Hiroshima, meu amor
Uma artista entre dois mundos, a Ásia e a Europa. E entre dois amores, a literatura e o cinema.

Por Luiz Octavio de Lima

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Um casal murmura confidências e troca lentas carícias em um quarto de hotel ao amanhecer. São praticamente desconhecidos. Ela (Emanuelle Riva) é uma atriz francesa enviada a Hiroshima para estrelar um filme sobre a paz. Ele (Eiji Okada), um arquiteto japonês. Seus nomes não são revelados, mas pouco a pouco fica patente em ambos a necessidade - e a impossibilidade - de esquecer suas vivências traumáticas da guerra. Ele escapou do bombardeio por estar na frente de combate em outra região, mas não teve a família poupada. Ela foi submetida à execração pública em sua cidade natal por ter se apaixonado por um soldado inimigo ao final da ocupação alemã. No cenário da cidade que se reergue das ruínas, eles vivem uma relação que traz à tona traumas sufocados por muitos anos e os levará a cogitar o abandono de seus respectivos parceiros em busca de uma nova vida. O encontro cicatriza feridas interiores, abre outras.

Não é mais fácil nem menos belo apreciar Hiroshima, meu amor, meio século depois de seu lançamento no Festival de Cannes, onde, fora da competição oficial, recebeu o prêmio da crítica internacional e marcou a estreia de Alain Resnais no cinema de ficção. O público de hoje pode estar mais familiarizado com a utilização do conceito de tempo interior e narrativa desestruturada, com idas e vindas na memória. Ao mesmo tempo, o temor de um apocalipse nuclear está menos presente do que no limiar da década de 1960. Seus demais aspectos, porém, ganham mais e mais com o passar dos anos. E o que foi um dos manifestos da Nouvelle Vague hoje é uma obra que não se prende a movimentos, dado seu alcance humanista universal.

O projeto de Hiroshima começou da forma mais improvável, como um trabalho de encomenda ao então documentarista sobre os efeitos da radiação atômica, custeado por um convênio cultural entre a França e o Japão. Resnais vinha do elogiadíssimo Noite e Neblina, que tratava do holocausto judeu. Mas horrorizava-o a ideia de repetir-se.  Pior: ao ver o material filmado com as vítimas da bomba, concluiu que nada poderia ser acrescentado com mais impacto e efetividade. Não desanimou, porém. Imaginou uma abordagem que reunisse personagens de lados opostos do conflito que vivenciassem suas tragédias existenciais sob o pano de fundo do horror nuclear e a sombra da guerra fria.

Sempre modesto sobre sua capacidade autoral, convidou a escritora-sensação da época, Françoise Sagan, para acompanhá-lo ao Japão e preparar o roteiro. Assustada com a dimensão do projeto, porém, ela recusou. Resnais buscou então a ajuda de Duras, com quem estabeleceu uma afinidade imediata. Sem experiência em escrever para o cinema, ela chegou a desanimar: "Fracassei, estou fazendo literatura", disse a Resnais. "Pois faça literatura", respondeu Resnais, encantado com o material. Duras mergulhou no desafio e chegou a solicitar uma atriz que recitasse seu texto, com voz "muito velada, sem pontuação", que transmitisse simultaneamente distanciamento e tragicidade. O pacto de autoria entre eles resultou em um filme-poema reflexivo, repleto de dualidades, em que as palavras têm a mesma força que as imagens.

Honesto, o cineasta conseguiu cumprir sua parte com os produtores, sem deixar de dar sentido à própria criação. Os primeiros quinze minutos do filme intercalam imagens dos corpos dos amantes, que parecem contaminados por uma poeira radioativa, com peças documentais que materializam a devastação provocada em Hiroshima e o estado de seus sobreviventes, onde a palavra "paz" aparece apenas como a marca de um maço de cigarros jogado fora no chão. "Você nada viu em Hiroshima", diz o amante. "Eu vi tudo", garante ela. "O museu, o hospital, o ferro retorcido e queimado, 200 mil mortos e 80 mil feridos em oito minutos...". Você nada viu", insiste ele, como constatando a impossibilidade de se conferir a posteriori uma dimensão real às tragédias, sejam elas pessoais ou coletivas.


Imagens escritas, palavras filmadas

Por Heci Regina Candiani

Marguerite Duras estreou no cinema com o argumento do roteiro de Hiroshima, meu amor. O diretor Alain Resnais a convidou para o projeto por sua ligação afetiva com a Ásia. Mas ela não escreveu um roteiro e sim um texto literário que trazia para o primeiro plano, com o grito silencioso que marca toda sua escrita, a Hiroshima da bomba atômica. Naquele momento, a escritora descobriria uma nova forma de se expressar. Suas palavras não precisavam mais do papel para ganhar vida, podiam se transformar em imagens projetadas em uma tela. Depois da experiência com Resnais, ela se tornou também diretora. De 1958 até sua morte, produziu 58 roteiros, dirigiu 19 filmes e emprestou sua voz rouca à narração de sete longas. Uma das obras mais marcantes de seu cinema – que ela escreveu, dirigiu e na qual também é narradora – é India Song (1975).

Sobre sua obra cinematográfica, ela disse em 1993: "Um filme não é suficiente" e "Não é possível filmar aquilo que escrevo". Sem desistir de enfrentar essas impossibilidades, Marguerite Duras se dedicou às imagens como às palavras, e seus filmes são considerados ainda hoje inovadores por destacarem muito mais as situações psicológicas das personagens do que os fatos de uma trama. Embora ela não tenha mais dirigido nenhum filme depois de 1984, continuou escrevendo roteiros. No início da década de 1990, pouco depois de passar nove meses hospitalizada, após um coma e sofrendo as consequências do alcoolismo, ela escreveu roteiros para  a TV. Frágil e doente, ligou-se, então, a seu último companheiro, Yann Andréa Steiner, 40 anos mais jovem do que ela. Yann foi seu amante, enfermeiro, personagem de seus escritos e ator de um de seus filmes. Também no cinema, a vida de Marguerite Duras se misturava à sua obra. Como sempre foi.

 
 
Título original: Hiroshima, Mon Amour
País: França
Ano: 1959
Direção: Alain Resnais
Elenco: Emanuelle Riva, Eiji Okada, Stella Dassas, Pierre Barbaud, Bernard Fresson
Roteiro: Marguerite Duras
Fotografia: Michio Takahashi, Sacha Vierny
Desenho de Produção: Minoru Esaka, Mayo, Petri, Lucilla Mussini
Trilha sonora: Georges Delerue, Giovanni Fusco
 
 
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