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Na noite de 25 de março 1954, acompanhado dos filhos Nancy e Frank Jr., Frank Sinatra compareceu à cerimônia de entrega do Oscar e, mesmo sem ter sido indicado para o prêmio principal de atuação, sairia como o maior vencedor da festa. A conquista da estatueta de melhor coadjuvante por seu desempenho como Maggio em A um passo da eternidade (From here to eternity) foi entusiasticamente saudada por seus pares de Hollywood, pela imprensa e pelos fãs, marcando o encerramento do período mais difícil de sua vida, assim como seu retorno aos primeiros lugares nas paradas do rádio, na vendagem de discos e o sucesso finalmente alcançado na TV. Era também o nascimento do Sinatra cool, autoconfiante, de bem com a vida e cheio de charme que atravessaria despreocupado a segunda metade dos anos 1950, uma fase áurea pela qual sua carreira é sempre lembrada.

Adolescente, com a personalíssima mamma Dolly.
Adolescente, com a personalíssima mamma Dolly.

Seu momento mais sombrio, porém, embora descrito outras vezes em linhas gerais, ganha agora uma análise em profundidade com o lançamento de Frank - The Voice, de James Kaplan, ainda inédito no Brasil, US$ 35 nas livrarias virtuais). Autor de uma biografia do tenista John McEnroe e co-autor de Dean & Me, escrito com o comediante Jerry Lewis, Kaplan revela, em impecável ordem cronológica e quase 800 páginas, o mito Sinatra e a atormentada vivência que forjou o ídolo, entre os anos de 1915 e 1954.

Francis Albert Sinatra era filho único de um casal de imigrantes radicados em Nova Jersey, que usavam apelidos irlandeses – Marty e Dolly – para driblar os preconceitos contra os dagos, como eram chamados pejorativamente os italianos. A influência mais forte veio da mãe, um dínamo disposto a escapar da pobreza por todos os meios ao seu alcance. Dona de um bar onde administrava contatos da política ao crime organizado – tinha como cliente e amigo o temível gângster Dutch Schultz -, ela também reforçava a renda familiar aceitando pedidos para realizar abortos na vizinhança. Sua personalidade era tão imponente e destemida que o escritor Mario Puzo certa vez afirmou ter baseado seu Don Corleone não em um chefão, mas nas características de Dolly Sinatra.

Em família, com Little Nancy, a mulher Nancy e os filhos menores Tina e Frank Jr.
Em família, com Little Nancy, a mulher Nancy
e os filhos menores Tina e Frank Jr.

A influência e os favores que Dolly conseguiu permitiram construir uma situação econômica próspera o suficiente para que o filho fosse criado com todos os confortos e até o luxo de um carro novo ainda na adolescência, em plena década de 1930. Ou pressionar night clubs a abrir espaços para que ele pudesse se lançar ao desejado sonho de desbancar seu ídolo, Bing Crosby.

O livro mostra que, apesar desses convenientes empurrões e episódios de muita sorte, como vencer o concurso de rádio com seu grupo Hoboken Four, em 1935, a carreira de Sinatra não decolou tão rapidamente ou sem tanto esforço quanto se imagina. Na juventude, além de estar sempre em busca de oportunidades profissionais, ele era preocupado em tomar lições de canto e dicção, nadava para melhorar a respiração, ouvia música erudita e, interessado em superar a formação escolar deficiente, lia tudo o que lhe caía à mão, sobretudo obras de filosofia. Nesse tempo, ele viveu experiências memoráveis: em Nova York, por exemplo, assistiu a shows de Billie Holiday que lhe serviram como verdadeiras aulas de uso da voz. E uma noite, em um clube de Nova Jersey, ele teve a oportunidade de cantar Night and Day para o próprio autor Cole Porter, que estava na plateia. Mas, dominado pelo nervosismo, pôs tudo a perder quando teve um “branco” e não conseguiu sair da primeira frase da canção. O fiasco não comprometeria definitivamente sua imagem diante do compositor, que o reencontraria outras vezes e o consideraria um dos melhores intérpretes de seu repertório. Aquela foi a mais evidente demonstração da insegurança e do medo do palco que assombravam o astro, por mais que isso seja difícil de acreditar.

A atuação de Sinatra como crooner máximo em plena era das big bands ocupa a primeira metade do relato de Kaplan, de seu breve tempo a serviço do leader Harry James - com quem teve muita afinidade, mas não ganhou um tostão -, passando pelo disciplinador Tommy Dorsey até à fase de ídolo das bobby soxers - as adolescentes de meias brancas e sapatos bicolores que lotavam seus shows aos milhares e o seguiam aos gritos por toda parte. Com Dorsey, o nome de Sinatra foi projetado nacionalmente, no rádio, nos teatros, nos discos e no cinema. Mas a relação era turbulenta: “Foi a única pessoa de quem tive medo além de minha mãe”, confessava Sinatra, relembrando seus embates profissionais e o tumultuado rompimento, quando precisou acionar suas conexões no submundo para se livrar do contrato e investir na carreira solo. Foi a primeira conexão mais ostensiva do cantor com o crime organizado, embora ele já tivesse utilizado seus serviços para mandar surrar o baterista de Dorsey, Buddy Rich, após um entrevero.

