Eleito em agosto de 2004 por um grupo de cientistas consultados pelo jornal inglês The Guardian, como o melhor filme de ficção científica de todos os tempos, Blade Runner - o caçador de andróides, de Ridley Scott, não recebeu uma acolhida entusiástica à época de sua estréia. A bilheteria foi fraca e os analistas especializados trataram a produção como uma aventura futurista a mais, com o agravante - ainda no dizer dos críticos - de ser um tanto confusa e sem ritmo.
Aos poucos, porém, o filme foi ganhando status de cult junto ao público e os próprios analistas especializados acabaram por tratá-lo como obra-prima do gênero. Hoje, visto em perspectiva, percebe-se que Blade Runner não só redefiniu o conceito de ficção científica como influenciou uma série de filmes. Fez um registro do momento e estabeleceu uma estética para os anos 1980. Estão ali referências à investida japonesa sobre o mercado americano (Sony, Honda), ao jogo Atari, o uso intensivo de néon - que se tornou elemento obrigatório no interior de ambientes modernos, á globalização (fala-se vários idiomas, do alemão ao árabe e ao chinês) e os dilemas da guerra fria, que ainda não havia terminado então.
Os diretores de arte David Snyder e Lawrence G. Paull idealizaram uma Los Angeles de 2019 sombria e orientalizada, onde uma espécie de chuva ácida castiga a cidade e onde as pessoas estão em clara decadência física e moral, dominadas por uma corporações e sempre envolvidas com o mercado negro. Nesse ambiente, os andróides, também chamados replicantes, surgem quase como uma raça superior à dos humanos, física e intelectual e moralmente. Sua diferença dos demais é a ausência de lembranças afetivas, o que a Tyrell Corp, empresa que os criou, trata de providenciar por meio de implantes de memória. Mantidos como mão-de-obra ou soldados, eles se rebelam contra esse estado de coisas e sua eliminação é decretada.
A trama de Blade Runner era baseada na novela Do androids dream of eletric sheep? (Os andróides sonham com carneiros elétricos?), de Phillip K. Dick. Mas a história que chegou às telas não era fiel ao livro, ganhando um final feliz por determinação dos produtores, que julgaram o original deprimente. Na versão do estúdio, o policial Deckard (Harrison Ford) era designado para caçar e destruir o grupo de andróides que saíra de controle, mas salvava do extermínio a replicante Rachel, fugindo com ela para Off World, o planeta paradisíaco sonhado pelos terrestres. Na versão do diretor, fica a sugestão de que ele também seria um andróide com os dias contados.
Descoberta dez anos depois, a cópia preparada pelo diretor e rejeitada pelos produtores - sem a narração em off e com um final diferente -, não obteve o impacto imaginado, mas praticamente passou a ser a oficial dali por diante. Não era necessariamente melhor, mas apresentava uma visão mais intrigante. De qualquer forma a discussões propostas pelo autor - Que fazemos no mundo? O que é ser humano? Como poderemos criar algo perfeito se somos tão imperfeitos? - estão presentes nas duas formas, assim como clima de film noir dos anos 40.
Os originais da história haviam sido vendidos à Warner pelos editores à revelia do autor Phillip K. Dick, que inicialmente se opôs enfaticamente à transposição. Ele temia uma adaptação comercial que desprezasse os aspectos psicológicos e sociológicos de sua obra. Ao visitar o estúdio, porém, mudou de ideia. Depois de assistir ao trecho da perseguição de Zhora (Joanna Cassidy) por Deckard pelo cenário caótico da rua do mercado, K. Dick percebeu que suas intenções haviam sido bem compreendidas por Scott e a equipe.
O filme custou US$ 27 milhões e arrecadou apenas US$ 26,2 milhões. Recebeu indicações para os Oscars de Direção de Arte e Efeitos Visuais, perdendo para Gandhi e E.T. O Extraterrestre, respectivamente. Nos 25 anos de lançamento, a Warner preparou uma caixa com quatro versões do filme: uma com a versão do estúdio, uma com a internacional, um pouco mais longa, outra com a do diretor, de 1992, e a chamada edição final, de 2006.
Título original: Blade Runner
País: EUA
Ano: 1982
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Edward James Olmos, William Sanderson,
M. Emmet Walsh, Joe Turkel, Joanna Cassidy
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples, adaptado do romance Do androids dream with electric sheep?,
de Philip K. Dick