METROPOLIS - Enfim, a versão completa.
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Após mais de oito décadas de cortes, montagens que não lhe faziam justiça, imagens de má qualidade e transcrições duvidosas, como a colorizada de 1984, um dos filmes mais intrigantes e influentes da história do cinema reencontrou-se com a sua vocação original. Exibida por apenas duas semanas após o lançamento em 10 de janeiro de 1927, no Zoo Palast em Berlim, a versão integral do filme, com 153 minutos, era dada como desaparecida desde então.

 

Filmado entre 22 de maio de 1925 e 30 de outubro de 1926, Metropolis foi apresentado na época como o filme mais caro produzido até então, ao custo de 6 milhões de marcos. Apesar da imponência da produção, foi um fiasco de bilheteria, o que levou os produtores da companhia alemã UFA a reduzir a duração nos próprios negativos. O material descartado foi para o lixo e os executivos da norte-americana Paramount que compraram os direitos de distribuição encarregaram-se de relançar uma montagem ainda mais curta, de 93 minutos, que se tornou a oficial.

Em 1984, o compositor Giorgio Moroder produziu uma adaptação de 82 minutos, trazendo efeitos de cor e música da banda de rock Queen e outros artistas como Pat Benatar. A versão foi duramente atacada pela crítica, que a considerou de mau gosto e uma deturpação das intenções de Lang. Moroder defendeu-se dizendo que era uma homenagem e uma forma de renovar o interesse do público por essa obra-prima, o que de fato aconteceu. Os jovens aprovaram.

Em 2001, apoiada por uma pesquisa de quatro anos do historiador cinematográfico Enno Patalos, a Kino Films apresentou uma edição digital de 124 minutos que por quase dez anos pareceu impossível de ser superada. 

Negativo em 16mm

A versão considerada completa agora foi mostrada ao público no Festival de Berlim de 2010, em 12 de fevereiro daquele ano, diante do Portão de Brandeburgo, com o acompanhamento de uma orquestra de 60 integrantes que executou a partitura original de Gottfried Huppertz. A restauração foi possível graças ao que foi considerado a descoberta do Santo Graal cinematográfico: uma cópia do filme original, que havia sido comprada pelo exibidor argentino Peña Rodrigues na semana do lançamento em 1927, cuja lata ficou guardada nos arquivos da Fundação de Cinema de Buenos Aires desde a década de 1980.

Ao saber da existência desse material, o arquivista Fernando Pena empreendeu uma jornada para recuperá-lo que começou em 2004. Quando sua mulher, Paula Félix-Didier, foi trabalhar na Fundação, ele requisitou o filme, mas a entidade estava em mudança para uma nova sede e todo o seu acervo encontrava-se embalado. Apenas em 2008, o pesquisador pode ver o filme e comprovou que ele de fato continha pelo menos um capítulo inteiro de material desconhecido. Tristemente, no entanto, Pena constatou que o original em nitrato de prata e 35 mm havia sido destruído após uma conversão para 16 mm em película na década de 1970. Para piorar, o  processo havia sido feito de forma displicente, sem a devida limpeza dos originais. De qualquer forma, um tesouro havia sido descoberto.

Cena contida no material recuperado

Uma cópia em disco foi mostrada a Enno Patalas, em Munique, na Alemanha. Impressionado, ele atestou o ineditismo das cenas e lembrou que em 2001 havia suprido sua ausência por fotografias e intertítulos baseados no roteiro original de Thea Von Harbou, mulher do diretor Fritz Lang na ocasião em que o filme foi rodado. O próximo passo foi firmar um acordo entre a prefeitura de Buenos Aires e a Fundação Murnau, de Berlim, representada por Anke Wilkening, para a restauração dos fotogramas. Martin Koerber, da Cinemateca Alemã coordenou a tarefa.

Entre as "novas" cenas estão um passeio de carro pela cidade futurista que dá nome ao filme e uma estátua da personagem Hel sendo descoberta. Algumas figuras secundárias ganham mais importância. A restauração digital foi feita imagem por imagem, e as cenas adicionais foram incluídas com ajuda das partituras para o acompanhamento musical. Ainda que não tenha sido possível recuperar totalmente a qualidade dos fotogramas maltratados ao longo do tempo, elas revelaram aspectos ocultos do filme, trazendo à luz subtramas abandonadas pelos cortes anteriores.

 
 

Bastidores da produção do filme

Numa sociedade do "futuro", operários vivem escravizados por máquinas em subterrâneos enquanto uma elite ociosa desfruta de privilégios na superfície tomada por gigantescos edifícios, jardins bucólicos e estádios olímpicos. Irrompe um conflito entre os dois mundos, conciliado pelo filho do patrão, Freder, e o apoio espiritual da visionária Maria.