As ligações com a Máfia permeiam todo o livro e não podia ser diferente, tendo em conta que por toda a vida o artista viveu cercado por figuras como os irmãos Fischetti, Frank Costello, Willie Moretti, Carlo Gambino, Sam Giancana e até Bugsy Siegel, gângster retratado por Warren Beatty nas telas.

Mas o autor não conseguiu esclarecer o episódio mais comprometedor para Sinatra, ocorrido durante uma viagem supostamente de lazer a Cuba, feita em 1947. O cantor hospedou-se em Havana no hotel em que estava ocorrendo uma verdadeira convenção da Cosa Nostra, em torno do recém-libertado Lucky Luciano. O FBI registrou a chegada de Sinatra àquele país no mesmo vôo que um grupo de contraventores. Na descida do avião, ele portava uma misteriosa pasta que, segundo investigadores, conteria 2 milhões de dólares para serem entregues a Luciano, como início de uma operação em casas de jogo cubanas. O fato de ele ter sido visto na mesa do chefão na noite seguinte não melhorou muito as coisas, e ele acabaria tendo de enfrentar um inquérito no Senado por conta do passeio. Após anos sendo acusado de ter fugido à guerra, de ideias comunistas e de ser um devasso, finalmente Sinatra enfrentava um risco real.

Kaplan desnuda a figura de Sinatra física e psicologicamente, do parto quase fatal, a fórceps, que lhe deixou seqüelas e cicatrizes resistentes a repetidas cirurgias, a seu peso na juventude e até os detalhes anatômicos que acrescentaram um toque lendário ao seu comportamento de Casanova. O relato mostra que, muito cedo, os envolvimentos de Sinatra com o sexo oposto lhe trouxeram problemas, inclusive com a polícia. Perto do casamento com a namoradinha Nancy Barbato, ele foi preso, acusado de abuso de uma menor. A acusação foi engavetada, mas seria a primeira de uma série de desilusões para a futura esposa, que passaria a maior parte da vida conjugal às voltas com as escapadas do marido, como os duradouros casos com as atrizes Marilyn Maxwell e Lana Turner.

O cantor, porém, nunca havia levado quaisquer dos seus relacionamentos muito a sério antes de seu encontro decisivo com a atriz Ava Gardner. Os dois haviam sido apresentados por um amigo comum quando Ava tinha apenas 17 anos. Em outras ocasiões, eles se encontraram brevemente e, embora a atração crescesse, nada aconteceu antes que ela estivesse divorciada sucessivamente do ator Mickey Rooney e do band leader Artie Shaw. Mas, quando a paixão explodiu, até a ultracatólica mulher do cantor, Nancy, percebeu a seriedade e iniciou um processo de divórcio longo e doloroso para todos. Apesar da folha corrida e de ser um mestre em cantar o amor, pela primeira vez ele estava fora do controle em uma relação.

Ídolo das adolescentes "bobby-soxers"
Sinatra recebe o Oscar de coadjuvante
The Hoboken Four no programa de rádio
Major Bowes Amateur Hour 1935 (primeira gravação)
Ol' Man River - de Quando as nuvens passam (MGM, 1946)

A união coincidiu com seu declínio nas paradas de sucesso e nos filmes da MGM, em cujos estúdios seu comportamento de bad boy era notório. Embora apoiado por colegas como o ator Gene Kelly, pelos compositores Sammy Cahn e Jimmy Van Heusen, por seu agente de publicidade George Evans e pelo diretor da gravadora Columbia, Manie Sacks, Sinatra mergulhou no abismo. Faltava aos compromissos e fazia justiça ao apelido “The Monster” utilizado pelos que conviviam mais de perto com ele. Alternando depressão e irritabilidade, ele perdeu o contrato na Metro, seu programa no rádio e viu seu arranjador mais fiel, Axel Stordhal, ser substituído por Mitch Miller, um músico de instintos puramente comerciais, que só lhe passava canções sem brilho. O momento mais grave se deu quando, em maio de 1950, entrando em cena na boate Copacabana, sofreu uma hemorragia nas cordas vocais ao tentar emitir a primeira nota.

Tudo o que ele havia alcançado desmoronava e ele lidava tão mal com os problemas que, mesmo tendo conquistado a mulher dos seus sonhos, um monumento de beleza, carisma e sensualidade, ele insistia em comprar brigas com ela. Ava podia suportar o temperamento do ator durante as discussões, que, afinal, acabavam sempre em apaixonadas reconciliações. Mas o que ela não tolerava eram as demonstrações de fragilidade.

