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Com vida e obra conhecidas em todo o mundo, Charles Chaplin é daquelas figuras icônicas sobre as quais nada de novo parece restar a descobrir. Objeto de diversos documentários, com sua trajetória pessoal e artística fartamente devassada por meio de reportagens, biografias e autobiografias publicadas década após década, a exposição de seu mito parecia esgotada a esta altura, passados 120 anos de seu nascimento e 33 de sua morte. Coube, porém, ao psiquiatra norte-americano Stephen Weissman, professor da Washington School of Psychiatry, lançar luzes realmente originais ao mistério Chaplin e demonstrar que muitos enigmas sobre a personalidade do artista ainda estavam por ser desvendados.

No recém-publicado Chaplin, Uma Vida, Weissman apresenta o resultado de um mergulho psicanalítico na infância e na juventude do criador de Carlitos, o genial vagabundo, além – ou principalmente – da trágica história dos pais dele. Charles ChaplinO resultado permite afirmar que, do seu personagem mais famoso às heroínas e aos enredos de seus filmes, quase tudo o que Chaplin levou às telas era resultado de uma profunda vivência pessoal.

Charles ChaplinMuito antes que o livro fosse aprovado para publicação, Geraldine Chaplin, uma das filhas do comediante, soube do projeto por seus agentes. E recebeu, em choque, a notícia de que sua avó seria retratada nele como uma prostituta sifilítica. Temendo ver a história de sua família distorcida ou alvo de um aproveitador em busca de escândalos, Geraldine - ela também atriz com uma longa carreira - entrou em contato com o autor. Ele apresentou a ela os originais do livro, que a surpreendeu agradavelmente por revelar detalhes fascinantes, muitas vezes dolorosos e quase sempre desconhecidos de seus ancestrais, fruto de décadas de rigorosa pesquisa.

Ao levar Chaplin ao divã, Weissman empreende uma regressão pelos subúrbios londrinos da segunda metade do século XIX, época em que os jovens aspirantes a atores Charles Chaplin Sr. e Hannah Hill, que utilizava o nome artístico de Lily Harley, se conheceram e se apaixonaram. O conto de fadas logo se dissipou, quando a bela atriz passou a uma vida de “trágica promiscuidade”, como definiria Chaplin em notas particulares que ele jamais teve coragem de publicar. As escapadas de Lily culminariam em uma fuga da Inglaterra para a África do Sul com um pretenso nobre, que a levou com promessas de riqueza a uma breve passagem por prostíbulos de Johannesburgo. Após a experiência fracassada, ela retornaria a Londres grávida do filho mais velho, Sydney, portando os primeiros sintomas de uma sífilis que mais tarde a consumiria até à loucura mais devastadora. Aceita de volta pelo marido, ela teve com ele o filho caçula, Charlie. Mas a vida do casal já estava fadada ao desastre: em pouco tempo, ela retomaria os romances extraconjugais e Charles Sr. sairia de casa para sempre, sobrevivendo ao alcoolismo por apenas mais alguns anos.

Enquanto traça um retrato bastante apurado do mundo das variedades vitoriano em que a família Chaplin viveu, dos paupérrimos teatros cockney ao elegante West End, Weissman aprofunda-se nas privações dickensianas sofridas pelo pequeno Charlie, que marcariam sua visão de mundo dali em diante. A começar da noite em que testemunhou o fim da carreira da mãe, subitamente sem voz e catatônica durante uma canção, retirada do palco sob vaias, urros e objetos lançados por uma turba enfurecida. O episódio o deixaria com uma incurável fobia do palco, não importando quantas centenas de vezes se apresentasse depois. E, por mais difíceis que fossem seus primeiros tempos de cinema, a frieza das câmeras sempre lhe daria muito mais conforto que a ameaça potencial de uma platéia.

Um dos mais notáveis feitos de Weissman em sua obra é colocar em perspectiva os tempos de miséria chaplinianos sempre lembrados pelos relatos biográficos. Se é verdade que, uma ou outra vez, ele e o devotadíssimo irmão mais velho, Sydney, tiveram de catar restos de lixo para garantir uma refeição, eles quase sempre contaram com o esforço da mãe de até 18 horaspor dia em uma máquina de costura, para se manterem acima da miséria. Da mesma forma, a ida para o Orfanato Hanwell após a internação de Hannah em um asilo - Com os colegas de orfanato em 1896seu maior trauma, recriado em O Garoto (1921) -, foi provavelmente uma opção mais humana que a de se tornar um menor abandonado ao relento nos subúrbios ingleses. No orfanato, além de receber educação formal pela primeira vez, refeições regulares e um leito seguro, Chaplin vislumbrava sua situação como provisória - o que de fato foi, pois só permaneceu ali por um ano e meio.

