As lutas estão em alta novamente. A febre das MMA (Artes Marciais Mistas) tomou conta do público em 2011, tendo entre suas estrelas brasileiros. E quase diariamente é possível sintonizar algum confronto valendo um degrau rumo à conquista dos cinturões das federações. Mesmo com a oposição dos que o consideram brutal, o esporte está por toda parte: nas telas instaladas em bares e casas noturnas, em canais de TV por assinatura criados exclusivamente para cobrir a modalidade e até em enredos de novelas. Terá essa nova variante de combate corpo a corpo nocauteado para sempre o interesse pelo boxe, que por mais de um século manteve aficionados, movimentou as bancas de apostas e no Brasil criou ídolos como Éder Jofre, “Maguila” e “Popó”? É uma questão que o tempo se encarregará de resolver. Para o cinema, porém, ainda promete ser duradouro o fascínio do ringue, com seus dramas e seus heróis, forjados na superação, erguidos e derrotados pela própria obstinação ou por grandes armações de bastidores.
Nas últimas premiações da Academia de Hollywood, o boxe mostrou-se um tema que não para de render grandes histórias. Em 2005, Menina de Ouro, de Clint Eastwood (à esq.), recebeu sete indicações ao Oscar e faturou quatro - incluindo filme e diretor. No ano seguinte, A Luta pela Esperança, com Russell Crowe, ambientado na Grande Depressão, não teve a mesma sorte. Na premiação mais recente, O Vencedor, de David O. Russel, consagrou as atuações de Christian Bale e Melissa Leo, como figuras predominantes de uma família decadente de Massachussetts que vê no sacrifício do caçula (Mark Wahlberg) sua tábua de salvação.
Quando se pensa em boxe nas telas, lembra-se inevitavelmente do personagem Rocky, de Sylvester Stallone, cujo apelo às plateias rendeu um filme premiado com o Oscar em 1976 e quatro sequências de sucesso. Para criar seu herói ítalo-americano, Stallone teria se inspirado no pugilista amador Chuck Wepner, que aguentou 15 assaltos contra o gigante Muhammad Ali.
As tramas de boxeadores no cinema, como drama ou comédia, remontam aos tempos do cinema mudo. Em O Boxeador (1926), o pequenino, mas atlético, Buster Keaton, em cena antológica, recebe e esquiva-se de golpes com precisão matemática, sem mover um músculo do rosto. Chaplin também criou uma hilariante coreografia no ringue em Luzes da Cidade (1931, à esq.), quando o vagabundo luta por dinheiro para conseguir pagar a cirurgia de sua amada
florista. O período silencioso produziu dezenas de filmes sobre o esporte, inclusive Fight and Win (1924), com o próprio Jack Dempsey, campeão dos pesos pesados da época, que voltaria a atuar no cinema várias vezes.
Mas o grande impacto viria em 1931: o melodrama O Campeão, escrito por Frances Marion e estrelado por Wallace Beery (Oscar de melhor ator naquele ano), emocionou até os que não eram amantes do esporte. Obrigado a representar afeição por aquele que era seu pai e ídolo na trama, o ator mirim Jackie Cooper, passou maus bocados durante as filmagens, destratado diariamente pelo truculento Beery, que odiava crianças. O filme ganhou refilmagem de Zefirelli em 1979 (acima à dir.), com John Voight e Ricky Schroeder.
Talhado para Campeão (1937) contava com um trio de peso: Humphrey Bogart, Bette Davis e Edward G. Robinson. E o rei do rock n’roll, Elvis Presley, até que não se saiu mal calçando as luvas na versão de 1962. O iniciante William Holden teve sua grande chance aos 20 anos, quando Barbara Stanwyck insistiu em sua escalação no drama Conflito de Duas Almas (1939). A base era uma peça de Clifford Odets, em que o rapaz queria ser boxeador, mas o pai sonhava para ele uma carreira como violinista. Já Errol Flynn levou seu tipo de galã ao ringue como o pioneiro Jim Corbett em O Ídolo do Público (1942).