Um dos marcos do expressionismo alemão, com seus sensacionais cenários artificiais de arranha-céus, estradas, pontes e máquinas, Metropolis é considerado um libelo contra a repressão e a mecanização do homem. Sua realização exigiu a mobilização de milhares de figurantes para as cenas na fábrica e de ilustração do mito da Torre de Babel. Também incluiu efeitos especiais pioneiros, com o uso de maquetes e complicadas trucagens.

As imagens de multidões dispostas como quadros geométricos serviriam de inspiração para Leni Riefenstahl, a cineasta oficial do regime nazista, realizar os desfiles mostrados em filmes como O Triunfo da Vontade. A própria Thea Von Harbour aderiria ao nazismo um pouco mais tarde, enquanto Lang resistiria ao convite para cooperar com Hitler, deixando a Alemanha em 1933.

A atriz Brigitte Helm, que interpreta Maria e o robô, foi revelada neste filme e faria uma carreira expressiva no cinema europeu (L'Atlantide, 1932, O Marido ideal, 1935), conseguindo uma transição tranqüila do cinema silencioso para o sonoro. Na equipe técnica figura o cenógrafo austro-húngaro Edgar G. Ulmer, que nos Estados Unidos dirigiria uma série de filmes de terror e aventura nos anos 1930 e 1940.

Mesmo tendo passado décadas restrito a cineclubes e cinematecas, Metropolis mostrou uma força criativa capaz de influenciar outros clássicos da ficção, como Blade Runner, o Caçador de Androides, Guerra nas Estrelas e Matrix, e obras menores mas bem realizadas, como Gattaca, uma Experiência Genética, Cidade das Sombras, O Quinto Elemento e o primeiro Batman de Tim Burton, para ficar nas produções de Hollywood. Na Europa, pode-se lembrar o Alphaville, de Jean-Luc Godard.

 
 
Galeria de Fotos
 

Visão delirante da luta de classes num futuro imaginário, essa ficção científica imaginada em pleno cinema mudo trazia cenários impressionantes e cenas com milhares de figurantes que se moviam compassadamente em verdadeiras coreografias ao ritmo da partitura de Gottfried Huppertz. O maestro havia feito carreira como cantor de ópera e ator de teatro e cinema antes de se dedicar apenas à composição, uma experiência que o ajudou a entender como poucos o casamento entre atuação e música.

Gottfried Huppertz

Ao final da primeira projeção, em 10 janeiro de 1927, no Zoo Palast, o público irrompeu em intermináveis aplausos - e boa parte deles foi para a orquestra regida por Otto Harzner. No dia seguinte, os jornais eram unânimes em aclamar não só o filme, mas sobretudo sua trilha sonora. Huppertz ficou bastante frustrado quando, após o fracasso de público que se seguiu, o filme teve 60 de seus 153 minutos extirpados pelos produtores e distribuidores, numa tentativa de tornar o trabalho mais comercial. Sua trilha, em conseqüência, perdeu movimentos inteiros.

Essa colaboração entre ele, Lang e Harbou, porém, não foi a única nem a mais caótica. Os três, mais a mulher do compositor, Charlotte, eram inseparáveis frequentadores da agitada vida noturna de Berlim desde que haviam feito seu primeiro trabalho juntos, O Anel dos Nibelungos, em 1924. Na bizarra noite de estreia desse épico, Fritz Lang ainda estava concluindo sua montagem e precisou mandar um rolo por vez ao cinema, à medida em que finalizava a edição. Assim, a orquestra executava o fundo musical de Huppertz durante a projeção e preenchia os intervalos com improvisos quando as luzes se acendiam e a plateia, incrédula, esperava a chegada da próxima parte.

A parceria terminou quando, após a ascenção do nazismo, o diretor foi convidado pelo ministro da Propaganda de Hitler, Josef Goebbels, para ser o cineasta oficial do regime. Apavorado com a idéia, Lang fugiu para os Estados Unidos, mas sua mulher ficou, vislumbrando a possibilidade de preencher a vaga. Ela e Huppertz chegaram a se associar em produções medíocres e cheias de problemas, inclusive com a censura. Huppertz morreu em 1937, antes de completar 50 anos, e seu nome se apagou.



