Por Erika Corrêa

Sem emprego e fazendo algumas apresentações de dança em um restaurante decadente de um bairro pobre de Santiago, no Chile, em plena época da ditadura de Pinochet, Raúl Paredes tem apenas uma obsessão na vida: personificar Tony Manero, o personagem de John Travolta no filme "Embalos de Sábado à Noite" (1977).

Seu sonho é vencer um concurso de imitação do astro em um programa de televisão. Mas com mais de cinqüenta anos e sem dinheiro, a tarefa não é nada simples.

Ao lado da namorada, da filha dela e de outro jovem, eles ensaiam e apresentam seus números de discoteca à la Tony Manero no deteriorado tablado de madeira do restaurante, que fica dentro da pensão onde todos residem.

O que parece um enredo divertido no filme Tony Manero, do diretor chileno Pablo Larraín, é, na verdade, um drama dos mais pesados. Logo no início do filme, o comportamento psicopata de Raúl é revelado em cenas chocantes em que ele comete assassinatos. 

Para completar o quadro sinistro, todos os personagens têm caráter duvidoso, e até os que estão engajados na luta contra a ditadura trafegam sem perspectivas, revelando uma penúria sócio-cultural. A câmera na mão, que resulta em algumas cenas tremidas e a escuridão da película aumentam ainda mais o clima angustiante do filme.

Nos finais dos anos setenta, o Chile vivia em estado de sítio e toque de recolher. A truculência da polícia é mostrada com prisões e espancamentos sem qualquer procedimento legal, assim como os assassinatos praticados pelo protagonista não são desvendados. "Raul mata as pessoas e nada lhe acontece, tanto quanto aos repressores da ditadura", comentou o diretor, que justifica essa escolha para mostrar a impunidade presente na época. 

Prêmio de Melhor Filme e Melhor Ator (Alfredo Castro) no Festival de Turim 2009, o filme de Larraín, que também assina o roteiro, não faz julgamentos, não apresenta heróis e tão pouco finaliza com uma moral. Apenas expõe o comportamento obcecado e doente de seu personagem e as relações com os que o cercam. Daí tem-se uma das grandes cenas e também chocante, em que o personagem Raul tem uma relação sexual com a filha da sua namorada. As imitações de Travolta e danças são ótimas, beirando o tragicômico. Vale destacar que quase todo o elenco é formado por atores de teatro.

A ditadura que parece apenas um pano de fundo é na verdade sustentação para a história e mostra que distante de ideais socialistas ou capitalistas também havia uma classe pobre, e mesmo desengajada atingida pela repressão do regime militar. O filme tem falhas, mas vale o ingresso para quem estiver disposto a enfrentar um drama cascudo.

 


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