Crítica:
Por Erika Corrêa
No mundo contemporâneo, com sua gigantesca indústria pornográfica, é difícil diagnosticar quando uma pessoa tem um comportamento sexual patológico. Por todos os cantos, germinam novas ferramentas que exploram o sexo: internet, chats, filmes, serviços e bizarrices das mais enfadonhas. Mas, como quantificar ou qualificar o ponto em que o desejo ultrapassa a normalidade e se torna transgressor? Ou quando a volúpia é exagerada e se torna insaciável e até molestadora?
O comportamento sexual compulsivo nem sempre está estampado em uma aparência esquisito ou asqueroso. Apesar de elegante e um executivo bem sucedido profissionalmente, Brandon passa a maior parte do dia em chats pornôs, transando com prostitutas ou se masturbando no banheiro do trabalho.
Ele mora em um belo apartamento em Nova York, seu chefe o admira, algumas noites, após o expediente, até saem juntos para uma balada ou outra.
Brandon é atraente, conquista mulheres interessantes, mas seu vício por sexo começa a prejudicá-lo. Primeiro é o seu computador na empresa que tem de passar por uma manutenção, já que está repleto de vírus adquiridos em sites de sexo. Depois, ele não consegue se envolver afetivamente: se um encontro sinaliza relacionamento, é capaz de, literalmente, broxar. Tudo piora ainda mais, quando sua irmã caçula, deprimida e com histórico suicida, se muda para seu apartamento.
Essa é a temática de Shame, o segundo longa-metragem do diretor londrino Steve McQueen (em 2008 fez Hunger). Sucesso na estreia da Europa e dos EUA (o filme), o protagonista Michael Fassbender ganhou o prêmio de Melhor Ator, no Festival de Veneza. Seu personagem atormentado, ríspido e, ao mesmo tempo, frágil, compõe o drama do filme. A irmã interpretada por Carey Mulligan vem somar à carga dramática.
Shame é um filme sério, que toca em um assunto desconfortável e atual. Claro que sempre existiram pessoas com distúrbios e problemas sexuais, mas nunca foi tão tênue a linha entre a doença e a normalidade, já que vivemos em tempos nos quais ter diversos parceiros, ser adepto de swing, de ménages, praticar fantasias excêntricas tornaram-se coisas banais.
O suspense do filme cresce com a indagação do que teria levado os dois irmãos a estarem tão perdidos e desequilibrados. Filmado em Nova York, o filme tem produção totalmente inglesa, por isso, espere ingredientes mais característicos de filmes europeus e não dos norte-americanos. Portanto, nem há respostas e resolução para tudo.