Se Huppertz tivesse seguido o impulso de Lang e emigrado para os Estados Unidos, certamente seu destino teria sido outro. Entre 1933 e 1934, com a instabilidade política na Europa, o fluxo de compositores eruditos para Hollywood, a maioria deles judeus, foi intenso e bem sucedido. Os austríacos Erich Wolfgang Korngold (1897-1957), Franz Waxman (1906-1967), Max Steiner (1888-1971) e Arnold Schoenberg (1874-1951), o húngaro Miklos Rózsa (1907-1995) e os russos Dmitri Tiomkin (1894-1979) e Sergei Prokofiev (1891-1953) trocaram seus países ameaçados pelas sombras do hitlerismo e do stalinismo pela ensolarada Califórnia. Apenas o último fez o caminho de volta, a fim de compor para o gênio Sergei Eisenstein os scores de Alexandre Nevski (1938) e Ivã, o Terrível (1945). Apesar do resultado artístico admirável, Prokofiev cairia em desgraça e sua mulher, espanhola, passaria oito anos na prisão, injustamente acusada de espionagem. Antes disso, porém, sua suíte Pedro e o Lobo foi adaptada para desenho animado pelos estúdios Disney. Já Korngold demonstrou visão ao escapar com a família do emergente nazismo e logo brilhou na Warner Bros. com as trilhas de Adversidade (1936) e As Aventuras de Robin Hood (1938), premiadas com o Oscar. Max Steiner entrou para a história pela música de E o Vento Levou, mas não foi por ele que recebeu um dos seus três Oscars. Rózsa era imbatível nos épicos bíblicos e Tiomkim nos westerns. Franz Waxman conquistaria seus dois prêmios da Academia em sequência, por Crepúsculo dos Deuses (1950) e Um Lugar ao Sol (1951). Em Los Angeles, ele tivera aulas com Arnold Schoenberg, mestre experimentalista banido da Áustria como “disseminador de arte degenerada”. Schoenberg havia tido entre seus alunos Alban Berg e Anton Webern. Nos EUA, ele foi professor de músicos de cinema como o recordista Alfred Newman (43 indicações ao Oscar e 9 vitórias) ou de vanguardistas como John Cage.



A edição reduzida de Metrópolis circulou por cinematecas e ganhou pequenos relançamentos, nenhum deles acompanhados da trilha de Huppertz. No começo da década de 1980, o produtor musical Giorgio Moroder, que criou arranjos para a rainha das discotecas Donna Summer e escreveu o score do thriller O Expresso da Meia-Noite, teve a ideia de restaurar o filme e aplicar nele o processo de colorização, que foi popular por alguns poucos anos. A banda de rock Queen ficou à frente da criação musical, que também agregou nomes como Pat Benatar, Jon Anderson e Bonnie Tyler.

Tornado de domínio público, Metrópolis ganhou roupagem techno em um clipe do grupo alemão Kraftwerk e também recebeu uma trilha totalmente nova de Abel Korzeniowski, discípulo do vanguardista Penderecki, para um relançamento na Polônia em 2004. No mesmo ano, o australiano Benjamin Speed desenvolveu um acompanhamento musical hip hop para a obra, com seu grupo New Pollutants.

Exibição no Parque do Ibirapuera, em 2010

Em 2001, a versão restaurada pelo pesquisador de cinema Enno Patalas começou a resgatar o legado de Gottfried Huppertz. De posse da partitura original e das gravações em 78 rpm que se somaram a fotogramas recuperados, o estudioso conseguiu adaptar o acompanhamento com a ajuda do maestro Bernt Heller. Mas o filme ainda tinha quase meia hora a menos que o original e sua música precisou de significativos cortes. Finalmente, em 2008, com a descoberta em Buenos Aires das imagens consideradas perdidas, imagens e sons se reencontraram definitivamente, para a felicidade do público que descobriu Metrópolis e a alegria dos cinéfilos que sempre receberam visões distorcidas do trabalho de Lang.

A obra ressurgiu imponente no Festival de Berlim de 2010, com o acompanhamento criado por Hupertz executado por uma orquestra de 66 integrantes – como em 1927 - diante do Portão de Brandeburgo. São Paulo foi a capital escolhida para a primeira exibição na América Latina, em 24 de outubro de 2010, na parte externa do Auditório do Ibirapuera, com o acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica. No Rio de Janeiro, a reestréia se deu no Teatro Municipal, em março passado. E em breve teremos no Brasil a versão em blu-ray com som Dolby surround 5.1.

 
Ficha Técnica
Título original: Metropolis
País: Alemanha
Ano: 1927
Duração: 145 minutos
Direção: Fritz Lang
Elenco: Brigitte Helm, Alfred Abel, Gustav Frölich, Rudolf Kleine-Rogge e Fritz Rasp
Roteiro: Thea Von Harbou
Trilha Sonora: Gottfried Huppertz
Fotografia: Karl Freund, Gunter Rittau e Karl Vollbrecht
 
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