Crítica:
Por Josafá Crisóstomo

Esse é o segundo longa-metragem de Céline Sciamma, que também dirigiu Lírios D´água. Enquanto no primeiro filme a diretora buscou falar das descobertas e incertezas emocionais de moças que estavam saindo da adolescência, em Tomboy ela se volta para as experiências, sempre de descoberta e suas consequentes incertezas emocionais, mas, agora, propriamente da infância e/ou pré-adolescência.

É preciso dizer que há uma particularidade que vai se consolidando na cinematografia de Sciamma e que não é um lugar comum no cinema contemporâneo, trata-se da maneira absolutamente delicada, ainda que intensa, com que a diretora explora a experiência íntima de seus personagens, em seus conflitos viscerais.

Em Tomboy (o título do filme é uma expressão que designa em inglês a menina que gosta de se vestir e/ou se comportar como menino), uma garota de cerca de dez anos, Laure (Zoe Héran), vai morar em um subúrbio francês com seus pais e sua irmã mais nova, Jeanne (Malonn Lévana). A família, aliás, parece estar sempre se mudando devido à atividade profissional paterna. No entanto, ainda não começaram as aulas, e Laure é confundida com um menino por uma coleguinha da nova vizinhança e que compartilha da mesma idade: Lisa (Jeanne Disson). Laure resolve assumir tal identidade masculina, apresentando-se como Michael para a garota e toda a turma de meninos com os quais ambas passam a brincar todos os dias, seja jogando bola, nadando etc.

O filme se desenvolve com muita doçura, porque se preserva o tempo todo a inocência envolvida nessa atitude transgressora da garota. Ela apenas quer ser ela mesma ou quem ela melhor se sente sendo e, ainda, ser aceita pelo grupo. Além disso, sua irmã torna-se verdadeira cúmplice do seu engodo e tudo, então, passa a ser parte da realidade vivida por todas as crianças envolvidas: Laure realmente vive e age como Michael durante todos os momentos em que convive com os demais meninos, com Lisa e em cumplicidade com Jeanne, a irmã a quem defende como um irmão mais velho faria.

Um aspecto bastante contundente da direção se deve ao fato de o filme ter em certos momentos aquela característica intrínseca de um thriller: estamos o tempo todo esperando que o pior aconteça. Mas a particularidade mais agradável, graças à habilidade da diretora em dirigir algumas das mais longas e interessantes cenas do filme, é que nelas não se perde, em nenhum momento, o senso de humor presente em situações de absoluto non sense às quais Michael se mete. Humor que também se deve à cumplicidade da sua irmãzinha e que, por fim, é ainda sugerido pelo que paira em um certo imaginário social que, afinal, diz que uma menina não pode ser um menino, ainda que assim se sinta ou queira ser.

O que Tomboy promove é a comprovação de que é mesmo difícil o exercício da tolerância, essa que sempre almejamos como um ideal em relação aos outros e mesmo em um mundo em que as diferenças, cada vez mais, se provam inevitáveis. O filme procura deixar bastante claro que esse exercício será sempre, em primeiro lugar, o da própria pessoa não “tolerada”, ou seja, ela é quem deve se aceitar em primeiro lugar, mesmo na infância e quando se vive a situação de um conflito de identidade em seus inevitáveis desdobramentos, dentre eles o de uma orientação sexual.

Pode parecer que esse é um filme voltado apenas para um público específico e que seria o que frequenta os festivais por onde o filme passou, diga-se de passagem, arrebatando todos os prêmios, como o Teddy Bear, prêmio dedicado a produções gays no Festival de Berlim ou o prêmio do público no 19º Mix Brasil – Festival da Diversidade Sexual, em São Paulo. Engana-se quem pensa assim. O filme é uma joia rara e deve ser assistido por todos os pais, educadores, jovens, homens e mulheres comprometidos com a reflexão em torno do mistério da vida e que, por exemplo, fulgura em todo ritual de passagem desde a infância.

Por fim, é preciso reiterar que as duas garotas, a protagonista e sua irmã foram tão bem dirigidas e são tão exemplares em seus papéis que somos imediatamente arrebatados para a realidade da vida de seus personagens. Com certeza você irá querer conferir esse tesouro e que será sempre um prazer suplementar na fruição da arte cinematográfica: o contato com a grandeza de atuações magistrais.

 

 

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