O livro relata que, após uma separação, ela recebeu um telefonema dele, com uma frase de adeus seguida pelo barulho de um tiro. Desesperada, ela correu para o hotel, onde o encontrou com a cabeça sob um travesseiro furado e a arma ainda fumegante. Ao levantar o travesseiro, ela se deparou com a imagem sorridente dele, que lhe disse: “Olá!”. O casamento naufragaria, mas eles se manteriam amigos e, nos anos difíceis para Ava, o Sinatra maduro lhe mandaria presentes e ajuda financeira regularmente.

Com todos os tormentos, quem não gostaria de ser Sinatra, ao menos por um dia?  Se o levantamento de Kaplan desvenda o lado suspeito e torturado do cantor nos seus anos mais difíceis, ao longo do texto ficam também as virtudes, de pai amoroso, embora distante, amigo dos músicos e arranjador intuitivo, de raro ouvido musical, e sobretudo generoso, sempre disposto a pagar a seus colaboradores bem acima dos padrões e a favorecer aqueles cujo talento admirava. Sem falar na sua obsessão pela higiene pessoal. Nesse retrato, destaca-se também o grande batalhador pela tolerância, pelos direitos humanos e contra os preconceitos. Mas ainda sobrou muito para um Frank - The Voice II.

 

Os altos e baixos da complexa vida de Sinatra renderam diversas publicações. Suas duas filhas escreveram relatos em registros diferentes: Nancy optou pelas memórias em tom de homenagem, com Meu Pai (1985) e Frank Sinatra: An American legend (1998); Tina buscou uma abordagem mais realista com My Father's Daughter: A Memoir. Em biografias não-autorizadas, Earl Wilson tratou das ligações com a máfia (1976) e Kitty Kelley (1986) deu ênfase às relações extraconjugais do artista. Will Friedwald lançou Sinatra! The Song is You: A Singer's Art, e a lista segue extensa.

 
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FranK - The Voice
Do som langoroso
das baladas, ao suingue cheio de verve. Em resumo, blues in the night
Frank Sinatra era um barítono camaleão. Esse atributo raríssimo exasperava tanto o mestre Bing Crosby, a ponto de ele dizer (às vezes brincando, outras inconformado, com ou sem a presença do discípulo): "Talento como o de Frank só aparece uma vez na vida. Por que logo na minha?" Sentencioso em cada palavra que escrevia, o jornalista Paulo Francis, em 1995, comentou que Sinatra tinha a melhor dicção entre os cantores.
Rat Pack: galhofa.

E que, como os melhores cantores wagnerianos, não era apenas solista e, sim, um dos instrumentos da orquestra.

Como barítono camaleão, Sinatrão cambiava entre o baixo-barítono, o tenor e alguns falsetes de vozes femininas líricas – mezzos e contraltos. Atuando, sim, como "mais" um instrumento da orquestra, esmerava-se ao ouvi-la. Os arranjos que os magos Nelson Riddle, Axel Stordahal, Gordon Jenkins e Billy May faziam para ele (Sinatra gravou 2500 canções) se transformaram em partituras preciosas, que Sinatra estudava e reestudava convicto. No dia 14 de junho de 1958, ele entrou em estúdio para gravar Blues In The Night (Arlen/Mercer), com arranjo de Riddle. Antes de vocalizá-lo, passou horas ouvindo os instrumentos. O ataque inicial das flautas; o pizzicato (em ostinato) dos contrabaixos, pulsando o blues; os trompetes em surdina (lamento requerido); trombones, madeiras (oboés e clarinetes) algo solenes, algo langorosos... E cordas (violinos, cellos) quase sem vibrato... Tudo calçado por espessas arcadas das violas...

Nice´N´ Easy: Nelson Riddle.
Blues In The Night : Sinatra ouvia, ouvia e, ao sinal devido, cantou – de uma vez só. Migrando com formidável flexibilidade de barítono ao contralto (ao murmurar algumas notas), até o assobio final: o blues dobrando a esquina... Quem, antes de Sinatra, e depois dele, cantou Blues In The Night assim? Ouça-no no CD Only the Lonely (Capitol). Mais, Sinatra pleno está nos CDs No One Cares (arranjos de Gordon Jenkins/1953/55); Nice ´N´Easy (Nelson Riddle/1956); Come Dance With Me (Billy May/1957). Todos editados pela Capitol. Ao receber o Oscar pelo filme A Um Passo da Eternidade, Sinatra disse que o seu ofício era o de cantor. Falsa modéstia. Ele foi músico, ator, sem dúvida, exímio entertainer como se comprova em Alta Sociedade (1956), no qual dueta com Bing: Wel, Did You Evah?, de Cole Porter. E em suas loucuras ao lado de Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford (a turma Rat Pack). Enfim, para Sinatra nada era demais. O excesso era sempre a medida certa... (Marino Maradei Junior)
No One Cares: Gordon Jenkins.
 
 
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