Crítica:
Por Paula Cunha

Assim como as mulheres antes da liberação feminina da década de 60 que conquistavam um marido com seus dotes culinários, o cinema tem os seus momentos em que cativa o público através do estômago. Soul Kitchen, comédia turco-alemã tem este dom e vai além: seu personagem principal enfrenta uma avalanche de dificuldades ao tentar manter um restaurante de origem grega na cidade de Hamburgo. Sua trajetória em busca de soluções para seus problemas financeiros e pessoais é contada com extrema agilidade e lança mão de um ritmo que cativa quem a assiste e faz com que os clichês utilizados se transformem em um recurso que não compromete a produção.

O diretor Faith Akin (O Som de Istambul e Contra a Parede) estréia no gênero acertando na escolha de um elenco afinado que interpreta os personagens com naturalidade. O protagonista, Zino Kazantsakis, a cargo de Adam Bousdoukos se vê às voltas com a partida da namorada Nadine (Pheline Roggan, de Irina Palm)para a China, sofre de dores horríveis na coluna, enfrenta dificuldades financeiras provocadas pelo irmão viciado em jogo que está em liberdade condicional e tem que lidar um antigo amigo que pretende comprar o terreno onde está seu restaurante. Para atingir este objetivo, começa a sabotar o empreendimento.

Todas estas situações são comuns em diversas comédias, mas a produção turco-alemã acerta ao explorá-las com humor e um ritmo ágil, que lhe rendeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza em 2009. As soluções escolhidas já foram vistas em outros filmes como a de contratar uma banda para atrair um público maior para o restaurante e a de contratar um chef de cozinha que reformula o cardápio mas sua personalidade marcante cria uma série de conflitos com o protagonista e os clientes do restaurante. Mesmo assim elas funcionam e contribuem para o ritmo da produção. Uma delas é a eficiente trilha sonora que acompanha as mudanças que ocorrem na vida do protagonista.

O ator que o interpreta é Birol Ünel, de origem turca que participou de Contra a Parede, filme do cineasta que recebeu o Urso de Ouro de 2004, no Festival de Berlin. As modificações impostas por este novo membro da equipe também são utilizadas como um gancho para criar situações engraçadas como a inicial rejeição por parte de uma parcela dos clientes que deseja os pratos mais simples servidos anteriormente.

Este filme deve agradar o público que se sente cativado pela trama e pelo protagonista e que deseja acompanhar sua evolução pessoal, sem julgar suas vidas e seus relacionamentos. Ela fica acima da média de longas recentes que exploram a culinária e a rotina em restaurantes como Sem Reservas (dirigida por Scott Hicks, com Catherina Zetha-Jones e Aaron Eckhart), onde a trama romântica é totalmente previsível e pode ser lembrado como mais uma produção que se situa ao lado de longas como Chocolate (2000) e Como Água para Chocolate (2000), onde as sequências em que são servidas as refeições contribuem para o desenvolvimento de suas tramas.

Soul Kitchen
Direção: Faith Akin
Roteiro: Faith Akin e Adam Bousdoukos
Elenco: Adam Bousdoukos, Moritz Bleubtreu, Birol Ünel, Anna Bederke.
Produção: Klaus Maeck
Fotografia: Rainer Klaussmann
Ano de produção: 2009

 

 

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