Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Dois homens conversam em um bar. É noite. Ari Folman, roteirista, diretor e personagem desta história, é um deles. Seu amigo relata um pesadelo recorrente, no qual é perseguido por 26 cães ferozes. O sonho parece ter relação com o período passado na guerra do Líbano de 1982-84, da qual ambos participaram, servindo ao exército israelense. Mas nesse momento não se tem certeza alguma. Esse é o mote da animação Valsa com Bashir, estreia desta sexta (3).

Folman de nada se lembra. E sai à cata das memórias. Ao investigar, perguntar para uns e outros o que teria ocorrido, ele vai reconstituindo a própria lembrança à medida que desvenda os fatos.

O filme não pode ser classificado como um documentário propriamente dito. Porém, em ficção não pode ser enquadrado. Valsa com Bashir ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e concorreu ao Oscar na mesma categoria, mas os membros da Academia de Hollywood preferiram premiar o japonês Departures.

Ao adentrar as mentes dos amigos que conversam, Folman tenta entender as motivações do conflito, o contexto, o sofrimento de jovens soldados treinados para matar. E faz seu relato com propriedade de quem viu tudo de perto, nos anos de 1980. O filme questiona a ação (ou falta dela) de Israel em relação ao massacre de palestinos executado por milicianos cristãos em setembro de 1982, nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, então cercados pelo exército israelense, que ocupava Beirute.

Não se sabe com certeza o número de mortos. Podem ter sido centenas ou alguns milhares. A repercussão da chacina levou à demissão Ariel Sharon, então ocupante do cargo de ministro da Defesa.

O título do filme faz referência a Bashir Gemayel, líder cristão que a guerra israelense levou ao poder, mas que, antes de tomar posse, foi assassinado num atentado a bomba atribuído à Síria – daí o massacre de palestinos que se seguiu: a vingança dos cristãos 'permitida' por Israel.

Ao final, Valsa com Bashir mostra uma série de imagens reais perturbadoras. A aura de sonho conferida pela animação em grande contraste (lembra Sin City) é tomada de assalto por cenas avassaladoras. Em entrevista no Festival de Cinemas de Cannes, o diretor afirmou que o longa é uma forma de expiação pessoal. Com 19 anos na época da primeira guerra do Líbano (quando os israelenses chegaram a Beirute – e até hoje Israel e Líbano permanecem em guerra), conta que costumava olhar para fotos do conflito sem conseguir se identificar com ele. "Agora,
consigo viver em paz com o meu passado."

 

© Copyright 2007 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados