Dirigido por Alan Parker em 1982, o filme The Wall, inspirado nas músicas do álbum de mesmo nome do grupo Pink Floyd (1979), completa 30 anos neste ano. O longa-metragem continua a conquistar fãs mundo afora, mesmo com a dissolução oficial da banda em 1984.
Os integrantes haviam acabado de lançar o álbum The Final Cut quando romperam, mas tiveram breves retornos nas décadas de 1980 e 1990, sem Roger Waters, o baixista e líder do grupo, e também responsável pelas letras de The Wall e pelo roteiro que virou filme. Só retornaram com sua formação completa em 2005 durante o concerto Live 8.
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| Bob Geldof, no papel de Pink. |
O longa é uma verdadeira descida aos infernos de Pink, o personagem roqueiro interpretado pelo músico irlandês Bob Geldof, líder da banda Boomtown Rats (1975-1984) Trata-se também de uma superprodução com animações de Gerald Scarfe e que funcionam como interpretação das canções do álbum.
Baseado na experiência pessoal de Roger Waters, The Wall mostra através da trajetória turbulenta de um rock star todos os elementos que transformam e definem a vida das pessoas: família, morte, guerra, escola, casamento, trabalho. Todos esses temas são dissecados pelas canções, que ocupam o espaço dos diálogos, aliás, muito escassos ao longo do filme.
Reminiscente das óperas rock das décadas de 1960 e 1970, transformadas posteriormente em filmes, como Tommy (1975) e Jesus Cristo Superstar (1973) The Wall tem sua estrutura narrativa baseada em três fases distintas da vida de Pink. Em crise, ele se isola do mundo ao seu redor e, enquanto espera o próximo show em um quarto de hotel, relembra a infância e os fracassos em seus relacionamentos ao longo da vida.
O público é levado a mergulhar com o protagonista em sua crise depressiva e não há mecanismos para atenuar a espiral descendente e trágica, pois não há nenhuma sequência em que o humor seja utilizado.
O protagonista Bob Geldof, também organizador do Live 8, e Live Aid, concertos organizados para combater a fome na África, faz seu personagem Pink assombrado pelos fantasmas do passado, especialmente pela ausência do pai, morto em combate na Segunda Guerra Mundial, e pela presença marcante da mãe superprotetora. Assim, todos esses traumas são os tijolos que se unem e o ajudam a erguer o muro entre ele e o mundo exterior.
A opressão materna (Mother), o ambiente repressor na escola (que rende a excelente sequência Another Brick in The Wall parte 2), uma comovente crítica a todas as guerras e suas consequências (marcante pela canção Good Bye Blue Sky, e por mais uma animação que emociona devido aos soldados que caem e se transformam em cruzes ensanguentadas) e o fracasso do casamento (com as animações do conflito entre as flores), essas são as sequências mais marcantes da primeira parte do filme.
Assim, os constantes flash-backs são os recursos utilizados e que marcam a divisão entre as fases distintas da vida do personagem principal: a infância, o começo da adolescência e o período em que já está adulto. Essas idas e vindas no tempo aumentam a sensação de angústia no público, mas apesar do grande número de voltas ao passado, há uma distinção bem marcante entre a primeira e a segunda parte do longa-metragem. Na metade inicial, apresentam-se a guerra que matou o pai, a infância, o relacionamento difícil com a mãe superprotetora, o começo da adolescência e as pressões do dia a dia de uma estrela de rock, até mesmo com o assédio das groupies, fãs que acompanham as turnês da maioria das bandas. Na segunda, com o muro erguido, o protagonista já adulto mergulha na depressão e se mostra incapaz de estabelecer contato com o que se passa à sua volta. A canção Comfortably Numb é a que mais traduz esse estado do personagem e seu crescente desligamento do mundo exterior.
Dentro desse clima, a sequência do show é encenada como um comício fascista, onde Pink aparece vestido como se fosse Mussolini e seus seguranças com uniformes iguais aos dos camisas pretas da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, não se sabe realmente como foi a apresentação de Pink. Essa sequência pode ter sido apenas fruto da imaginação do personagem, mas funciona eficazmente como uma crítica à banalização dos concertos de rock em geral e em particular daqueles que o próprio Pink Floyd fazia em grandes estádios com projeções de filmes no fundo do palco, bonecos infláveis gigantes e que pairavam sobre a plateia, efeitos especiais cada vez mais sofisticados, que magnetizavam a atenção do público e exploravam, de maneira avassaladora, as emoções da audiência.