O livro aborda outros interessantes aspectos da personalidade de Chaplin, alguns nem sempre positivos, como a permanente recusa em reconhecer a influência de outros comediantes sobre o seu estilo. Weissman enumera cada detalhe da atuação dos astros em voga no começo de sua carreira para demonstrar que nem tudo era original no universo de Carlitos. Em parte, isso se devia ao verdadeiro desprezo que ele cultivava pela comédia em seus primeiros anos de palco.

Ao centro, com o elenco do Casey's Circus
Company em 1906: infeliz por fazer comédia
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Após um início promissor no gênero dramático, com a peça Sherlock Holmes, apresentada em teatros de prestígio entre 1905 e 1906, Chaplin viu-se devolvido ao mundo das variedades, que não apenas identificava como símbolo da ruína de seus pais como julgava ser apenas uma sucessão de tombos entremeados por canções vulgares. Sem falar no medo do fracasso: logo em sua primeira apresentação humorística bolou um personagem hebreu caricatural que irritou a platéia de maioria judia. Em outra ocasião, ficou totalmente afônico quando havia sido escalado para contar longas piadas em um sketch. Por estes e outros fatos levantados emextensa garimpagem, o autor mostra que, em seus primeiros anos de carreira, o humor representava um fardo e um motivo de amargura para o futuro rei da comédia. Ele só aceitaria plenamente sua vocação ao fazer a transição para o cinema, um meio que não lhe exigiria contato direto com o temido público, nem o uso da voz para se expressar.

Chaplin, Uma Vida não é daquelas biografias que empilham fatos, mas tenta analisar os fatores psicológicos e comportamentais que moldaram, mesmo inconscientemente, o ser humano e o artista. Para Weissman, toda a obra cinematográfica de Chaplin deriva do drama vivido por seus pais e do ambiente em que eles se moviam. O vagabundo com seu passo claudicante e ar aristocrático pode ser uma fusão de Charles Sr. - um ator razoavelmente prestigiado, um lion comique, como se dizia dos comediantes bem-sucedidos -, nas noites em que saía embriagado dos pubs após as apresentações, com personagens do submundo, como o vizinho de bairro Rummy Binks. Sobre a afetação de refinamento característica de seu personagem, com ar digno e maneiras polidas mesmo na situação mais desprovida, ele anotou certa vez, que era algo que havia observado na classe proletária inglesa em sua infância, sempre sonhando com a ascenção: “Existe aquela pobreza nobre, serena, nos cockneys, que imitam os que são melhores que eles.” Era o que ele testemunhava em casa também, no tempo em que a sonhadora Lily/Hannah ainda podia manter longe do penhor um belo retrato na parede ou um requintado vaso com flores.

Já suas heroínas, diagnostica o autor, são donzelas em perigo, mocinhas ameaçadas de perder tudo, martirizadas pelo sacrifício em prol dos semelhantes, invariavelmente inspiradas em Hannah Chaplin. Na fantasia do cineasta, sua mãe havia sido levada ao manicômio por não resistir ao esgotamento resultante de sua dedicação a ele e ao irmão. Sem conhecer o diagnóstico de psicose sifilítica, localizado por Weissman nesse novo estudo, Chaplin atribuía a doença mental Chaplin, Uma Vida - Editora Larousse do Brasil – 320 páginas. Tradução: Alexandre Martins. Preço: R$ 44,90de Hannah às longas jornadas de trabalho em estado de desnutrição. Tendo ao mesmo tempo se culpado toda a vida por não impedir a deterioração da mãe, nem ter podido resgatá-la do abismo após o sucesso e a riqueza, ele sublimou esses sentimentos como criador, na imagem da florista cega de Luzes da Cidade, na mãe solteira de O Garoto, na bailarina paralítica de Luzes da Ribalta e em muitas outras personagens. Para elas, no entanto, ao contrário da figura materna, sempre houve uma salvação, um final feliz, que pudesse conduzir àquela famosa “estrada de pó e esperança”.

Chaplin, Uma Vida - Editora Larousse do Brasil – 320 páginas. Tradução: Alexandre Martins. Preço: R$ 44,90

 

 
 
 
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