Um desfile de situações aparentemente desconexas, figuras excêntricas e memórias reais ou imaginárias ao som circense de Nino Rota. Caótico, delirante, desconcertante. Ou “qualquer coisa entre uma sessão de psicanálise e um exame de consciência descozido”, como definiu o autor Federico Fellini na época do lançamento.
Como Cidadão Kane e outras poucas obras, A começar pelo título, 8 ½ marcou um momento de ruptura radical com as estruturas narrativas cinematográficas tradicionais. O cineasta batizou-o assim por ter feito anteriormente sete longas e um episódio de Boccacio 70.
Embora alguns de seus filmes anteriores trouxessem traços autobiográficos, este foi o seu trabalho mais pessoal, mais liberto de qualquer censura e dos cânones estabelecidos do cinema.
Em um de seus escritos, Fellini jura que o filme partiu, paradoxalmente, de um bloqueio criativo, após o sucesso mundial de A Doce Vida. Na ocasião, seus produtores cobravam impiedosamente um êxito semelhante na sequência e, instado a criar, nenhuma idéia parecia lhe vir à mente. Anotava uma cena solta aqui, outra ali, mas nada parecia se conectar com uma história, o que lhe tirava o sono e o fazia, em estado depressivo, imaginar que jamais conseguiria voltar às câmeras. Após longos meses nessa agonia, veio o estalo: a própria crise e os fantasmas que a envolveram seriam o tema do filme, a partir da mente de seu alter ego, Guido Anselmi (Marcello Mastroiani). Ao redor dele gravitariam belezas como Claudia Cardinale, Sandra Milo, Anouk Aimeé, Barbara Steele, Madeleine Lebeau e muitas mais.
Mas Fellini era, como ele mesmo admitia, um grande mentiroso, inclusive para si mesmo. E essa versão poderia ser apenas uma de tantas que inventou, como uma artimanha de marketing pessoal. De qualquer modo, o reconhecimento da crítica mundial foi nada menos que entusiástico e, entre diversos prêmios internacionais, recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Seu caráter único, porém, seria copiado e citado indefinidamente, com maior ou menor dose de talento. O

primeiro a correr o risco foi o coreógrafo Bob Fosse, que já havia refilmado Noites de Cabíria (1957), do mesmo Fellini, em Sweet Charity (1969).
O mergulho do cineasta Anselmi reapareceu no Joe Gideon (Roy Scheider) de All That Jazz, outro musical de Fosse. No ano seguinte, Woody Allen rendeu assumida homenagem à obra no belo Memórias (Stardust Memories), também em preto e branco e também sobre o inferno astral de um diretor. E Peter Greenaway criou 8 1/2 mulheres (1999), em que o ponto de partida era uma exibição na TV do clássico felliniano.
Rob Marshall (Chicago), discípulo de Fosse, foi mais longe e decidiu trabalhar sobre o roteiro de 1963. Mas apesar da produção classe A e do elenco estelar, que incluía Nicole Kidman, Penélope Cruz e até o mito Sophia Loren, o resultado foi um pouco como explicar uma piada com notas de pé de página. Onde Fellini confundia e lançava questões, Nine reiterava e era literal. Nada poderia igualar o espanto e a estranheza do lançamento quase meio século antes.
De fato, copiar ou tentar retomar o trabaho de um cineasta como Fellini em seus momentos mais iluminados, como é o caso de 8 ½, é como tentar refazer um quadro de Picasso, uma escultura de Henry Moore ou uma partitura de Schoenberg. A inspiração para outros artistas pode atravessar o tempo e dar frutos. Mas tentar refazer os seus passos na tentativa de chegar ao mesmo lugar é um caminho sem esperança.