Os anos seguintes trouxeram para o gênero um tom mais realista e crítico. Em Dois Contra Uma Cidade Inteira (1940), James Cagney encarna um atleta explorado por agentes que o obrigam a lutar até com a visão comprometida. John Garfield brilhou em Corpo e Alma (1947), do engajado Robert Rossen, que sublinhava o extraordinário trabalho de fotografia do mestre James Wong Howe. Começava a era das câmeras próximas aos lutadores, em que tudo era captado em detalhes: suor no rosto, músculos contraídos, supercílios cortados e expressões desafiadoras no olhar de cada oponente. Na vida real, o desafio seria maior: tanto Rossen quanto seu roteirista Abraham Polonsky seriam perseguidos pelo maccartismo por suas ligações comunistas. O primeiro delataria amigos para se salvar e o segundo se tornaria um dos “Dez de Hollywood” a ir para a prisão.
Em 1949, Kirk Douglas vestiu o calção e mostrou vigor no noir O Invencível. Mas naquele ano o clássico do gênero foi Punhos de Campeão, com
Robert Ryan, sobre um pugilista subestimado que, obrigado a perder em uma luta arranjada, decide enfrentar o esquema e afirmar seu valor. A ideia seria aproveitada na subtrama do personagem de Bruce Willis em Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino. Além da narrativa crispada, Punhos trazia um aspecto singular: toda a ação era desenrolada em tempo real: 73 minutos, um efeito reforçado pelos relógios mostrados ao longo da ação. As tramoias desse meio foram mostradas com rara crueza em Farsa Trágica (1956), com Humphrey Bogart, Réquiem para um Lutador (1962, acima à esq.), com Anthony Quinn e Cidade das Ilusões (1974), com Stacy Keach.
O cineasta Martin Scorsese criou o exemplar mais cultuado ao biografar Jake La Motta em O Touro Indomável (1980) (abaixo), onde transparecem as referências aos dramas de boxe dos anos 40 e 50 - a começar pelas imagens em preto e branco. Lutador de temperamento irascível dentro e fora do limite das cordas, La Motta pôde ver a adaptação de sua trajetória, do declínio à expiação, encarnada por Robert De Niro no auge da forma. Pela intensidade de seu desempenho e pelos sacrifícios que sua composição exigiu (treinamento em boxe, musculação e o acréscimo de 30 quilos para a fase final do personagem), De Niro não deu chances aos oponentes na disputa pelo Oscar.

Outros ases do boxe tiveram suas vidas contadas por grandes astros de Hollywood. Paul Newman foi assessorado pelo próprio Rocky Marciano, delinqüente juvenil elevado a campeão, em Marcado pela Sarjeta (1956). Denzel Washington fez um digno Rubin Carter, vítima de um erro judiciário, em Hurricane – O Furação (1999). Will Smith viveu Cassius Clay em Ali
(2001, abaixo à dir.), mas falhou em captar a essência do mito contestador dos anos 60 e 70. Com todos os exageros, o fanfarrão Muhammad Ali havia se retratado melhor no registro documental O Maior de Todos. Mas ninguém superou o caótico Mike Tyson, que contou sua própria história com humildade e franqueza, olho na câmera, em Tyson, de 2010.
Brad Pitt entrou no ringue de calça de brim e chapéu no thriller Snatch, Porcos e Diamantes (2000, à esq.), em que interpreta um pugilista cigano de fala incompreensível que transita pelo submundo londrino. O universo das lutas clandestinas disputadas sem luvas – o “boxe irlandês” - está em Knuckle, documentário de Ian Palmer, destaque no Sundance Festival.
O lançamento recente de Gigantes de Aço pode ser um indicador de que a capacidade de criar histórias para humanos no ringue pode estar se esgotando. Nesta produção da Dreamworks estrelada por Hugh Jackman e Evangeline Lilly, os protagonistas são robôs que disputam um campeonato em um futuro próximo, quando o boxe se tornou um esporte de alta tecnologia.