Essa visão de que concertos de rock e outras formas de arte podem ser instrumentos de manipulação política é atribuída exclusivamente a Roger Waters pelo diretor do filme, Alan Parker, que considerou o longa violento demais. Uma afirmação no mínimo questionável, vinda de alguém que dirigiu O Expresso da Meia Noite, de 1978, pois se trata de um retrato aterrorizante de uma prisão turca onde um norte-americano, Billy Hayes, cumpriu pena por tráfico de drogas.
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| Pink em cena que faz referencia ao guitarrista Syd Barret |
De qualquer modo, Parker criticou bastante o resultado final da obra e creditou a si mesmo apenas a direção de atores, que realmente é excelente. O filme marcou a estreia de Bob Geldof no cinema, que teve sua atuação elogiada pela crítica e nos festivais onde a fita foi apresentada. Já o diretor abandonou o projeto na fase de montagem, que ficou a cargo de Waters e Gerald Scarfe, famoso cartunista político da década de 1970, na Inglaterra, o criador de todas as sequências de animação. O filme é renegado até hoje tanto por Parker quanto pelo baixista da banda, bem como detestado por David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd.
Na sequência final, toda em animação, Pink é julgado por ter optado pelo isolamento e todas as pessoas com que se relacionou durante a vida são chamadas a depor. Esposa e professor o consideram culpado, enquanto a mãe continua com seu comportamento superprotetor. Em mais uma crítica feroz às instituições sociais, o juiz é retratado com uma grande nádega no lugar da cabeça. Quando o muro é derrubado, crianças aparecem andando entre seus escombros, que se assemelham aos de uma guerra. Uma recolhe os tijolos (em uma indicação de que pretende erguer seu próprio muro?); outra recolhe garrafas (para sobreviver?) e uma última esvazia o conteúdo de uma garrafa que estava fechada por um pano no seu gargalo (estaria desmontando uma bomba?). Essas interpretações ficam a cargo de cada um dos espectadores.
The Wall provocou uma enorme controvérsia e muitas discussões após o seu lançamento e que duram até hoje entre os fãs mais apaixonados pela obra. Uma visão tão trágica da vida gerou, também, enormes restrições por parte da
crítica. Denominado por muitos um imenso videoclipe com doses excessivas de autopiedade, o roteiro, em algumas sequências, realmente pode ser muito pesado. Entre elas, destaca-se a do pequeno Pink, quando tenta brincar em um playground. Nessa cena, por exemplo, há um excesso de homens e poucas mulheres: sabemos que normalmente isso não se daria, mesmo que a cena ocorresse em um final de semana. Principalmente, levando-se em conta que o período era o do pós-guerra, quando os homens que voltaram do conflito tinham reassumido seus postos de trabalho.
Também o clima de autopiedade, durante todo o filme, foi sempre bastante questionado. Nesse sentido, o próprio Parker declarou que há poucos motivos para se ter pena de um rock star milionário. Entretanto, é preciso se considerar que mesmo essas pessoas passam por crises e podem ter uma visão pouco autocrítica de si mesmas, colocando-se, assim, no papel de vítimas. De qualquer modo, o filme reforçou essa visão. Waters, quando se preparava para criar a versão teatral do mesmo álbum, admitiu que o filme carecia totalmente de humor, o qual teria contribuído para se contar a mesma história de maneira mais equilibrada.

O destino do personagem principal após a queda do muro também gerou discussões. Para muitos, ele não resiste a todas as pressões e morre. Para outros, a visão das três crianças aponta para um recomeço mais esperançoso ou mesmo para a construção de um novo muro. O que reforça a primeira interpretação é a letra da canção final, batizada Outside The Wall, que contém esses versos: sozinhos ou em pares/aqueles que realmente amam você/caminham do lado de fora do muro/alguns de mãos dadas/alguns reunidos em bandos/as pessoas caridosas e os artistas/marcam sua presença. Cabe a cada um escolher a interpretação do final que mais lhe convém.