Por Lúcia Helena de Camargo
Quem Quer Ser um Milionário? estreia oficialmente no Brasil nesta sexta (6), embora há duas semanas já esteja lotando as 126 salas de exibição nas quais vêm ocorrendo pré-estreias. A estratégia de lançá-lo em alguns lugares apenas depois da entrega do Oscar pode ter dado um resultado melhor do que o esperado. Foi rodado ao custo de R$ 15 milhões – valor irrisório para os padrões americanos. E agora, com oito prêmios dados pela Academia, incluindo Melhor Filme e Diretor para o britânico inglês Danny Boyle (Trainspotting - Sem Limites), certamente vai arrecadar mundo afora muito mais do que dez vezes esse valor.
Pode-se questionar se de fato é o melhor filme do ano. Mas não a habilidade de fazer o filme certo na hora certa, pois nesta época de crise financeira, é sem dúvida o representante máximo dos novos tempos, da era Barack Obama, da globalização, chamando a atenção para a pobreza de países emergentes como a Índia. Mostra a trajetória de Jamal Malik, menino que nasce e vive em uma imensa favela de Mumbai, maior cidade indiana, com 22 milhões de habitantes. Ele muito cedo perde a mãe, assassinada em um conflito religioso. Nessa fase é Ayush Mahesh Khedekar que encarna Jamal, um garoto de olhos espertos e pernas rápidas, disposto a qualquer coisa para conseguir um autógrafo de seu astro preferido.
Nas sequências rodadas na favela, moleques correm por ruelas estreitas, galinhas são perseguidas, mulheres lavam roupas no córrego imundo, os ricaços que comandam os negócios locais desfilam em carrões. Já se levantou a questão sobre as semelhanças de Quem Quer Ser Um Milionário? com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. E de fato há tomadas assombrosamente parecidas em cores, sombras, ângulos. O diretor inglês disse que é tudo diferente. E a discussão não vai longe porque o brasileiro, diplomático, declarou: "Se Danny Boyle afirmou, acredito".
No filme, encontramos Jamal aos 18 anos, sentado no estúdio do popular programa indiano Quem Quer Ser Um Milionário (Who Wants To Be A Millionaire?). Agora é o jovem ator Dev Patel que assume o personagem. Circunspecto, concentrado, responde perguntas com objetivo de conseguir o grande prêmio, de 20 milhões de rúpias (equivalente a cerca de 1 milhão de reais). Mas o apresentador Prem Kumar (Anil Kapoor) não facilita: faz piadas, ridiculariza o candidato para obter cumplicidade da plateia. E ainda desconfia que o rapaz está trapaceando. Como ele pode saber tantas respostas? E Jamal é levado para um questionamento policial. Ao contar sua história para o inspetor de plantão (Irrfan Khan), voltamos no tempo para acompanhar sua saga de sobrevivência pelas ruas ao lado do irmão mais velho, Salim, e da amiga Latika, seu amor de infância.
Na fase adulta, a bela Freida Pinto encarna Latika. E Salim é vivido por Madhur Mittal. O mundo terá dado tantas voltas que Jamal, empregado como copeiro em uma empresa de telemarketing, terá que fazer bem mais do que responder questões como "Qual é a figura na nota de 100 dólares?" ou o inventor do revólver, para ficar rico e ainda conseguir a mulher que ama.
Não trata-se de um filme revolucionário. Baseado no livro Q and A, do escritor Vikas Swarup, é bem roteirizado (Simon Beaufoy) e conduzido. E entre as maiores qualidades do longa está a montagem de Chris Dickens, também premiada com Oscar. Os diálogos acontecem em hindu e inglês, com alternância dos dois idiomas sem perda da naturalidade ou fluência da trama. E a igualmente oscarizada trilha sonora de A.R. Rahman (além de sua canção Jai Ho) amarra tudo de maneira enfática, jogando na tela um retrato de existência que pode não ser novidade para um habitante da favela da Rocinha ou de Heliópolis, embora o sucesso do filme talvez ajude os espectadores de cinema a reparar mais no resto do mundo. É claro que Boyle faz uso da chamada estética da miséria, que cria belas cenas a partir da mais horripilante das realidades. Mas com um pé em Bollywood e outro em Hollywood, Quem Quer Ser Um Milionário? é otimista. E merece ser visto no cinema.
Crítica:
Por Marcelo Wysocki
Grande vencedor do Oscar 2009, com premiação em oito categorias, incluindo as principais: Melhor Filme e Direção, o filme do diretor Dany Boyle “Quem Quer Ser Milionário?” conta a história do personagem indiano Jamal Malik, interpretado por Ayush M. Khedekar, quando criança e por Dev Patel, quando jovem (indicado ao BAFTA de Melhor Ator).
Ele é um garoto pobre, que tem uma infância difícil na favela de Mumbai com o irmão mais velho Salim (Azharuddin M. Ismail - criança, Ashutosh L. Gajiwala – jovem) e que se encanta pela também solitária Latika (Rubiana Ali – criança; Tanvi Ganesh Lonkar - jovem).
É uma verdadeira história de amor, daquelas de fazer sofrer e derramar lágrimas, com encontros e desencontros que começam ainda na infância do trio e se arrastam por quase duas décadas.
Por meio de flashbacks e cortes frenéticos e ligeiros – que em algumas passagens lembram “Trainspotting” (festejada película de Boyle, de 1996), em outros remete a “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, de 2002) –, Boyle mostra como Jamal Malik conseguiu chegar até a televisão e, por consequencia, ao final do badalado programa que pode deixá-lo milionário.
Adaptação do best-selller indiano Q & A, de Vikas Swarup, de autoria de
Simon Beaufoy, “Quem Quer Ser Milionário?” traz, também, uma trilha sonora sensacional. Sob responsabilidade do compositor A.R. Rahman, e com a parceria de M.I.A, cantora nascida no Sri Lanka e radicada em Londres, é moderna, vibrante, dançante e dá um colorido especial a trama.
Apesar de dirigido, escrito e produzido por ingleses, o filme tem atores procedentes em sua maioria do próprio país. Duas das crianças-personagens moravam realmente em barracos de Mumbai, e graças ao prestígio do filme ganharam do Governo de sua região um apartamento.
O filme mostra Mumbai, a cidade mais populosa do país, de forma muito real, com suas imensas favelas, tão precárias quanto as nossas. Com certeza, um cenário bastante diferente do mostrado na novela global “Caminhos das Índias”.
O longa venceu o Oscar nas categorias melhor filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia, mixagem de som, edição, trilha sonora original e canção original.