Drácula (1979), uma adaptação de montagem da Broadway com o mesmo ator principal, Frank Langella, e a presença de Laurence Olivier. Naquele ano também saiu a comédia romântica Amor à primeira mordida (Love at first bite), com George Hamilton, que incluía números de música e danças disco.

Nosferatu, uma sinfonia do terror (1922)
Entrevista com o Vampiro (1994)
Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, 1996)
Anjos da Noite - A Rebelião ( Underworld: Rise of the Lycans, 2009)

Na década seguinte, a vertente mais explorada foi o “terrir”, inaugurada com A hora do espanto (Fright night, 1985), de Tom Holland, em que Roddy MacDowall vivia o caça-vampiros televisivo Peter Vincent, chamado por um grupo de adolescentes para dar cabo de um novo morador da vizinhança muito suspeito. Sustos, correria e um tom satírico percorriam a trama. O subgênero rendeu produções como The monsters Squad (1987). Os garotos perdidos (Lost Boys, 1987), com ecos de Peter Pan, também era voltado para o público adolescente e ficou tão marcado na memória do público que teve uma continuações duas décadas depois, em 2008 e 2010.

Por esta época já se associava a origem da lenda a Vlad III, soberano romeno da Idade Média conhecido pela crueldade, que recebeu o cognome de O Impalador, por conta de seu método preferido de execução dos inimigos. O norte-americano Francis Ford Coppola mencionou o personagem histórico em seu Drácula de Bram Stoker (1992), onde Gary Oldman atuou sem exageros, mas ao qual Anthony Hopkins emprestou um tom levemente caricatural ao seu Van Helsing.

Os livros de Anne Rice sobre o carismático vampiro Lestat não tiveram adaptações satisfatórias. Em 1994 Entrevista com o vampiro contava com os dois maiores nomes de Hollywood de então, Tom Cruise e Brad Pitt, mais o astro espanhol Antonio Banderas. O resultado, porém, foi confuso. A rainha dos condenados, com Stuart Towsend como Lestat, era estrelado pela cantora Aaliyah, que morreu em um acidente aéreo antes da conclusão das filmagens.

O descolado Quentin Tarantino também aderiu à onda e produziu Um drinque no inferno (From dusk till dawn, 1996), dirigido por Robert Rodriguez, então recém-revelado pela realização de El Mariachi. Mas, apesar da presença de George Clooney, ficou mais para o trash.

E os japoneses, que no século 21 vêm apostando com muito sucesso em produções de terror, têm criado animações sobre vampiros como Vampire Hunter D: Bloodlust (2000), Blood, the last vampire (2000) e Hellsing (2006, abaixo à esquerda).

A bela e muito feminina Kate Beckinsale revelou um vigor inusitado ao estrelar Anjos da Noite (Underworld, 2003, à direita), visão acentuadamente gótica de uma guerra centenária entre vampiros e lobisomens (lycans). Além das três continuações, Beckinsale também esteve em Van Helsing, o caçador de monstros (2004), aventura juvenil do mesmo criador da série A Múmia, Stephen Sommers.

Com Sarah Michelle Gellar e uma bem dosada mescla de ação e romance, Buffy, a caça-vampiros (1997-2003, abaixo à direita) foi uma série de TV tão bem sucedida, que deu origem a um raro caso de spin-off (série derivada de outra) – Angel (1999-2004),  com o galã David Boreanaz.

Outro filme sobre vampiros que saiu da literatura é o sueco Deixa ela entrar, que ganhou mais de quarenta prêmios em festivais como os de Tribeca e Toronto. O romance de John Ajvide Lindqvist foi lançado em 2004 e o filme dirigido por Tomas Alfredson, em 2008. A história, ambientada no subúrbio de Estocolmo nos anos 80, retrata a vida de Oskar, um garoto 12 anos atormentado pelos colegas da escola, que se apaixona por Eli, uma vampira da mesma idade. O suspense já é cogitado para um remake americano.

Até mesmo a TV israelense aproveitou a voga, com a criação de Split, série voltada para a criançada e transmitida agora pelo canal pago Boomerang. O seriado conta a história de Ella, uma garota de 15 anos, que sempre se achou diferente das outras pessoas. Disfarçado como um novo estudante de sua escola, eis que surge em sua vida Leo, um belo vampiro de 500 anos enviado em uma missão justamente para encontrá-la. Original, não? À medida em que os capítulos avançarem, ela descobrirá que também é meio-vampira.

E assim chegamos a Crepúsculo, a saga que levou ao ápice a obsessão adolescente (das adolescentes, na maioria) pelos aspectos românticos do vampirismo. Enquanto a série True Blood explora as metáforas de preconceitos sexuais ou sociais, nas adaptações dos livros de Stephenie Meyers são os desajustes e ritos de passagem da juventude que formam o pano de fundo. A frágil Bella e o pálido Edward trazem de volta os amores impossíveis dos romances do século 19, cheios de inocência, sofrimentos, atitudes nobres e sentimentos delicados. As encarnações são muitas, mas o mistério dos seres amaldiçoados com a vida eterna e sedentos de sangue perdura – e ainda estará por muito tempo na imaginação das plateias.


Os Vampiros que se mordam

Por Erika Corrêa

Satirizar heróis, vilões e mocinhos do cinema é prática comum em Hollywood.  Após a franquia Todo Mundo em Pânico, que fazia rir de filmes de terror dos anos 1990 a 2000, faturar milhões, a febre de zombar de outras produções difundiu-se ainda mais no mercado cinematográfico.

A dupla norte-americana Jason Friedberg e Aaron Seltzer ao perceber o potencial de arrecadação desses filmes, se especializou no assunto e lançou diversos títulos como Deu a Louca em Hollywood, Super-Heróis - A Liga da Injustiça e Espartalhões.

O último e melhor deles, Os Vampiros que se Mordam, já estreou bem-sucedido. Afinal, é sátira da trilogia mais lucrativa dos últimos tempos - Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse.

A comédia ridiculariza principalmente a adoração fanática em torno da saga de vampiros criada pela escritora Stephenie Meyer. Os meninos que assistiram algum dos episódios para satisfazerem as namoradas e dormiram na sessão, têm agora a melhor vingança: vão poder gargalhar com a versão da sonsa Bella e os outros ídolos sobrenaturais que fizeram suas amadas suspirarem.

A atriz Jenn Proske interpreta com muita competência o papel originalmente de Kristen Stewart, com todos os trejeitos em uma variante mais assanhada. Há também diversas referências pop do mundo adolescente, como a cantora Lady Gaga, ou as séries Gossip Girl e Buffy.

Como o filme satiriza quase que cena por cena dos originais, quem não viu nenhum dos capítulos pode perder a piada. A bilheteria é que vai continuar polpuda, já que vampiro atualmente é sinônimo de lucro, seja ele remake, cover ou satírico.

 
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